O tempo vai passando, silencioso, no seu caminho arrasta uma brisa leve, mas carregada de memórias, as minhas memórias. É como aquele vento de fim de tarde que me arrepia a pele e me faz lembrar coisas que já não voltam mais.
Dentro desse tempo viaja o peso de um abraço que ficou por ser dado, de uma voz trêmula que se perdeu no eco e já não encontra mais o caminho de regresso. É estranho como certas ausências tornam-se tão presentes como se ocupassem espaço no meu peito.
Meus lábios que um dia foram doces, agora estão secos, já não consigo mais soltar as rimas que guardava nas minhas lembranças. Me recordo das palavras que poderiam ter sido ditas, ensinamentos que ficaram suspensos no ar, como folhas que nunca chegaram a cair da árvore. Percebo que a vida é breve, e basta um segundo para tudo mudar.
Num instante, o que me parecia sólido se desfaz, o que era certo, se evapora. É como areia a escorregar entre meus dedos: quanto mais tento segurar, mais depressa foge.
Meu olhar carregado de dor, que antes parecia eterno, também se dissolve. Meu sofrimento, por mais pesado que seja, acaba sempre por se diluir como tinta na água, e vai-se espalhando até desaparecer.
E no final, sobra apenas uma frase simples, aliás, quase um sussurro cúmplice: “Porte-se bem.” Afinal, o tempo passa depressa, e não pede licença.
®Jorge Bessa Simões
(Baseado em Texto de Autoria Desconhecida)
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"Vou buscando em versos simples descrever meus sonhos que foram compondo minha vida e que tanto me deu prazer, já que os vivi em todos os sentidos. Tudo foi como uma canção que embalou minha vida onde vivi a carência necessitada, porém tudo me foi saciado, e é nos versos simples da vida que agora preservo as minhas velhas memórias poetizadas." (Jorge Bessa Simões) Velhas Memórias Poéticas. Copyright © 2013-24 ®Direitos Autorais Reservados.Lei 9.610/98
terça-feira, 31 de março de 2026
domingo, 29 de março de 2026
"Afastamento nem sempre é ingratidão" (Crônica da Vida)

E assim começava a minha história, eu era um menino risonho, desse que corria descalços pela casa e transformava qualquer canto em mundo. Minha mãe, incansável, fazia do pouco muito.
O meu pai, calado e quase sempre entregue a bebida, ainda assim carregava o peso de garantir o amanhã. Havia amor, imperfeito é verdade, como todo amor humano é, mas ele existia em alguns momentos.
Até que veio o dia que ninguém deveria viver, meu pai alcoolizado não só pela bebida, mas por um fúria incontrolável, me deu uma violenta surra, onde por pouco não me tirou a vida, por acreditar que eu era o culpado por tudo o que de ruim acontecia em casa e por acreditar que eu não era seu filho.
Com isso fugi de casa, busquei refúgio na casa daquela que seria minha avó, por parte do pai que me deu seu sobrenome, porém, um acontecimento brutal, desses que não cabem em palavras simples, atravessou a minha infância e partiu algo dentro de mim, na verdade, dilacerou a minha ingenuidade de criança.
Não foi apenas uma dor física o que senti, foi vergonha, tive medo, me senti confuso, aliás foram sentimentos que não pertencem a uma criança, mas que, ainda assim, passaram a morar no meu íntimo desde que roubaram a minha inocência.
Quando reencontrei minha mãe, depois de um tempo morando nas ruas, ela tentou segurar meus pedaços. Tentou me proteger, me acolher, me reconstruir. Mas há feridas que, quando abertas cedo demais, ensinam o coração a se esconder.
E de novo veio uma outra surra por causa da bebida alheia que me levou a fugir de casa mais uma vez, eu ainda era uma criança mas já tinha em mim um coração marcado pelo sofrimento, e foi assim que fui crescendo em meio as violências do mundo a minha volta.
Creio que cresci rápido demais, como quem queria deixar para trás tudo aquilo que não conseguia entender. Assim, fui aproveitando as oportunidades boas que surgiam e fui fazendo minha própria vida, construí rotinas, busquei me cercar de pessoas que não conheciam a minha história.
E, pouco a pouco, fui tentando apagar tudo o que me doía, ledo engano, achar que conseguiria apagar tudo o que me havia acontecido... até que, um dia, alguém perguntou sobre minha família, ou melhor, pela minha mãe, e eu a neguei.
Neguei uma vez, com hesitação. Na segunda, já havia menos tremor na minha voz, e na terceira vez, minha negativa saiu quase que natural. Foi como se aquela mulher que havia me trazido ao mundo fosse apenas um detalhe dispensável da minha biografia.
Mas não era esquecimento ou ingratidão. Era vergonha. Não da minha mãe, nunca dela, mas do que havia me acontecido. Do que diziam (ou que eu acreditava que diziam) sobre mim. E, na tentativa de fugir daquela dor, acabei fugindo de quem eu mais amava.
Muitos anos depois minha mãe soube da verdade. Porém como ela mesmo me diria, ela sempre soube que algo terrível tinha rasgado nossas vidas ao meio, mesmo quando ninguém havia lhe contado.
E, foi naquele momento, que tivemos de fazer uma escolha silenciosa: insistir ou respeitar. Gritar nossa dor ao mundo ou engoli-la para não nos afastar ainda mais.
Minha mãe escolheu o silêncio em respeito a tudo o que havia me acontecido, ela nunca contou nada a praticamente ninguém, até porque não importava mais, somente a nós dois.
Me recordo que, quando alguém perguntava para ela; "por que seu filho não aparece?." Ela apenas sorria e mudava de assunto. Algumas pessoas a nossa volta chegavam a dizer que era ingratidão da minha parte, mas novamente ela não respondia. Quando me julgavam, ela suportava. Porque, às vezes, amar também é aceitar o afastamento que eu havia escolhido para viver.
Talvez alguns digam que; "Sim, há filhos que esquecem. Há filhos que seguem a vida como se o passado fosse descartável. E isso dói de um jeito que não se explica. Já que para muitos isso pode, sim, ser uma das maiores ingratidões."
Entretanto nem toda ausência é desprezo. Às vezes, é ferida. Às vezes, é vergonha. E às vezes, é um coração que ainda não conseguiu fazer as pazes com a própria história.
Por isso, quando alguém vir pais afastados de um filho, não julgue tão rápido. Nem sempre o que parece abandono é falta de amor. Às vezes, é amor em silêncio, daquele tipo que continua existindo, mesmo quando o outro decide se manter afastado.
®Jorge Bessa Simões
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"Nem toda dor faz barulho" (Crônica da Vida)

Dessa forma muitas vezes eu sumo por um tempo, me recolho no meu próprio mundo, tentando reorganizar os pedaços do que sinto, do que perdi, ou do que ainda não consigo compreender.
Desde quando nasci, aprendi que ao longo da vida teria que lutar minhas batalhas em silêncio, não porque seja uma pessoa fria ou distante, não!
É porque infelizmente sempre senti que ninguém realmente ouviria a profundidade do que carrego. Então acabei criando o hábito de me curar sozinho, no escuro da minha própria alma, esperando voltar quando meu coração estivesse um pouco mais leve.
Mas na verdade muitas vezes não preciso de alguém que resolva minhas dores, o que preciso é de alguém que perceba, que fique, que saiba segurar minhas mãos, que me ouça, sem me fazer perguntas demais.
Porque, no fundo, o que mais me machuca não é sofrer… é sofrer achando que ninguém irá perceber a minha ausência.
Por isso, seria tão bom se as pessoas fossem mais gentis ou que tivessem mais empatia, não só comigo, mas também com todas as pessoas a sua volta.
Nem sempre quando estou sorrindo, significa que estou em paz. Nem sempre quando me afasto, quer dizer que deixo de me importar com as pessoas. Às vezes, só estou tentando sobreviver a algo que já não consigo explicar.
E quando conseguir ter coragem de voltar, depois de ter sumido por um tempo, compreendam que foi para me reconstruir por dentro… por isso não me cobrem explicações.
Se puder, apenas me abrace. Porque, muitas vezes, voltar para mim, já será a maior vitória que meu coração conseguirá alcançar.
®Jorge Bessa Simões
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sábado, 28 de março de 2026
*"Esvaziar-me" (Crônica da Vida)

Por isso a cada dia que passa estou mais convicto de que o silêncio é e será a minha melhor resposta, até porque percebo que a vida tem se encarregado de falar a cada um sobre minhas atitudes, e ações, entretanto acreditar nisso tudo vai de cada um.
E no final cada um, tem sido em seus próprios dias, desmascarado diante do seu próprio espelho, por sua consciência. Sendo assim, tenho em mim a certeza de que a vida tem me trazido de volta aquilo que fui semeando pelo caminho.
Sendo assim me sinto ainda mais convicto de que cada um irá me dar o que tem, afinal cada pessoa oferece ao outro o que transborda de dentro do seu coração e o que sai de cada ser, seja em palavras ou em atitudes.
Assim mais inteiro naquilo que busco, sinto que estou certo do que realmente preciso para chegar onde espero em breve chegar com a misericórdia do Verdadeiro Deus.
Tenho buscado seguir o caminho que escolhi, já que foi nele que descobri que a felicidade só acontece enquanto se consegue andar para frente, pois estou ficando cansado de ficar parado e reclamando, já que isso só me traz atrasos e me torna infeliz!
Por isso tenho me sentido feliz demais por saber que para seguir o caminho que escolhi, não foi preciso de quase nada do que eu achava que precisava.
Esvaziar-me de muitos pesos e traumas do passado tem sido a melhor forma para poder seguir com mais leveza, já que a vida flui e a minha caminhada ficará mais tranquila.
Sendo assim, que o meu sorriso possa se tornar mais sereno e que o meu coração possa sempre seguir em paz.
®Jorge Bessa Simões
(Baseado em Texto de Autoria Desconhecida)
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domingo, 8 de março de 2026
"Quando você vê os pais afastados de um filho, não julguem..." (Crônica da Vida)
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Havia um silêncio estranho naquela casa que antes era cheia de vida. Não era o tipo de silêncio da paz, mas aquele que se instala depois de muitas palavras engolidas, de gestos interrompidos e de abraços que nunca aconteceram.
Minha mãe ainda deixava a janela aberta todas as tardes, como fazia quando eu era pequeno. Era quase um ritual, sempre no mesmo horário, com o mesmo olhar perdido na rua, como se, em algum momento, eu fosse surgir dobrando a esquina com o sorriso de antigamente. Mas o tempo tinha levado mais do que meus poucos anos. Levou também a minha coragem de voltar.
Quem via de fora costumava nos julgar.
— Deve ter acontecido algo grave…
— Mãe e filho não se falam? Que absurdo…
Porém ninguém conhecia a história inteira. Ninguém sabia que, muitas vezes, o afastamento não é abandono, é respeito. Aliás um respeito doloroso, daqueles que exige que a gente se cale mesmo querendo gritar o nome um do outro.
Quando criança, eu era inseparável da minha mãe. Até o dia em que a vida, sem aviso, rasgou nossa história ao meio. Por circunstâncias da vida, houve um momento em que me vi obrigado a fugir de casa por causa das surras que tomava do homem, que até então não entendia, seria meu pai de sangue e que à época era alcoólatra.
Acabei fugindo para casa da minha avó, que até então seria a mãe do pai que me deu seu nome, lá acabei sofrendo um atentado violento, daqueles que deixam marcas que não aparecem só no corpo, mas que deixam cicatrizes estampadas no íntimo.
Com isso, por vergonha e medo, depois de ter sobrevivido após ser jogado na linha do trem quase morto, acabei por me tornar um menino de rua, foi assim que acabei sendo arrancado de casa por um tempo longo demais.
Porém, foi o tempo suficiente para transformar aquele menino em alguém que já não se reconhecia mais no espelho.
Até o dia em que fui pego nas ruas pela polícia do juizado de menores e levado para um lugar onde tentavam descobrir quem eu era e quem seriam meus pais, em certo momento entra uma mulher acompanhando a assistente social na sala onde estava retido, quando a vi de imediato reconheci que era minha mãe, mas foi nesse instante que cometi a pior de todas as ingratidões que um filho poderia fazer.
Mesmo vendo-a diante de mim, a neguei por três vezes, dizendo que aquela mulher não era minha mãe, ainda que no fundo do meu coração quisesse abraçá-la, mas diante do que havia me acontecido sendo só um garoto de oito anos de idade, tive vergonha e medo.
E essa mescla de sentimentos, além das cicatrizes que carregaria para o resto da minha vida, me impelia a negá-la, me culpava e a culpava por tantas coisas em nossas vidas, não conseguia entender certas escolhas que foram feitas, mesmo antes que eu nascesse e que colaboraram para que nossas vidas fossem rasgadas ao meio.
Ainda vendo-a chorar diante das minhas negativas, algo que doía dentro de mim, ela comprovou que era minha mãe, e assim fui entregue a ela, no caminho até nossas casa, ela apenas chorava, e eu tremia de medo pois sabia que reencontraria o homem que me culpava por tantas coisas que eu não entendia, e que com certeza, as surras voltariam a acontecer, como aconteceram, voltei para lá, mas não voltei inteiro.
E pior do que isso, voltei carregando uma vergonha que nunca deveria ter sido minha.
No começo, minha mãe tentou de tudo. Abraços, conversas, silêncio, presença. Mas havia algo nos meus olhos que a impedia de chegar perto de mim, era um muro invisível, construído pela dor e culpa. Até que vieram os momentos que nós jamais esqueceríamos.
A primeira vez foi numa reunião de família. Perguntaram para mim quem era aquela senhora ao meu lado, e mesmo sabendo de quem se tratava, por vergonha e medo, hesitei, desviei meu olhar e disse que era apenas uma conhecida. Percebi que minha mãe sentiu como se o chão tivesse cedido.
A segunda vez aconteceu na rua. Um antigo colega de rua me cumprimentou e, ao notar a presença dela, fez a pergunta natural: — É sua mãe? Mais uma vez neguei com a cabeça, rápido demais. Como quem tenta apagar algo antes mesmo que exista.
A terceira vez foi a mais cruel. Não havia ninguém por perto. Era só ela e eu. E mesmo assim, quando ela tentou se aproximar, ouviu: — É melhor, a senhora não dizer que é minha mãe.
Eu só tinha oito anos de idade, não compreendia o quanto tudo aquilo nos machucava, porém não foram palavras ditas com raiva. Foram ditas com vergonha e medo. E aquilo partiu o coração dela mais uma vez. Porque, naquele instante, minha mãe entendeu algo que ninguém mais entenderia: o filho não a rejeitava por falta de amor…, mas por excesso de dor, ainda que ela só tenha sabido de tudo o que me acontecerá, muitos anos depois.
Foi assim que acabamos por nos afastar, porque após uma outra surra mais violenta, voltei a fugir de casa, e mesmo ela tentando me encontrar pelas ruas, quando eu a via, me escondia para não ser encontrado, em certo momento ela não me procurou mais, não por desistência, mas por respeito, como ela me comentaria anos depois.
Ela tomou tal atitude por respeito ao meu tempo, até para que eu pudesse assimilar minhas dores e minhas feridas. À decisão, embora fosse só uma criança, era só minha. Ainda que aquela decisão a destruísse por dentro, como me corroia também, um pouco a cada dia.
Mesmo sem saberem de todos os fatos, as pessoas nos julgavam, até porque é mais fácil apontar o dedo do que enxergar o que está escondido. Mas a verdade é que existem distâncias que não são feitas de falta de amor, são feitas de sobrevivência.
Assim passei da infância roubada para minha adolescência, me tornei adulto, construí minha vida, segui em frente da maneira como podia e com as lições que a vida me ensinava. Mas há coisas que o tempo não apaga, apenas esconde em camadas mais profundas.
Porque em algum lugar dentro de mim, sempre continuou existindo o menino que um dia chamou aquela mulher de mãe, sem vergonha, sem medo e sem dor. Sempre acreditei que um dia pudesse voltar, até porque entendia que nunca precisaria negar minha história para continuar vivendo.
No fundo do meu coração acreditava que, talvez, quando esse dia chegasse, a janela ainda estaria aberta, como um dia a encontrei, foi então que compreendi que o amor de mãe… esse nunca se afasta, ele apenas ensina a esperar.
Por isso digo sempre; "Quando você vê os pais afastados de um filho, não julguem... muitas vezes eles apenas estão respeitando uma decisão que partiu dele, afinal, o filho irá fazer a própria vida... mas esquecer seus pais que tanto se sacrificaram por ele, seria uma das maiores ingratidões que existe, em especial com a mãe que o carregou no ventre."
E depois, muitas vezes a gente desconhece todos os fatos de uma história que tem dois lados, e nem toda verdade é absoluta, que o que é para mim, nem sempre é o certo para o outro, por isso tenho aprendido a entender a verdade dos outros, e a respeitá-la tanto quanto espero que respeitem a minha.
Sendo assim, não tenho o direito de julgar, porém tenho total direito de mudar de opinião... uma... duas... três, quantas vezes quiser.
Porque a vida me ensinou que idealizar as coisas ou as pessoas é um erro, porque os meus defeitos fazem parte da minha personalidade, e uma pessoa sem defeitos não teria graça nenhuma. Assim estou aprendendo a me preocupar menos e a viver mais. Afinal, tudo tem um motivo, e todas as pessoas que passaram na minha vida me deixaram lições, uma delas é que nenhuma dor será para sempre, até porque enquanto estiver vivo tenho a possibilidade de recomeçar de novo!!
Minha mãe ainda deixava a janela aberta todas as tardes, como fazia quando eu era pequeno. Era quase um ritual, sempre no mesmo horário, com o mesmo olhar perdido na rua, como se, em algum momento, eu fosse surgir dobrando a esquina com o sorriso de antigamente. Mas o tempo tinha levado mais do que meus poucos anos. Levou também a minha coragem de voltar.
Quem via de fora costumava nos julgar.
— Deve ter acontecido algo grave…
— Mãe e filho não se falam? Que absurdo…
Porém ninguém conhecia a história inteira. Ninguém sabia que, muitas vezes, o afastamento não é abandono, é respeito. Aliás um respeito doloroso, daqueles que exige que a gente se cale mesmo querendo gritar o nome um do outro.
Quando criança, eu era inseparável da minha mãe. Até o dia em que a vida, sem aviso, rasgou nossa história ao meio. Por circunstâncias da vida, houve um momento em que me vi obrigado a fugir de casa por causa das surras que tomava do homem, que até então não entendia, seria meu pai de sangue e que à época era alcoólatra.
Acabei fugindo para casa da minha avó, que até então seria a mãe do pai que me deu seu nome, lá acabei sofrendo um atentado violento, daqueles que deixam marcas que não aparecem só no corpo, mas que deixam cicatrizes estampadas no íntimo.
Com isso, por vergonha e medo, depois de ter sobrevivido após ser jogado na linha do trem quase morto, acabei por me tornar um menino de rua, foi assim que acabei sendo arrancado de casa por um tempo longo demais.
Porém, foi o tempo suficiente para transformar aquele menino em alguém que já não se reconhecia mais no espelho.
Até o dia em que fui pego nas ruas pela polícia do juizado de menores e levado para um lugar onde tentavam descobrir quem eu era e quem seriam meus pais, em certo momento entra uma mulher acompanhando a assistente social na sala onde estava retido, quando a vi de imediato reconheci que era minha mãe, mas foi nesse instante que cometi a pior de todas as ingratidões que um filho poderia fazer.
Mesmo vendo-a diante de mim, a neguei por três vezes, dizendo que aquela mulher não era minha mãe, ainda que no fundo do meu coração quisesse abraçá-la, mas diante do que havia me acontecido sendo só um garoto de oito anos de idade, tive vergonha e medo.
E essa mescla de sentimentos, além das cicatrizes que carregaria para o resto da minha vida, me impelia a negá-la, me culpava e a culpava por tantas coisas em nossas vidas, não conseguia entender certas escolhas que foram feitas, mesmo antes que eu nascesse e que colaboraram para que nossas vidas fossem rasgadas ao meio.
Ainda vendo-a chorar diante das minhas negativas, algo que doía dentro de mim, ela comprovou que era minha mãe, e assim fui entregue a ela, no caminho até nossas casa, ela apenas chorava, e eu tremia de medo pois sabia que reencontraria o homem que me culpava por tantas coisas que eu não entendia, e que com certeza, as surras voltariam a acontecer, como aconteceram, voltei para lá, mas não voltei inteiro.
E pior do que isso, voltei carregando uma vergonha que nunca deveria ter sido minha.
No começo, minha mãe tentou de tudo. Abraços, conversas, silêncio, presença. Mas havia algo nos meus olhos que a impedia de chegar perto de mim, era um muro invisível, construído pela dor e culpa. Até que vieram os momentos que nós jamais esqueceríamos.
A primeira vez foi numa reunião de família. Perguntaram para mim quem era aquela senhora ao meu lado, e mesmo sabendo de quem se tratava, por vergonha e medo, hesitei, desviei meu olhar e disse que era apenas uma conhecida. Percebi que minha mãe sentiu como se o chão tivesse cedido.
A segunda vez aconteceu na rua. Um antigo colega de rua me cumprimentou e, ao notar a presença dela, fez a pergunta natural: — É sua mãe? Mais uma vez neguei com a cabeça, rápido demais. Como quem tenta apagar algo antes mesmo que exista.
A terceira vez foi a mais cruel. Não havia ninguém por perto. Era só ela e eu. E mesmo assim, quando ela tentou se aproximar, ouviu: — É melhor, a senhora não dizer que é minha mãe.
Eu só tinha oito anos de idade, não compreendia o quanto tudo aquilo nos machucava, porém não foram palavras ditas com raiva. Foram ditas com vergonha e medo. E aquilo partiu o coração dela mais uma vez. Porque, naquele instante, minha mãe entendeu algo que ninguém mais entenderia: o filho não a rejeitava por falta de amor…, mas por excesso de dor, ainda que ela só tenha sabido de tudo o que me acontecerá, muitos anos depois.
Foi assim que acabamos por nos afastar, porque após uma outra surra mais violenta, voltei a fugir de casa, e mesmo ela tentando me encontrar pelas ruas, quando eu a via, me escondia para não ser encontrado, em certo momento ela não me procurou mais, não por desistência, mas por respeito, como ela me comentaria anos depois.
Ela tomou tal atitude por respeito ao meu tempo, até para que eu pudesse assimilar minhas dores e minhas feridas. À decisão, embora fosse só uma criança, era só minha. Ainda que aquela decisão a destruísse por dentro, como me corroia também, um pouco a cada dia.
Mesmo sem saberem de todos os fatos, as pessoas nos julgavam, até porque é mais fácil apontar o dedo do que enxergar o que está escondido. Mas a verdade é que existem distâncias que não são feitas de falta de amor, são feitas de sobrevivência.
Assim passei da infância roubada para minha adolescência, me tornei adulto, construí minha vida, segui em frente da maneira como podia e com as lições que a vida me ensinava. Mas há coisas que o tempo não apaga, apenas esconde em camadas mais profundas.
Porque em algum lugar dentro de mim, sempre continuou existindo o menino que um dia chamou aquela mulher de mãe, sem vergonha, sem medo e sem dor. Sempre acreditei que um dia pudesse voltar, até porque entendia que nunca precisaria negar minha história para continuar vivendo.
No fundo do meu coração acreditava que, talvez, quando esse dia chegasse, a janela ainda estaria aberta, como um dia a encontrei, foi então que compreendi que o amor de mãe… esse nunca se afasta, ele apenas ensina a esperar.
Por isso digo sempre; "Quando você vê os pais afastados de um filho, não julguem... muitas vezes eles apenas estão respeitando uma decisão que partiu dele, afinal, o filho irá fazer a própria vida... mas esquecer seus pais que tanto se sacrificaram por ele, seria uma das maiores ingratidões que existe, em especial com a mãe que o carregou no ventre."
E depois, muitas vezes a gente desconhece todos os fatos de uma história que tem dois lados, e nem toda verdade é absoluta, que o que é para mim, nem sempre é o certo para o outro, por isso tenho aprendido a entender a verdade dos outros, e a respeitá-la tanto quanto espero que respeitem a minha.
Sendo assim, não tenho o direito de julgar, porém tenho total direito de mudar de opinião... uma... duas... três, quantas vezes quiser.
Porque a vida me ensinou que idealizar as coisas ou as pessoas é um erro, porque os meus defeitos fazem parte da minha personalidade, e uma pessoa sem defeitos não teria graça nenhuma. Assim estou aprendendo a me preocupar menos e a viver mais. Afinal, tudo tem um motivo, e todas as pessoas que passaram na minha vida me deixaram lições, uma delas é que nenhuma dor será para sempre, até porque enquanto estiver vivo tenho a possibilidade de recomeçar de novo!!
®Jorge Bessa Simões
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"A força que pulsa em você, mulher" (Poema)

Ou a doçura que o olhar costuma entregar;
É sobre o aço que em ti foi moldado,
E a coragem imensa de saber recomeçar.
És o equilíbrio entre o caos e a calmaria,
A mão que sustenta, o peito que abriga,
Transformas o cansaço em pura poesia,
E fazes do mundo uma morada mais amiga.
Em cada gesto, um pouco de história,
Em cada passo, o peso de mil direções,
Não buscas apenas a efêmera vitória,
Mas a verdade que toca os corações.
Que hoje e sempre, mulher, sejas celebrada,
Pela voz que ecoa e pelo silêncio que diz,
Mulher, em tua essência, a vida é sagrada,
E em teu brilho, o mundo se faz mais feliz.
®Jorge Bessa Simões
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"Mulheres tecidas no sangue, na amizade e na fé" (Poema)

Que une o carinho e admiração que tenho,
Por muitas mulheres a minha volta,
Desde a minha infância e que começou com minha mãe,
É algo muito mais profundo, que o mundo não lê ou vê,
As mulheres na minha vida são a força mansa que sopra no vento,
A muitas delas vão além da união das almas,
Uma grande maioria se uniram na minha caminhada pela fé,
Hoje além das aparentadas, tem muitas que são minhas amigas,
E muito mais se tornaram minhas irmãs de jornada e oração,
Boa parte dessas mulheres seguram minha mão,
Ainda mais quando os passos vacilam,
Para mim essas mulheres são o reflexo da graça em cada ação,
Suas vozes me acalmam quando meu coração não silencia,
Quando juntamos as mãos às erguemos ao céu em oração,
E que nos ajuda a transformar nossos prantos em semente de luz,
Que mesmo sob o cansaço nos mantemos fiéis em dias ruins,
Refletindo, no brilho dos olhos, a paz de Jesus Cristo,
Por isso nessa singela homenagem quero dizer sempre;
"Obrigado por vocês mulheres serem abrigo, sustento e flor, e por cada palavra que nos cura e cada abraço que nos faz crer que nossa amizade é uma bênção que vem do nosso Deus Jeová, e que isso continue a ser uma herança eterna que, nem o tempo faz perecer."
®Jorge Bessa Simões
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"O coração da nossa família, minha mãe" (Poema)

A minha família é um jardim de raízes profundas,
Onde a força feminina é o que me fez crescer,
Tudo começou no colo e na luz da minha mãe,
Parte de um exemplo que nos fez florescer.
Anos depois ao meu lado, a esposa é o porto e a parceria, Construindo o agora com amor e devoção,
Enquanto o riso das minhas irmãs traz a doce nostalgia,
De quem partilha o sangue e a mesma direção.
Hoje olho para as filhas, minhas sobrinhas e vejo o futuro,
Que logo serão pura alegria e luz,
Me recordo das cunhadas, que se tornam o laço seguro,
Pois a amizade sincera delas é o que me conduz.
Sejam as que chegaram agora ou as que já são história,
Cada uma de vocês, mulheres são um pilar de coragem e fé, Guardo em cada abraço as nossas memórias,
E é um privilégio serem quem são, pelo que cada uma é.
Vocês são o norte, o abrigo e a canção,
O coração que mantém nossa família unida,
Fica aqui minha eterna e maior gratidão,
Às grandes mulheres que dão sentido à minha e a nossa vida.
®Jorge Bessa Simões
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"O Alicerce e a Flor" (Às mulheres da minha família) (Poema)
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Há uma força que não se explica, só se sente,
É o amor de mãe, que ensina a caminhar,
E é o brilho da esposa, que faz o meu presente contente.
Há a cumplicidade das minhas irmãs e o riso compartilhado,
A renovação que as minhas sobrinhas trazem no olhar,
E tem as minhas cunhadas, que a vida me deu de presente, Somando carinho e ajudando a vida a avançar.
Mulheres que são raízes, troncos e flores,
Que seguram o mundo quando ele parece tremer,
Pintam nossos dias com as mais lindas cores,
E nos ensinam, com paciência, o que é viver.
Nesta família, vocês são o norte e a canção,
A doçura que cura e a coragem que guia,
Que guardemos cada uma em nosso coração,
Com gratidão profunda, hoje e todo dia.
"Dedicado para as mulheres que fazem da minha família o melhor lugar do mundo. Com todo meu amor!"
®Jorge Bessa Simões
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sábado, 7 de março de 2026
"E o nosso amor se fez lar" (Poema)
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(Homenagem dedicada a minha Esposa)
Muitos veem apenas a força que você carrega,
A pressa do dia a dia, a entrega que não nega,
Mas eu tenho o privilégio de ver o que ninguém vê,
Que é o brilho no teu olhar que me faz sempre querer você.
Você que é o equilíbrio no meio de qualquer tempestade,
A mistura perfeita de doçura e autoridade,
Admiro a mulher que você se tornou, com tanto brio,
E a forma como preenche, com sua luz, o meu vazio.
Neste Dia da Mulher, meu amor, o que eu quero celebrar,
É o privilégio diário de poder te acompanhar,
Pois você não é apenas a mulher da minha vida,
É a minha melhor escolha, a minha paz merecida.
Que você se sinta gigante, como de fato você é,
Pela sua calma, sua doçura, sua graça e sua fé,
Obrigado por ser o meu porto nesse meu caminhar,
Por isso hoje, e em todos os dias da vida, eu vou te amar.
®Jorge Bessa Simões
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"A Força da Mulher" (Poema)

Não é sobre a delicadeza de uma pétala ao vento,
Mas é sobre a raiz que sustenta o mundo em movimento,
É ser o eco de vozes que o tempo tentou calar,
E a coragem de quem aprendeu,
Sozinha muitas vezes a se agigantar.
Mulher é plural, é verso, é verbo de ação,
É quem carrega o amanhã na palma da mão,
Ela não cabe em molduras, nem em definições rasas,
Pois enquanto uns tenta jogá-la ao chão,
Ela inventa as asas.
Tem a sabedoria da avó, o fogo da juventude,
Vive na busca constante por espaço e plenitude,
No traço da história, ela é a tinta e o papel,
Mulher é a força da terra e a imensidão do céu.
Que hoje não seja apenas o dia da flor,
Mas o dia do respeito, do direito e do valor,
Pois ser mulher é, acima de tudo, existir com fervor,
Transformando a luta em vida, e o cansaço em amor.
®Jorge Bessa Simões
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sexta-feira, 6 de março de 2026
"Menino de rua, um ciclo que se fecha" (Crônica da vida)
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O Viaduto do Chá já não tinha mais o mesmo silêncio das madrugadas de 1964. E eu já não era mais um menino de rua, todos me chamavam por meu nome, nas mãos tinha as marcas geradas pelas latas de filmes que carregava entranhada nos poros.
Mas no "crachá do jornal" onde fui trabalhar em 1970 como assistente de laboratório fotográfico tinha o meu nome, "Jorge - Office-boy", mais que isso, ele tinha o retrato de quem venceu a vida no dente da engrenagem.
A duras penas e muito trabalho diuturno consegui comprar a prestação um carro usado do qual sempre tinha sonhado, agora eu era dono de um Simca Chambord 1967 que foi reformado por mim mesmo nos meus dias de folga.
No banco do carona, o lugar que seria do Radar estava vazio; meu velho companheiro de orelhas em pé havia partido anos antes, enterrado sob uma laranjeira no quintal da primeira casa que o ex-menino de rua conseguiu alugar lá na Mooca
Senti um aperto no peito quando sai para dar minhas primeiras voltas nas ruas do bairro, foi então que resolvi dirigir até o centro de São Paulo, algo me puxava para ir até a Boca do Lixo, não!. Não iria atrás das prostitutas como alguns faziam aos finais de semana ou quando recebiam seus pagamentos, minhas intenções eram outras, e tinha um motivo muito especial.
Assim estacionei perto da Rua General Osório, o cenário já era outro diferente dos meus tempos de menino de rua, mas as sombras ainda eram as mesmas.
Olhando a minha volta, vi uma mulher sentada em um banco de praça, observando o movimento com uma elegância que o tempo tentava, em vão, desgastar. O casaco de pele sintética fora substituído por um xale de lã batida, e o batom vermelho, antes berrante, agora era um traço fino e cansado. Era a Gaúcha.
Me aproximei devagar, o cheiro de jasmim barato e do cigarro que ela fumava, me atingiu como um soco de nostalgia. Parei a poucos metros dela e disse, com a voz embargada:- "Um dia me disseram que se eu voltasse a pedir esmola, a senhora mesma me daria uma surra." Se lembra disso, Senhora?
A Gaúcha levantou os olhos. Levou alguns segundos para processar o rapaz de ombros largos, camisa de botão e chaves de carro na mão. Mas quando ela viu o brilho nos olhos daquele "guri" que ela havia dado um banho com água morna há alguns anos atrás, um sorriso enviesado surgiu em seu rosto.
E segurando com uma das mãos o meu rosto, olhou nos meus olhos, murmurou:- "Olha só... não é que o guri cresceu," a voz estava mais rouca do que me lembrava, e completou me dizendo:-"E parece que aprendeu a usar as mãos, como eu mandei."
Não nos abraçamos de imediato; a rua ensina a manter uma certa distância de respeito. Depois de algum tempo sentei-me ao lado dela que abriu a mão, revelando uma pequena caixinha de veludo. Dentro, não havia joias, mas as chaves de uma pequena casa que eu havia alugado meses antes, na zona leste, e as do meu carro.
Então disse a ela:- "Gaúcha, meu trabalho está tá indo bem. Agora tenho um lugar para morar, não é de luxo, mas pelo menos tem um chuveiro quente e ninguém vai me mandar sair da calçada, e eu vim te buscar para você conhecer e dar uma volta no meu carro."
Ela olhou para as chaves e depois para as minhas mãos ainda marcadas por ter carregado tantas latas de filmes. Uma lágrima teimosa borrou o rímel pesado que ela usava, e me respondeu:- "Eu não aceito caridade, guri. Você sabe disso."
Calmamente respondi a ela:- "Não é caridade," minha resposta foi firme, e continuei dizendo:- "Na verdade vim te convidar porque o meu aluguel com você está atrasado, lembra daquela canja de galinha de 1966? Então o juro tá alto."
A Gaúcha soltou uma gargalhada que ecoou pela rua e todos a nossa volta nos olharam, sem entender nada, aquela era a mesma risada que um dia espantou os meus agressores sob a garoa.
Ela pegou as chaves, fechou a minha mão com a sua e, pela primeira vez, deixou-se ser levada para outro lugar, que não fosse a Boca do Lixo, e por alguém que ela mesma salvou do abismo.
Com essa atitude, o menino de rua que eu tinha sido um dia, finalmente encerrava aquela história, ciclo da rua, finalmente, o meu ciclo da rua havia se fechado.
®Jorge Bessa Simões
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quinta-feira, 5 de março de 2026
"Um acordo de meio fio com o menino de rua" (Crônica da Vida)
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Agora já não estava mais só no Viaduto do Chá, até por causa do frio e também porque tinha uma companhia comigo, era um cachorro que vivia nas ruas e acabamos por nos encontrar.
Certa noite estava encolhido sob o vão de um casarão antigo na Barão de Itapetininga quando senti: um focinho úmido e quente contra meu pescoço. Era um vira-lata de pelo encardido e orelhas em pé, tão costela-e-osso quanto eu.
Não tinha nada para oferecer para ele, mas o cachorro não pedia pão, tudo que ele pedia era trégua. Naquela noite, pela primeira vez, o frio não venceu. O calor do cachorro, que batizei de "Radar", por causa das suas orelhas que ficavam virando de um lado para o outro, me serviu de cobertor vivo.
Acabou que o cachorro virou minha sombra, meu guarda-costas de dentes à mostra contra quem tentasse mexer comigo enquanto eu dormia.
Porém minha sorte mudou numa noite de terça-feira, em frente ao antigo Cine Art-Palácio. Eu tentava engraxar os sapatos de um sujeito apressado que me empurrou com força, eu cai, o Radar latiu furioso, avançando na canela do agressor.
O homem levantou a mão para espancar o cachorro, mas uma voz de trovão, com cheiro de perfume barato interrompeu o gesto, ela disse; "Se encostar a mão no cachorro ou no guri, eu abro um mapa na sua cara, seu covarde!"
Era uma mulher alta, cabelos claros, olhos azuis, nunca me disse seu nome, mas soube que todo mundo a conhecia como Gaúcha. Ela usava um casaco de pele sintética que brilhava sob os postes de luz e tinha o olhar de quem já tinha visto o inferno de perto e resolvido morar lá. A Gaúcha não era uma santa de altar; era uma mulher da noite, calejada pela Boca do Lixo, mas que guardava no peito um resto de infância que a rua não tinha conseguido matar.
Em nenhum momento ela perguntou o meu nome. Apenas me pegou pelo braço, fez um sinal para o cachorro e caminhamos até sua pensão. Lá, o meu mundo mudou de cor.
Ela me fez tomar um banho, aliás o primeiro em meses, com água morna, a Gaúcha mandou eu tirar a roupa, fiquei envergonhado com a presença dela, mas mesmo assim, ela me ajudou a tomar banho tirando as crostas de poeira e medo da minha pele.
Depois daquele banho gostoso, me deu um prato de canja de galinha que fumegava, e que foi dividido com o Radar em um canto da cozinha.
Enquanto nós comíamos, ela nos contou um pouco da sua história e de como viera parar em São Paulo, naquele momento, compreendi que a Gaúcha não queria um "filho", ela queria um sobrevivente, e esse era eu.
Assim a Gaúcha se tornaria minha mentora improvável. Ela usava o pouco que sobrava dos seus ganhos e da sua influência com os "coronéis" da região para conseguir para mim algo que valia mais que ouro nos anos 60.
Foi assim que tempos depois, quando eu já tinha 12 anos, ela me conseguiu um lugar de aprendiz de office-boy em um estúdio de filmes de chanchadas na Boca do Lixo.
"Escuta aqui, guri," ela disse, enquanto ajeitava a gola da camisa nova que tinha comprado para mim. "A rua te deu os dentes, mas o trabalho vai te dar as mãos. Não olhe pra trás e cuida desse cachorro. Se eu te vir pedindo esmola de novo, eu mesma te dou uma surra."
E lá fui eu, levando o Radar, que agora dormia sobre um tapete de estopa entre latas de filmes e monte de cartazes de cinema.
A Gaúcha continuou na noite, desaparecendo entre as luzes de neon e o fumo dos cigarros, mas eu nunca me esqueci que a minha vida foi costurada pelas mãos de uma mulher que a sociedade chamava de "perdida", porém foi a única pessoa naqueles dias cruéis que me encontrou, me ensinou muitas coisas e me mostrou um caminho que poderia fazer a diferença na minha vida.
Eu, a Gaúcha e o Radar ainda nos veríamos muitas outras vezes, por um tempo ainda ia dormir no quarto de pensão onde ela morava, isso quando não acabava dormindo no corredor por causa dos clientes que ela recebia, mas enfim isso é uma outra história.
E foi desta maneira que fiz um acordo de meio fio, com a vida e a mulher que me estenderá a mão, não para me bater, me cobrar ou me julgar, mas que ajudou a me salvar.
®Jorge Bessa Simões
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quarta-feira, 4 de março de 2026
"O menino invisível no Viaduto do Chá" (Crônica de Vida)

Em especial para os pequenos meninos de rua, como eu, de apenas oito anos de idade, a capital paulista não era a "locomotiva do Brasil", na verdade aos meus olhos assustados, era como um bicho de concreto que rangia dentes de ferro e cuspia fumaça cinza.
Naquele tempo a ditadura se desenhava nos jornais que os senhores de terno liam apressados, enquanto isso a minha guerra era outra, a minha infância não foi só perdida ou roubada; ela foi confiscada, com isso confiscaram até minha inocência.
No lugar de cadernos, tive que aprender a carregar uma caixa de engraxate que pesava mais que meu próprio corpo. No lugar do afeto ou do carinho, aprendi a ler os humores do céu e a agressividade dos sapatos.
Para mim, sobreviver no centro de São Paulo nos anos 60 exigia uma logística cruel que nenhuma criança deveria conhecer, por exemplo; o frio. O inverno daquela década era impiedoso.
Eu dormia sobre folhas de jornal "O Estado de S. Paulo", não pelas notícias, mas porque o papel era a única barreira entre meus ossos e o cimento gelado do Viaduto do Chá. O segredo era o "abraço de bicho", encolher-se até que o queixo tocasse os joelhos, tentando conservar o calor que a barriga vazia insistia em dissipar.
Depois tinha a fome, e como menino de rua, para mim ela tinha um som, que era o barulho das portas dos restaurantes se fechando no final da noite. Aprendi a ter uma amizade estratégica com os fundos das padarias na Rua Direita, esperando pelo pão "amanhecido" que, às vezes, vinha acompanhado de um chute de algum funcionário de mau humor.
Mas pior que essas duas situações, tinha a violência. Na rua era um território de sombras, havia o medo da "polícia do juizado" que se pegassem um de nós, nos recolhiam como se fossemos lixo, era pior que cachorro sendo laçado pela carrocinha, para piorar as coisas, ainda tinha o medo de homens cujos olhos brilhavam de um jeito errado na escuridão dos becos ou quando vinha se esconder debaixo do viaduto. Tive que aprender a ser como fumaça, estar em todo lugar, mas não ser notado por ninguém.
Certa noite, sob a garoa fina que era a marca registrada da cidade naquela ocasião, encontrei um carrinho de rolimã quebrado perto da Praça da Sé. Por alguns minutos, me esqueci que meus pés estavam rachados pelo sereno.
Me sentei no pedaço de madeira e, no silêncio da madrugada, imaginei que cruzava a cidade em velocidade da luz, longe do cheiro do cano de descarga e do frio que cortava como navalha.
Aquele pedaço de madeira era o último vestígio do menino que eu deveria ser. No dia seguinte, troquei o carrinho por um pedaço de charque com um vendedor de rua que queria aproveitar as rolimãs.
Assim a sobrevivência sempre vencia a ludicidade, e desta maneira sobrevivi aos anos 60, não virei estatística, embora a cidade tenha tentado me devorar em cada esquina. Cresci com as marcas da rua, não apenas as cicatrizes físicas, mas aquele olhar vigilante de quem sabe que o mundo não é, e nunca seria um lugar seguro.
E foi dessa maneira que a minha infância ficou depositada em algum bueiro da Avenida São João, perdida entre o barulho dos bondes e o grito dos jornais.
Hoje, quando caminho pelo centro de São Paulo, já como homem feito e de sapatos limpos, ainda sinto um arrepio quando a garoa cai. Não é frio, nem é o medo, são as memórias de um tempo em que eu era um menino invisível no Viaduto do Chá, lutando contra os monstros noturnos, contra os pesadelos do que me acontecerá, e contra gigantes de concreto para simplesmente ver o amanhecer.
®Jorge Bessa Simões
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terça-feira, 3 de março de 2026
"Fui um menino de rua" (Crônica da Vida)
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Tente imaginar um menino tendo que fazer a pior escolha da sua vida, depois de ter sido deixado quase morto na linha de trem, por causa do que me fizeram.
Naquele tempo, muitos do que se aproximavam de mim, me perguntavam; "Porque você vive nas ruas? Você gosta de ser um menino de rua?." Porém ninguém me perguntava, "porque eu perdi os sonhos dourados de criança que a vida um dia me prometeu."
Assim me tornei um menino que vivia nas ruas de uma grande metrópole, morava e dormia um dia aqui, outro dia ali, e noites acolá. E nunca ninguém me perguntava onde estariam meus pais?. Aliás, o medo de que soubessem o que me acontecerá, e por causa das cicatrizes que carregava no meu corpo miúdo, me levava a responder que não os tinha.
Mas um dia alguém me acolheu e me ajudou a frequentar uma escola, algo que não duraria muito, por causa de muitas coisas que até hoje me doem ao lembrar.
Sempre fui sabido, aprendia rápido as coisas, talvez por isso não me esqueço de que a rua foi uma escola para mim e me ensinou muito do que sei, até a ter desgosto, porque na rua era, cada um por si, tive que aprender a brigar e me defender, vi muita violências, passei fome e humilhação para comer, mas eu sobrevivi.
Na rua a luta por um pedaço de pão ou um pouquinho de comida, era na base da "lei do cão", na rua era um ambiente de constante tristeza e amargura, se eu desse um vacilo, não tinha perdão!
Uma vez um ajudante de cozinha num dos lugares que eu ia atrás de comida, me perguntou; "Você gosta de morar na rua?."
Eu apenas balançava a cabeça dizendo "Não!", porém o medo e a vergonha não me davam opção, pois das poucas vezes que tentei voltar para a família, eu era tratado como alguém diferente de todos, para piorar me faziam sentir culpado por tudo que me aconteceu na vida.
Resultado, tive que voltar e aprender a morar, me acostumar que o meu lar era a rua, que debaixo das pontes tinha mais proteção, ledo engano, quantas vezes tinha que fugir da polícia do juizado de menores, isso quando por várias vezes tinha que me esconder dos meninos maiores e até dos adultos da rua que eram verdadeiros crápulas ou monstros em forma de gente. E assim eu vivia de lá, pra cá, sem ter paradas até para dormir.
Tem pessoas que até hoje me perguntam, porque que sou tão desconfiado, ou porque estou sempre olhando para todos os lados?. Alguns pensam, que já fui ladrão, por ter sido menino de rua, mas nunca roubei. Sei que é difícil acreditar, mas nunca fiz isso, quando tinha fome, eu pedia comida pra comer. Porém muitas vezes dormi de barriga vazia.
Tive alguns vícios, isso eu sei! E aprendi a tê-los por estar naquela vida, mas, não era a vida que queria, se pudesse escolher. Me tornei um menino de rua, porém se alguém por piedade, viesse me socorrer ou acreditasse em mim, talvez eu não correria o risco de ver chegar o meu fim, se não me fizesse acreditar que eu era o culpado de tudo, iria agradecer, porque eu queria vencer!.
Não queria me tornar um homem de rua, tampouco não queria perder todas as esperanças que ainda me restavam, já me bastava ter perdido aquela inocência que têm todas as crianças tinham.
Sim!. Fui um menino de rua, melhor, acreditem, me fizeram ser, não fui eu quem pediu!
®Jorge Bessa Simões
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segunda-feira, 2 de março de 2026
*"Quatro tempos de um menino de rua" (Crônica da Vida)

Tinha o cheiro do engraxe, a fome de vento, e morava no vão do esquecimento.
São Paulo rugia, erguia o seu muro, e eu, pequeno, moldava o meu futuro.
Um tal de "Professor" sempre me dizia: "Escuta o chiado! O rádio é a voz do mundo guardado."
Aprendi a ler o silêncio e a desviar do guarda e dos atritos da vida.
Depois vi chegar a tal da Tropicália com sua guitarra, e o grito do rock, que mesmo no asfalto queimando era algo bendito.
Sou o menino de rua que correu com o caderno na mão, descrevendo o medo e a revolução.
Cresci com o Metrô, na terra vermelha, troquei o jornal por uma centelha.
Meu lápis virou lente, o meu olhar virou prova, e me tornei testemunha do retrato da angústia na cidade nova.
Sob a luz vermelha do laboratório, ajudei a revelar o avesso do auditório e vi a mordaça imposta por uma ditadura.
Onde havia o silêncio da bota e do aço, eu pus o foco no cansaço e no meu passo.
Logo não seria mais um pingo de gente, nem sombra, nem rastro.
Logo eu teria o olhar mais atento, seria o meu próprio maestro.
São Paulo não para, mas certa vez eu a detive, num clique eterno, em preto e branco, onde vi as palavras "Ame-o ou Deixe-o".
Assim foram os quatro tempos de um menino de rua que virou o olhar, e olhando, buscava um novo horizonte, e ainda que muita coisa me acontecesse, iria tentar chegar no meu objetivo na vida.
®Jorge Bessa Simões
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domingo, 1 de março de 2026
"O menino de rua que queria que soubessem o seu nome" (Crônica da Vida)

Naquela época, São Paulo não apenas corria; ela pulsava em uma frequência elétrica e perigosa. O céu de brigadeiro dos anos dourados tinha dado lugar a uma névoa de incerteza, e a cidade, que antes cheirava a café e fumaça dos freios de bonde, agora exalava o odor de asfalto quente e gás lacrimogêneo.
Eu não era mais um pingo de gente entre a multidão. Aos onze anos, quase doze, era um garoto magro de pernas compridas, que vestia uma calça boca-de-sino remendada e uma camisa de tergal amarelada.
O caderno de capa dura que tinha comprado antes, ainda resistia as intempéries do clima úmido de São Paulo, terra da garoa, que eu escondia com minhas coisas entre algumas brechas dos viadutos onde muitas vezes me escondia do tempo ou da polícia do juizado de menores, mas agora estava cheio de histórias, poemas e poesias, além de anotações sobre os "loucos" que eu via nas escadarias do Teatro Municipal.
Muitas vezes, quando o tempo ajudava, ficava encostado em um poste de iluminação na Rua Conselheiro Crispiniano. O ar era carregado. Naquele tempo surgiu a era dos grandes festivais de música da TV Record.
O som das ruas, não eram mais só dos bondes raspando os trilhos, tinha também os enormes "Papa-Filas" da FNM que puxavam as carretas de passageiros da CMTC, que além do barulho soltavam uma fumaça espessa de diesel, e nas praças de onde partiam, tinha o som dos pregões de vendedores de bilhete, as lojas de eletrodomésticos, aumentavam o volume dos sons das guitarras distorcidas de Os Mutantes e a voz visceral de Caetano e Gil.
As mulheres que circulavam pelas ruas do centro, exibiam o visual da moda na época, com suas mini-saias audaciosas que usavam como fardas impecáveis. A elegância antes de 1965, tinha sido atropelada por uma explosão de cores psicodélicas e óculos de aros grossos.
Naquela ocasião, já não mais engraxava sapatos para sobreviver, agora eu trabalhava como "leva-e-traz", uma espécie de "Office-Boy", para um estúdio de filmes de chanchadas na região da Rua do Triunfo. E mesmo fazendo isso, já que conhecia os atalhos das ruas de São Paulo, ainda assim, tinha que fugir das viaturas da rádio-patrulha, os famosos "Fuscas" que vigiavam a moral e os bons costumes, além da polícia do Exército da época na ditadura.
Um dia, no meio do burburinho, reencontrei o "Professor". O velho parecia menor, mais curvado, mas o rádio Transglobo ainda estava lá, chiando como uma panela de pressão.
Quando ele me viu, disse: "Rapaz! Ouviu essa?". Ele gritou, apontando para o rádio que tocava algo que parecia uma mistura de samba com rock. "É rapaz, a música tá mudando. Estão colocando eletricidade no pandeiro. O mundo vai explodir e a gente vai dançar sobre os cacos."
Sorri, mas agora era um sorriso de quem já entendia que o mundo não era apenas uma crônica de jornal. Foi quando percebi que algo a nossa volta estava acontecendo; "Professor", o senhor viu? Estão fechando tudo cedo. O pessoal tá com medo das sombras."
O "Professor" deu de ombros e me disse: "Medo é para quem tem algo a perder, rapaz. Nós? Nós somos os donos da calçada. E a calçada ninguém confisca."
De repente, um estrondo. Não era música. Era uma manifestação de estudantes que descia a Barão de Itapetininga, foi então que vi os cartazes pintados à mão, no instante seguinte, começou uma correria, vi que surgiu uma barreira humana, cheia de policiais com seus cassetetes batendo nos escudos.
Instintivamente, abri minha bolsa de lona, pena que eu não tinha uma câmera fotográfica, era caro demais para um office-boy de rua, mas tinha o meu olhar. Então saquei o caderno e, com uma velocidade que só a fome e a pressa ensinam, comecei a escrever todo movimento daquela massa humana.
Entre as linhas do que escrevia, descrevi o rosto de uma moça que corria com os sapatos na mão, os cabelos ao vento, os olhos cheios de um brilho que não era de medo, mas de vida.
Naquela noite, por causa da balburdia que tinha acontecido no centro de São Paulo, tive que dormir no terraço de um prédio abandonado no Bixiga. Dali eu olhava para baixo e via a cidade iluminada pelos faróis não só dos Fuscas, agora tinha também dos Opalas e Corcéis.
São Paulo estava se tornando um monstro de concreto que nunca dormia, e eu, que antes era só um menino de rua, percebi que estava me tornando um adolescente de rua, e também uma de suas células mais resistentes.
Foi então que abri meu caderno na última página, e entre o desenho que que havia feito do Edifício Itália de 1965 e a manifestação de 1967, escrevi uma única frase: "Se a cidade não para, também não vou parar até que ela aprenda meu nome e lembre-se que eu existo"
®Jorge Bessa Simões
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