segunda-feira, 2 de março de 2026

*"Quatro tempos de um menino de rua" (Crônica da Vida)

Nasci numa noite de sereno, na infância vivi entre bondes e trilhos. Naquele tempo era só um pingo de gente, sem nada e sem brilho. No Viaduto do Chá, meu mundo era plano, visto de baixo, por um soberano de pano.
Tinha o cheiro do engraxe, a fome de vento, e morava no vão do esquecimento.
São Paulo rugia, erguia o seu muro, e eu, pequeno, moldava o meu futuro.
Um tal de "Professor" sempre me dizia: "Escuta o chiado! O rádio é a voz do mundo guardado."
Aprendi a ler o silêncio e a desviar do guarda e dos atritos da vida.
Depois vi chegar a tal da Tropicália com sua guitarra, e o grito do rock, que mesmo no asfalto queimando era algo bendito.
Sou o menino de rua que correu com o caderno na mão, descrevendo o medo e a revolução.
Cresci com o Metrô, na terra vermelha, troquei o jornal por uma centelha.
Meu lápis virou lente, o meu olhar virou prova, e me tornei testemunha do retrato da angústia na cidade nova.
Sob a luz vermelha do laboratório, ajudei a revelar o avesso do auditório e vi a mordaça imposta por uma ditadura.
Onde havia o silêncio da bota e do aço, eu pus o foco no cansaço e no meu passo.
Logo não seria mais um pingo de gente, nem sombra, nem rastro.
Logo eu teria o olhar mais atento, seria o meu próprio maestro.
São Paulo não para, mas certa vez eu a detive, num clique eterno, em preto e branco, onde vi as palavras "Ame-o ou Deixe-o".
Assim foram os quatro tempos de um menino de rua que virou o olhar, e olhando, buscava um novo horizonte, e ainda que muita coisa me acontecesse, iria tentar chegar no meu objetivo na vida.

®Jorge Bessa Simões

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domingo, 1 de março de 2026

"O menino de rua que queria que soubessem o seu nome" (Crônica da Vida)

O ano era 1967 ou 68, como havia escrito no meu caderno, agora eu criaria o meu próprio mapa, melhor, eu queria de soubessem que eu existia e tinha um nome.
Naquela época, São Paulo não apenas corria; ela pulsava em uma frequência elétrica e perigosa. O céu de brigadeiro dos anos dourados tinha dado lugar a uma névoa de incerteza, e a cidade, que antes cheirava a café e fumaça dos freios de bonde, agora exalava o odor de asfalto quente e gás lacrimogêneo.
Eu não era mais um pingo de gente entre a multidão. Aos onze anos, quase doze, era um garoto magro de pernas compridas, que vestia uma calça boca-de-sino remendada e uma camisa de tergal amarelada.
O caderno de capa dura que tinha comprado antes, ainda resistia as intempéries do clima úmido de São Paulo, terra da garoa, que eu escondia com minhas coisas entre algumas brechas dos viadutos onde muitas vezes me escondia do tempo ou da polícia do juizado de menores, mas agora estava cheio de histórias, poemas e poesias, além de anotações sobre os "loucos" que eu via nas escadarias do Teatro Municipal.
Muitas vezes, quando o tempo ajudava, ficava encostado em um poste de iluminação na Rua Conselheiro Crispiniano. O ar era carregado. Naquele tempo surgiu a era dos grandes festivais de música da TV Record.
O som das ruas, não eram mais só dos bondes raspando os trilhos, tinha também os enormes "Papa-Filas" da FNM que puxavam as carretas de passageiros da CMTC, que além do barulho soltavam uma fumaça espessa de diesel, e nas praças de onde partiam, tinha o som dos pregões de vendedores de bilhete, as lojas de eletrodomésticos, aumentavam o volume dos sons das guitarras distorcidas de Os Mutantes e a voz visceral de Caetano e Gil.
As mulheres que circulavam pelas ruas do centro, exibiam o visual da moda na época, com suas mini-saias audaciosas que usavam como fardas impecáveis. A elegância antes de 1965, tinha sido atropelada por uma explosão de cores psicodélicas e óculos de aros grossos.
Naquela ocasião, já não mais engraxava sapatos para sobreviver, agora eu trabalhava como "leva-e-traz", uma espécie de "Office-Boy", para um estúdio de filmes de chanchadas na região da Rua do Triunfo. E mesmo fazendo isso, já que conhecia os atalhos das ruas de São Paulo, ainda assim, tinha que fugir das viaturas da rádio-patrulha, os famosos "Fuscas" que vigiavam a moral e os bons costumes, além da polícia do Exército da época na ditadura.
Um dia, no meio do burburinho, reencontrei o "Professor". O velho parecia menor, mais curvado, mas o rádio Transglobo ainda estava lá, chiando como uma panela de pressão.
Quando ele me viu, disse: "Rapaz! Ouviu essa?". Ele gritou, apontando para o rádio que tocava algo que parecia uma mistura de samba com rock. "É rapaz, a música tá mudando. Estão colocando eletricidade no pandeiro. O mundo vai explodir e a gente vai dançar sobre os cacos."
Sorri, mas agora era um sorriso de quem já entendia que o mundo não era apenas uma crônica de jornal. Foi quando percebi que algo a nossa volta estava acontecendo; "Professor", o senhor viu? Estão fechando tudo cedo. O pessoal tá com medo das sombras."
O "Professor" deu de ombros e me disse: "Medo é para quem tem algo a perder, rapaz. Nós? Nós somos os donos da calçada. E a calçada ninguém confisca."
De repente, um estrondo. Não era música. Era uma manifestação de estudantes que descia a Barão de Itapetininga, foi então que vi os cartazes pintados à mão, no instante seguinte, começou uma correria, vi que surgiu uma barreira humana, cheia de policiais com seus cassetetes batendo nos escudos.
Instintivamente, abri minha bolsa de lona, pena que eu não tinha uma câmera fotográfica, era caro demais para um office-boy de rua, mas tinha o meu olhar. Então saquei o caderno e, com uma velocidade que só a fome e a pressa ensinam, comecei a escrever todo movimento daquela massa humana.
Entre as linhas do que escrevia, descrevi o rosto de uma moça que corria com os sapatos na mão, os cabelos ao vento, os olhos cheios de um brilho que não era de medo, mas de vida.
Naquela noite, por causa da balburdia que tinha acontecido no centro de São Paulo, tive que dormir no terraço de um prédio abandonado no Bixiga. Dali eu olhava para baixo e via a cidade iluminada pelos faróis não só dos Fuscas, agora tinha também dos Opalas e Corcéis.
São Paulo estava se tornando um monstro de concreto que nunca dormia, e eu, que antes era só um menino de rua, percebi que estava me tornando um adolescente de rua, e também uma de suas células mais resistentes.
Foi então que abri meu caderno na última página, e entre o desenho que que havia feito do Edifício Itália de 1965 e a manifestação de 1967, escrevi uma única frase: "Se a cidade não para, também não vou parar até que ela aprenda meu nome e lembre-se que eu existo"

®Jorge Bessa Simões

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