sexta-feira, 9 de outubro de 2026

"Ao tocar o ventre da tua mãe" (Poema)

Ao tocar na barriga da tua mãe, meu neto,
Além de sentir o arredondar do seu ventre,
Ainda que por poucos segundos,
Pude sentir o seu agitar,
De vida tua mãe carrega,
E que em breve neste mundo você irá chegar.

Naquela fração de segundos do meu toque
No ventre da tua mãe, meu neto,
Pude ouvir o pensamento desse pequenino ser,
Que em breve fará parte de nossas vidas,
Senti no agito do seu sentimento,
A emoção de ter sido tocado através do ventre da tua mãe,
E onde pude sentir o bater forte do seu coração.

Ainda que mal possa compreender as incertezas,
Tive um breve vislumbre de você meu neto,
Que mesmo na barriga da tua mãe já vive seus sonhos,
Sonhos sentidos num momento tão breve,
Que nem ouso contar,
Pois quem cresce neste mundo ventral,
Tem segredos que não se pode partilhar.

Mas parte dos sonhos de você meu neto,
Que vive nesse momento no ventre de tua mãe,
Me fez ver na fração de um relâmpago,
Que no ventre dela cabe o céu e a terra,
Além do carinho que você já sente de nós,
Mesmo que estejamos do lado de fora, a sua espera,
Nele cabe a ansiedade que se tranquiliza no caminhar da tua mãe,
Onde o embalar do seu ventre te faz sonhar.

Quando toquei no ventre da tua mãe, meu neto,
Pude sentir sua emoção ao ser tocado por seu avô,
Pois mesmo aqui fora vi que essa barriga que te carrega,
Está um menino que logo, logo,
Irá habitar meu coração e passear no meu lar.

Onde se o Verdadeiro Deus assim me permitir,
Irei contar para você que naquele breve instante,
Quando toquei na barriga da tua mãe,
Pude vê-lo na expectativa de logo vir ao mundo,
Sabendo que você irá sentir saudades,
Desse ventre seguro quando tudo acabar,
Mas que ao lado daqueles que já o ama,
Você meu neto começará a viver,
O que há de mais profundo numa família,
O amor que todos, e de mim como seu avô,
Iremos lhes ensinar...

E pensar que essa emoção sentida,
Aconteceu em nossas vidas,
No breve momento em que te toquei,
No ventre da tua mãe, meu neto,
Já amado e esperado.

®Jorge Bessa Simões

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"Ser mãe" (Poesia)

É um privilégio tão grande uma mulher ser mãe,
Que até mesmo aquelas que já adormeceram na morte,
Ao serem levantadas de seus túmulos memoriais,
E as que passarem com vida no dia do julgamento,
Para o novo milênio de Jesus Cristo,
Continuarão à ser mãe de seus filhos, ETERNAMENTE.
Já pensou nisso?

®Jorge Bessa Simões

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"Mãe, a mulher que me deu seu ventre e a vida" (Poema)

Meus dias se aproximam do fim, sinto-me infeliz sem sua presença, cada dia que passa sinto-me triste, ainda não aceitei ter perdido você minha mãe.
Mesmo na distância das nossas vidas, você nunca deixou de ser minha mãe, e acredito que sentia o quanto te amava, mesmo vivendo distantes, ainda assim erámos muito próximos.
Mas nesses dias da sua ausência nada mais importa, me recordo que pedi para que você ficasse aqui, porém a vi partir sem que nada pudesse fazer, não pude vencer a morte que tirou-a de mim.
Nesses últimos dias procuro fazer mudanças pois acredito que um dia iremos nos reencontrar, essa é uma das minhas esperanças.
Me lembro do tempo em que compartilhávamos nossos anos e o quanto nós vivemos nossos dias, não importava o que nos acontecia, nos amávamos como mãe e filho, sabíamos como encontrar nossas trilhas, mesmo quando o mundo nos mostrava outro caminho, porém a vida tomou rumos que nos separou.
Mesmo assim sentia seu carinho e amor, até o dia em que trocamos nossas últimas palavras sem que soubéssemos que elas seriam de despedidas.
O que me restou são meus tristes dias de dor com os olhos cheios de amargas lágrimas, quisera poder mudar aqueles anos em que não fiz minhas mudanças.
Meus dias estão passando, e mesmo estando ao lado de outras pessoas queridas, me sinto nessa vida cada dia mais sozinho, pois não tenho mais você, mãe, aqui comigo.
Você que um dia compartilhou o seu ventre como mulher, e me deu o maior presente de todos, me deu a vida, e a sua vida foi para mim, meu maior presente, e ainda é, mesmo nestes últimos dias que ainda me restam.

®Jorge Bessa Simões

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"Minha mãe me avisou e ensinou" (Poema)

Como foi bom mãe, você ter me avisado e não ter omitido de mim as durezas do mundo, não ter me protegido com meias verdades e me ensinado com cada palavra do seu coração, ainda que as vezes tenha te achado meio exagerada ou dramática.
Sei que não foi fácil para você assistir cada queda ou erro meu, as vezes sem querer quis te culpar por não ser como as outras mães que afagavam seus filhos concordando com o que eles faziam, mas você foi forte.
Quantas vezes me deixava chorar sozinho e depois passava merthiolate para curar as marcas das minhas desobediências, e o danado ardia "pra caramba" e você dizia que "se esperneasse seria pior", ainda ouço você me dizendo isso quando as vezes tropeço ou caio, sei que "se espernear é pior" já que a vida é um grande levanta-e-cai.
Sou agradecido por não ter construído um castelo ilusório ao meu redor, por me mostrar que o pão custava muito, que precisava diminuir o tempo no banho para economizar água e energia, e saber dar valor a cada centavo ganho com suor, é verdade, a vida tem um custo alto, mãe.
Ainda bem que você mãe não me criou como um príncipe, se não nem saberia fritar um ovo e o miojo seria meu prato principal, ainda bem que você não sustentou nenhuma vaidade minha, o que me fez ver que eu era maior que isso, você me criou para o mundo, e este, o mundo real, não poupa príncipes e nem princesas.
Ah, e por não ter me criado para esperar a princesa da carruagem que se transforma em abóbora depois da meia noite e que eu achava resolveria as minhas aflições, compreendi que a vida quer a gente de peito aberto, coragem e a cara para bater, e sabe mãe, meu rosto anda dormente, mas não vou desistir não.
Tropecei e tropeço tantas vezes e me reequilibro de novo, mas mãe, agora mato um leão por dia mesmo com medo, encaro o dragão do jeito que sei e posso, o que não posso, é negar você como infelizmente fiz um dia e nem negar o que você me ensinou, assim minha mãe, por tudo que me fez para ser quem sou, sempre vou dizer mesmo na sua ausência desta vida, eu te amo muito, ainda que a vida tenha compromissos sérios e urgentes.

®Jorge Bessa Simões

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quinta-feira, 8 de outubro de 2026

"Esvaziar-me" (Crônica da Vida)

Já passei e ainda passo por tantas coisas que, acredito que não tenho mais o que ficar me explicando nessa altura da vida, já que quase nunca minhas palavras ou atitudes são compreendidas.
Por isso a cada dia que passa estou mais convicto de que o silêncio é e será a minha melhor resposta, até porque percebo que a vida tem se encarregado de falar a cada um sobre minhas atitudes, e ações, entretanto acreditar nisso tudo vai de cada um.
E no final cada um, tem sido em seus próprios dias, desmascarado diante do seu próprio espelho, por sua consciência. Sendo assim, tenho em mim a certeza de que a vida tem me trazido de volta aquilo que fui semeando pelo caminho.
Sendo assim me sinto ainda mais convicto de que cada um irá me dar o que tem, afinal cada pessoa oferece ao outro o que transborda de dentro do seu coração e o que sai de cada ser, seja em palavras ou em atitudes.
Assim mais inteiro naquilo que busco, sinto que estou certo do que realmente preciso para chegar onde espero em breve chegar com a misericórdia do Verdadeiro Deus.
Tenho buscado seguir o caminho que escolhi, já que foi nele que descobri que a felicidade só acontece enquanto se consegue andar para frente, pois estou ficando cansado de ficar parado e reclamando, já que isso só me traz atrasos e me torna infeliz!
Por isso tenho me sentido feliz demais por saber que para seguir o caminho que escolhi, não foi preciso de quase nada do que eu achava que precisava.
Esvaziar-me de muitos pesos e traumas do passado tem sido a melhor forma para poder seguir com mais leveza, já que a vida flui e a minha caminhada ficará mais tranquila.
Sendo assim, que o meu sorriso possa se tornar mais sereno e que o meu coração possa sempre seguir em paz.

®Jorge Bessa Simões

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"Quando ver pais afastados de um filho, não os julguem!" (Crônica da Vida)

Havia um silêncio estranho naquela casa que antes era cheia de vida. Não era o tipo de silêncio da paz, mas aquele que se instala depois de muitas palavras engolidas, de gestos interrompidos e de abraços que nunca aconteceram.
Minha mãe ainda deixava a janela aberta todas as tardes, como fazia quando eu era pequeno. Era quase um ritual, sempre no mesmo horário, com o mesmo olhar perdido na rua, como se, em algum momento, eu fosse surgir dobrando a esquina com o sorriso de antigamente. Mas o tempo tinha levado mais do que meus poucos anos. Levou também a minha coragem de voltar.
Quem via de fora costumava nos julgar.
— Deve ter acontecido algo grave…
— Mãe e filho não se falam? Que absurdo…
Porém ninguém conhecia a história inteira. Ninguém sabia que, muitas vezes, o afastamento não é abandono, é respeito. Aliás um respeito doloroso, daqueles que exige que a gente se cale mesmo querendo gritar o nome um do outro.
Quando criança, eu era inseparável da minha mãe. Até o dia em que a vida, sem aviso, rasgou nossa história ao meio. Por circunstâncias da vida, houve um momento em que me vi obrigado a fugir de casa por causa das surras que tomava do homem, que até então não entendia, seria meu pai de sangue e que à época era alcoólatra.
Acabei fugindo para casa da minha avó, que até então seria a mãe do pai que me deu seu nome, lá acabei sofrendo um atentado violento, daqueles que deixam marcas que não aparecem só no corpo, mas que deixam cicatrizes estampadas no íntimo.
Com isso, por vergonha e medo, depois de ter sobrevivido após ser jogado na linha do trem quase morto, acabei por me tornar um menino de rua, foi assim que acabei sendo arrancado de casa por um tempo longo demais.
Porém, foi o tempo suficiente para transformar aquele menino em alguém que já não se reconhecia mais no espelho.
Até o dia em que fui pego nas ruas pela polícia do juizado de menores e levado para um lugar onde tentavam descobrir quem eu era e quem seriam meus pais, em certo momento entra uma mulher acompanhando a assistente social na sala onde estava retido, quando a vi de imediato reconheci que era minha mãe, mas foi nesse instante que cometi a pior de todas as ingratidões que um filho poderia fazer.
Mesmo vendo-a diante de mim, a neguei por três vezes, dizendo que aquela mulher não era minha mãe, ainda que no fundo do meu coração quisesse abraçá-la, mas diante do que havia me acontecido sendo só um garoto de oito anos de idade, tive vergonha e medo.
E essa mescla de sentimentos, além das cicatrizes que carregaria para o resto da minha vida, me impelia a negá-la, me culpava e a culpava por tantas coisas em nossas vidas, não conseguia entender certas escolhas que foram feitas, mesmo antes que eu nascesse e que colaboraram para que nossas vidas fossem rasgadas ao meio.
Ainda vendo-a chorar diante das minhas negativas, algo que doía dentro de mim, ela comprovou que era minha mãe, e assim fui entregue a ela, no caminho até nossas casa, ela apenas chorava, e eu tremia de medo pois sabia que reencontraria o homem que me culpava por tantas coisas que eu não entendia, e que com certeza, as surras voltariam a acontecer, como aconteceram, voltei para lá, mas não voltei inteiro.
E pior do que isso, voltei carregando uma vergonha que nunca deveria ter sido minha.
No começo, minha mãe tentou de tudo. Abraços, conversas, silêncio, presença. Mas havia algo nos meus olhos que a impedia de chegar perto de mim, era um muro invisível, construído pela dor e culpa. Até que vieram os momentos que nós jamais esqueceríamos.
A primeira vez foi numa reunião de família. Perguntaram para mim quem era aquela senhora ao meu lado, e mesmo sabendo de quem se tratava, por vergonha e medo, hesitei, desviei meu olhar e disse que era apenas uma conhecida. Percebi que minha mãe sentiu como se o chão tivesse cedido.
A segunda vez aconteceu na rua. Um antigo colega de rua me cumprimentou e, ao notar a presença dela, fez a pergunta natural: — É sua mãe? Mais uma vez neguei com a cabeça, rápido demais. Como quem tenta apagar algo antes mesmo que exista.
A terceira vez foi a mais cruel. Não havia ninguém por perto. Era só ela e eu. E mesmo assim, quando ela tentou se aproximar, ouviu: — É melhor, a senhora não dizer que é minha mãe.
Eu só tinha oito anos de idade, não compreendia o quanto tudo aquilo nos machucava, porém não foram palavras ditas com raiva. Foram ditas com vergonha e medo. E aquilo partiu o coração dela mais uma vez. Porque, naquele instante, minha mãe entendeu algo que ninguém mais entenderia: o filho não a rejeitava por falta de amor…, mas por excesso de dor, ainda que ela só tenha sabido de tudo o que me acontecerá, muitos anos depois.
Foi assim que acabamos por nos afastar, porque após uma outra surra mais violenta, voltei a fugir de casa, e mesmo ela tentando me encontrar pelas ruas, quando eu a via, me escondia para não ser encontrado, em certo momento ela não me procurou mais, não por desistência, mas por respeito, como ela me comentaria anos depois.
Ela tomou tal atitude por respeito ao meu tempo, até para que eu pudesse assimilar minhas dores e minhas feridas. À decisão, embora fosse só uma criança, era só minha. Ainda que aquela decisão a destruísse por dentro, como me corroia também, um pouco a cada dia.
Mesmo sem saberem de todos os fatos, as pessoas nos julgavam, até porque é mais fácil apontar o dedo do que enxergar o que está escondido. Mas a verdade é que existem distâncias que não são feitas de falta de amor, são feitas de sobrevivência.
Assim passei da infância roubada para minha adolescência, me tornei adulto, construí minha vida, segui em frente da maneira como podia e com as lições que a vida me ensinava. Mas há coisas que o tempo não apaga, apenas esconde em camadas mais profundas.
Porque em algum lugar dentro de mim, sempre continuou existindo o menino que um dia chamou aquela mulher de mãe, sem vergonha, sem medo e sem dor. Sempre acreditei que um dia pudesse voltar, até porque entendia que nunca precisaria negar minha história para continuar vivendo.
No fundo do meu coração acreditava que, talvez, quando esse dia chegasse, a janela ainda estaria aberta, como um dia a encontrei, foi então que compreendi que o amor de mãe… esse nunca se afasta, ele apenas ensina a esperar.
Por isso digo sempre; "Quando você vê os pais afastados de um filho, não julguem... muitas vezes eles apenas estão respeitando uma decisão que partiu dele, afinal, o filho irá fazer a própria vida... mas esquecer seus pais que tanto se sacrificaram por ele, seria uma das maiores ingratidões que existe, em especial com a mãe que o carregou no ventre."
E depois, muitas vezes a gente desconhece todos os fatos de uma história que tem dois lados, e nem toda verdade é absoluta, que o que é para mim, nem sempre é o certo para o outro, por isso tenho aprendido a entender a verdade dos outros, e a respeitá-la tanto quanto espero que respeitem a minha.
Sendo assim, não tenho o direito de julgar, porém tenho total direito de mudar de opinião... uma... duas... três, quantas vezes quiser.
Porque a vida me ensinou que idealizar as coisas ou as pessoas é um erro, porque os meus defeitos fazem parte da minha personalidade, e uma pessoa sem defeitos não teria graça nenhuma. Assim estou aprendendo a me preocupar menos e a viver mais. Afinal, tudo tem um motivo, e todas as pessoas que passaram na minha vida me deixaram lições, uma delas é que nenhuma dor será para sempre, até porque enquanto estiver vivo tenho a possibilidade de recomeçar de novo!!

®Jorge Bessa Simões

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"Afastamento, nem sempre significa ingratidão" (Crônica da Vida)

"Às vezes, o afastamento não nasce da falta de amor. Nasce por causa de um acontecimento onde uma escolha será feita."
E assim começava a minha história, eu era um menino risonho, desse que corria descalços pela casa e transformava qualquer canto em mundo. Minha mãe, incansável, fazia do pouco muito.
O meu pai, calado e quase sempre entregue a bebida, ainda assim carregava o peso de garantir o amanhã. Havia amor, imperfeito é verdade, como todo amor humano é, mas ele existia em alguns momentos.
Até que veio o dia que ninguém deveria viver, meu pai alcoolizado não só pela bebida, mas por um fúria incontrolável, me deu uma violenta surra, onde por pouco não me tirou a vida, por acreditar que eu era o culpado por tudo o que de ruim acontecia em casa e por acreditar que eu não era seu filho.
Com isso fugi de casa, busquei refúgio na casa daquela que seria minha avó, por parte do pai que me deu seu sobrenome, porém, um acontecimento brutal, desses que não cabem em palavras simples, atravessou a minha infância e partiu algo dentro de mim, na verdade, dilacerou a minha ingenuidade de criança.
Não foi apenas uma dor física o que senti, foi vergonha, tive medo, me senti confuso, aliás foram sentimentos que não pertencem a uma criança, mas que, ainda assim, passaram a morar no meu íntimo desde que roubaram a minha inocência.
Quando reencontrei minha mãe, depois de um tempo morando nas ruas, ela tentou segurar meus pedaços. Tentou me proteger, me acolher, me reconstruir. Mas há feridas que, quando abertas cedo demais, ensinam o coração a se esconder.
E de novo veio uma outra surra por causa da bebida alheia que me levou a fugir de casa mais uma vez, eu ainda era uma criança mas já tinha em mim um coração marcado pelo sofrimento, e foi assim que fui crescendo em meio as violências do mundo a minha volta.
Creio que cresci rápido demais, como quem queria deixar para trás tudo aquilo que não conseguia entender. Assim, fui aproveitando as oportunidades boas que surgiam e fui fazendo minha própria vida, construí rotinas, busquei me cercar de pessoas que não conheciam a minha história.
E, pouco a pouco, fui tentando apagar tudo o que me doía, ledo engano, achar que conseguiria apagar tudo o que me havia acontecido... até que, um dia, alguém perguntou sobre minha família, ou melhor, pela minha mãe, e eu a neguei.
Neguei uma vez, com hesitação. Na segunda, já havia menos tremor na minha voz, e na terceira vez, minha negativa saiu quase que natural. Foi como se aquela mulher que havia me trazido ao mundo fosse apenas um detalhe dispensável da minha biografia.
Mas não era esquecimento ou ingratidão. Era vergonha. Não da minha mãe, nunca dela, mas do que havia me acontecido. Do que diziam (ou que eu acreditava que diziam) sobre mim. E, na tentativa de fugir daquela dor, acabei fugindo de quem eu mais amava.
Muitos anos depois minha mãe soube da verdade. Porém como ela mesmo me diria, ela sempre soube que algo terrível tinha rasgado nossas vidas ao meio, mesmo quando ninguém havia lhe contado.
E, foi naquele momento, que tivemos de fazer uma escolha silenciosa: insistir ou respeitar. Gritar nossa dor ao mundo ou engoli-la para não nos afastar ainda mais.
Minha mãe escolheu o silêncio em respeito a tudo o que havia me acontecido, ela nunca contou nada a praticamente ninguém, até porque não importava mais, somente a nós dois.
Me recordo que, quando alguém perguntava para ela; "por que seu filho não aparece?." Ela apenas sorria e mudava de assunto. Algumas pessoas a nossa volta chegavam a dizer que era ingratidão da minha parte, mas novamente ela não respondia. Quando me julgavam, ela suportava. Porque, às vezes, amar também é aceitar o afastamento que eu havia escolhido para viver.
Talvez alguns digam que; "Sim, há filhos que esquecem. Há filhos que seguem a vida como se o passado fosse descartável. E isso dói de um jeito que não se explica. Já que para muitos isso pode, sim, ser uma das maiores ingratidões."
Entretanto nem toda ausência é desprezo. Às vezes, é ferida. Às vezes, é vergonha. E às vezes, é um coração que ainda não conseguiu fazer as pazes com a própria história.
Por isso, quando alguém vir pais afastados de um filho, não julgue tão rápido. Nem sempre o que parece abandono é falta de amor. Às vezes, é amor em silêncio, daquele tipo que continua existindo, mesmo quando o outro decide se manter afastado.

®Jorge Bessa Simões

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domingo, 4 de outubro de 2026

"O que é família hoje em dia?" (Crônica da Vida)

Com o passar dos anos e o avançar da idade, tenho percebido que já não faço mais parte nem das fotografias em família. Alguns dirão que sou o culpado por causa de uma série dessas circunstâncias, é por isso que me pergunto: O que é família hoje em dia?
Bem, mesmo nessa época tão tecnológica onde tudo se transforma em selfie nas redes sociais pela internet, penso que, família não é a fotografia perfeita numa dessas selfies ou na moldura da sala.
Para mim, família é quem fica ao lado um do outro, mesmo quando tudo se desfaz, mesmo quando haja divergências de palavras, atitudes e escolhas, não dá as costas, é também quem sabe ler o silêncio quando se faz necessário, e não tem medo dele, e nem por isso deixa de se falar.
Até porque, sou do tempo em que família era um momento em que a reunião de pessoas, era uma verdadeira confusão, tinha barulho e cansaço, mas também tinha colo e abraços, gargalhada no meio do choro, era “chegar quando pudesse”, que quer dizer “vem agora”.
Não era fácil, havia momentos em que aconteciam alguns mal entendidos que causavam magoas, onde alguém poderia cometer alguma falha, onde às vezes algumas coisas ou palavras até feriam, mas depois havia outros momentos em que todos se juntavam de novo e tudo se curava, pelo simples fato de estarmos juntos.
Foi assim que aprendi que família não era sobre parecer, era sobre ser, era sobre ficar, era sobre dar abraços e carinhos, mesmo quando tudo à nossa volta parecia nos mandar fugir.
E às vezes, família é aquele que chega sem aviso, mas que soube amar como se sempre tivesse estado ali.
Mas hoje em dia vejo que as vezes tem coisas que são muito mais complicado no meio da família, até porque, temos que tomar muito mais cuidados do que antigamente naquilo que falamos, sobre o que pensamos, sobre gestos ou atitudes, sobre expressar o que sentimos ou não, enfim, hoje em dia é muito difícil estar em família, é por isso que me pergunto: O que é família hoje em dia?

®Jorge Bessa Simões

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"O tempo ensina" (Poema)

Nos últimos tempos tenho percebido que certas pessoas simplesmente saíram da minha vida, se afastaram, algumas me excluíram ou me deixaram de lado por interesses maiores, quem sabe por causa das suas próprias deduções.
Essas pessoas talvez nem sequer imaginavam o quanto me feriam, e o quanto me fizeram falta por um bom tempo.
Talvez seja porque não se deram conta da importância que tinham pra mim ou porque não compreenderam o respeito que eu tinha por elas, e do cuidado também.
Já houve momentos em que até fui atrás delas, até porque me senti no dever de saber a razão, porém é claro, que as deixei livres para fazerem o que quisessem, mas sempre buscando colocar no coração delas o meu pedido de perdão, e reconhecendo os meus erros com elas.
Entretanto, de outras pessoas, não fui atrás, simplesmente as deixei livres também, perdoando-as pelo falso amor que me ofereciam, pela falsa amizade, pela ingratidão ou até mesmo pelo descaso.
Afinal, quem sabe o tempo possa ajudar para que alguma coisa mude. Até porque ele nos ensina que nem todo caminho é aquele que traçamos pra gente, e, se não soubermos discernir o que é bom e o que é ruim pra nossa vida, jamais alcançaremos o que é necessário e intenso para o nosso coração.
Assim, acredito que tem afastamentos que são causados pela nossa falta de atenção, mas outros, realmente é o tempo que nos mostra a salvação de muitas frustrações.
Por isso tem coisas que é só com o tempo que a gente vai entender, até lá, a gente sofre sim.
Mas em compensação podemos nos superar e crescer.

®Jorge Bessa Simões

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"O tempo não pede licença" (Poema)

O tempo vai passando, silencioso, no seu caminho arrasta uma brisa leve, mas carregado de memórias, as minhas memórias.
É como aquele vento de fim de tarde que me arrepia a pele e me faz lembrar coisas que já não voltam mais.
Dentro desse tempo viaja o peso de um abraço que ficou por ser dado, de uma voz trêmula que se perdeu no eco e já não encontra mais o caminho de regresso. É estranho como certas ausências tornam-se tão presentes como se ocupassem espaço no meu peito.
Meus lábios que um dia foram doces, agora estão secos, já não consigo mais soltar as rimas que guardava nas minhas lembranças. Me recordo das palavras que poderiam ter sido ditas, ensinamentos que ficaram suspensos no ar como folhas que nunca chegaram a cair da árvore.
Percebo que a vida é breve, e basta um segundo para tudo mudar.
Num instante, o que me parecia sólido se desfaz, o que era certo, se evapora. É como areia a escorregar entre meus dedos, e quanto mais tento segurar, mais depressa foge.
Meu olhar está carregado de dor, porque o que antes parecia eterno, também se dissolve. Meu sofrimento, por mais pesado que seja, acaba sempre por se diluir como tinta na água, e vai-se espalhando até desaparecer.
E no final, sobra apenas uma frase simples, aliás, é quase um sussurro cúmplice: “Porte-se bem.”
Afinal, o tempo passa depressa, e não pede licença, e a minha vida está quase terminando.

®Jorge Bessa Simões

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