domingo, 8 de março de 2026

*"Nem toda dor faz barulho" (Crônica da Vida)

Para mim, muitas vezes é difícil segurar as lágrimas do que está doendo dentro de mim, sei que algumas pessoas não choram na frente de ninguém, não pedem socorro, não dizem o quanto estão quebradas por dentro. Elas, assim como eu, simplesmente se afastam… silenciosamente.
Dessa forma muitas vezes eu sumo por um tempo, me recolho no meu próprio mundo, tentando reorganizar os pedaços do que sinto, do que perdi, ou do que ainda não consigo compreender.
Desde quando nasci, aprendi que ao longo da vida teria que lutar minhas batalhas em silêncio, não porque seja uma pessoa fria ou distante, não!
É porque infelizmente sempre senti que ninguém realmente ouviria a profundidade do que carrego. Então acabei criando o hábito de me curar sozinho, no escuro da minha própria alma, esperando voltar quando meu coração estivesse um pouco mais leve.
Mas na verdade muitas vezes não preciso de alguém que resolva minhas dores, o que preciso é de alguém que perceba, que fique, que saiba segurar minhas mãos, que me ouça, sem me fazer perguntas demais.
Porque, no fundo, o que mais me machuca não é sofrer… é sofrer achando que ninguém irá perceber a minha ausência.
Por isso, seria tão bom se as pessoas fossem mais gentis ou que tivessem mais empatia, não só comigo, mas também com todas as pessoas a sua volta.
Nem sempre quando estou sorrindo, significa que estou em paz. Nem sempre quando me afasto, quer dizer que deixo de me importar com as pessoas. Às vezes, só estou tentando sobreviver a algo que já não consigo explicar.
E quando conseguir ter coragem de voltar, depois de ter sumido por um tempo, compreendam que foi para me reconstruir por dentro… por isso não me cobrem explicações.
Se puder, apenas me abrace. Porque, muitas vezes, voltar para mim, já será a maior vitória que meu coração conseguirá alcançar.

®Jorge Bessa Simões

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"A força que pulsa em você, mulher" (Poema)

Não é apenas sobre o traço delicado,
Ou a doçura que o olhar costuma entregar;
É sobre o aço que em ti foi moldado,
E a coragem imensa de saber recomeçar.

És o equilíbrio entre o caos e a calmaria,
A mão que sustenta, o peito que abriga,
Transformas o cansaço em pura poesia,
E fazes do mundo uma morada mais amiga.

Em cada gesto, um pouco de história,
Em cada passo, o peso de mil direções,
Não buscas apenas a efêmera vitória,
Mas a verdade que toca os corações.

Que hoje e sempre, mulher, sejas celebrada,
Pela voz que ecoa e pelo silêncio que diz,
Mulher, em tua essência, a vida é sagrada,
E em teu brilho, o mundo se faz mais feliz.

®Jorge Bessa Simões

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"Mulheres tecidas no sangue, na amizade e na fé" (Poema)

Não são apenas os laços de sangue ou do tempo,
Que une o carinho e admiração que tenho,
Por muitas mulheres a minha volta,
Desde a minha infância e que começou com minha mãe,
É algo muito mais profundo, que o mundo não lê ou vê,
As mulheres na minha vida são a força mansa que sopra no vento,
A muitas delas vão além da união das almas,
Uma grande maioria se uniram na minha caminhada pela fé,
Hoje além das aparentadas, tem muitas que são minhas amigas,
E muito mais se tornaram minhas irmãs de jornada e oração,
Boa parte dessas mulheres seguram minha mão,
Ainda mais quando os passos vacilam,
Para mim essas mulheres são o reflexo da graça em cada ação,
Suas vozes me acalmam quando meu coração não silencia,
Quando juntamos as mãos às erguemos ao céu em oração,
E que nos ajuda a transformar nossos prantos em semente de luz,
Que mesmo sob o cansaço nos mantemos fiéis em dias ruins,
Refletindo, no brilho dos olhos, a paz de Jesus Cristo,
Por isso nessa singela homenagem quero dizer sempre;
"Obrigado por vocês mulheres serem abrigo, sustento e flor, e por cada palavra que nos cura e cada abraço que nos faz crer que nossa amizade é uma bênção que vem do nosso Deus Jeová, e que isso continue a ser uma herança eterna que, nem o tempo faz perecer."

®Jorge Bessa Simões

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"O coração da nossa família, minha mãe" (Poema)

*Homenagem a mulher que de certa forma começou tudo.

A minha família é um jardim de raízes profundas,
Onde a força feminina é o que me fez crescer,
Tudo começou no colo e na luz da minha mãe,
Parte de um exemplo que nos fez florescer.

Anos depois ao meu lado, a esposa é o porto e a parceria, Construindo o agora com amor e devoção,
Enquanto o riso das minhas irmãs traz a doce nostalgia,
De quem partilha o sangue e a mesma direção.

Hoje olho para as filhas, minhas sobrinhas e vejo o futuro,
Que logo serão pura alegria e luz,
Me recordo das cunhadas, que se tornam o laço seguro,
Pois a amizade sincera delas é o que me conduz.

Sejam as que chegaram agora ou as que já são história,
Cada uma de vocês, mulheres são um pilar de coragem e fé, Guardo em cada abraço as nossas memórias,
E é um privilégio serem quem são, pelo que cada uma é.

Vocês são o norte, o abrigo e a canção,
O coração que mantém nossa família unida,
Fica aqui minha eterna e maior gratidão,
Às grandes mulheres que dão sentido à minha e a nossa vida.

®Jorge Bessa Simões

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"O Alicerce e a Flor" (Às mulheres da minha família) (Poema)

Em nossa mesa, em nossa história e no nosso lar,
Há uma força que não se explica, só se sente,
É o amor de mãe, que ensina a caminhar,
E é o brilho da esposa, que faz o meu presente contente.

Há a cumplicidade das minhas irmãs e o riso compartilhado,
A renovação que as minhas sobrinhas trazem no olhar,
E tem as minhas cunhadas, que a vida me deu de presente, Somando carinho e ajudando a vida a avançar.

Mulheres que são raízes, troncos e flores,
Que seguram o mundo quando ele parece tremer,
Pintam nossos dias com as mais lindas cores,
E nos ensinam, com paciência, o que é viver.

Nesta família, vocês são o norte e a canção,
A doçura que cura e a coragem que guia,
Que guardemos cada uma em nosso coração,
Com gratidão profunda, hoje e todo dia.

"Dedicado para as mulheres que fazem da minha família o melhor lugar do mundo. Com todo meu amor!"

®Jorge Bessa Simões

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sábado, 7 de março de 2026

"E o nosso amor se fez lar" (Poema)

*Para mim todos os dias ao seu lado, é o Dia da Mulher.
(Homenagem dedicada a minha Esposa)

Muitos veem apenas a força que você carrega,
A pressa do dia a dia, a entrega que não nega,
Mas eu tenho o privilégio de ver o que ninguém vê,
Que é o brilho no teu olhar que me faz sempre querer você.

Você que é o equilíbrio no meio de qualquer tempestade,
A mistura perfeita de doçura e autoridade,
Admiro a mulher que você se tornou, com tanto brio,
E a forma como preenche, com sua luz, o meu vazio.

Neste Dia da Mulher, meu amor, o que eu quero celebrar,
É o privilégio diário de poder te acompanhar,
Pois você não é apenas a mulher da minha vida,
É a minha melhor escolha, a minha paz merecida.

Que você se sinta gigante, como de fato você é,
Pela sua calma, sua doçura, sua graça e sua fé,
Obrigado por ser o meu porto nesse meu caminhar,
Por isso hoje, e em todos os dias da vida, eu vou te amar.

®Jorge Bessa Simões

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"A Força da Mulher" (Poema)

*Minha homenagem as mulheres que sempre estão a nossa volta, em especial a minha esposa e as demais mulheres da nossa família.

Não é sobre a delicadeza de uma pétala ao vento,
Mas é sobre a raiz que sustenta o mundo em movimento,
É ser o eco de vozes que o tempo tentou calar,
E a coragem de quem aprendeu,
Sozinha muitas vezes a se agigantar.

Mulher é plural, é verso, é verbo de ação,
É quem carrega o amanhã na palma da mão,
Ela não cabe em molduras, nem em definições rasas,
Pois enquanto uns tenta jogá-la ao chão,
Ela inventa as asas.

Tem a sabedoria da avó, o fogo da juventude,
Vive na busca constante por espaço e plenitude,
No traço da história, ela é a tinta e o papel,
Mulher é a força da terra e a imensidão do céu.

Que hoje não seja apenas o dia da flor,
Mas o dia do respeito, do direito e do valor,
Pois ser mulher é, acima de tudo, existir com fervor,
Transformando a luta em vida, e o cansaço em amor.

®Jorge Bessa Simões

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sexta-feira, 6 de março de 2026

"Menino de rua, um ciclo que se fecha" (Crônica da vida)

1974, nessa época eu completaria 18 anos, havia me alistado no Exército obrigatoriamente, São Paulo agora era uma selva de concreto ainda mais densa.
O Viaduto do Chá já não tinha mais o mesmo silêncio das madrugadas de 1964. E eu já não era mais um menino de rua, todos me chamavam por meu nome, nas mãos tinha as marcas geradas pelas latas de filmes que carregava entranhada nos poros.
Mas no "crachá do jornal" onde fui trabalhar em 1970 como assistente de laboratório fotográfico tinha o meu nome, "Jorge - Office-boy", mais que isso, ele tinha o retrato de quem venceu a vida no dente da engrenagem.
A duras penas e muito trabalho diuturno consegui comprar a prestação um carro usado do qual sempre tinha sonhado, agora eu era dono de um Simca Chambord 1967 que foi reformado por mim mesmo nos meus dias de folga.
No banco do carona, o lugar que seria do Radar estava vazio; meu velho companheiro de orelhas em pé havia partido anos antes, enterrado sob uma laranjeira no quintal da primeira casa que o ex-menino de rua conseguiu alugar lá na Mooca
Senti um aperto no peito quando sai para dar minhas primeiras voltas nas ruas do bairro, foi então que resolvi dirigir até o centro de São Paulo, algo me puxava para ir até a Boca do Lixo, não!. Não iria atrás das prostitutas como alguns faziam aos finais de semana ou quando recebiam seus pagamentos, minhas intenções eram outras, e tinha um motivo muito especial.
Assim estacionei perto da Rua General Osório, o cenário já era outro diferente dos meus tempos de menino de rua, mas as sombras ainda eram as mesmas.
Olhando a minha volta, vi uma mulher sentada em um banco de praça, observando o movimento com uma elegância que o tempo tentava, em vão, desgastar. O casaco de pele sintética fora substituído por um xale de lã batida, e o batom vermelho, antes berrante, agora era um traço fino e cansado. Era a Gaúcha.
Me aproximei devagar, o cheiro de jasmim barato e do cigarro que ela fumava, me atingiu como um soco de nostalgia. Parei a poucos metros dela e disse, com a voz embargada:- "Um dia me disseram que se eu voltasse a pedir esmola, a senhora mesma me daria uma surra." Se lembra disso, Senhora?
A Gaúcha levantou os olhos. Levou alguns segundos para processar o rapaz de ombros largos, camisa de botão e chaves de carro na mão. Mas quando ela viu o brilho nos olhos daquele "guri" que ela havia dado um banho com água morna há alguns anos atrás, um sorriso enviesado surgiu em seu rosto.
E segurando com uma das mãos o meu rosto, olhou nos meus olhos, murmurou:- "Olha só... não é que o guri cresceu," a voz estava mais rouca do que me lembrava, e completou me dizendo:-"E parece que aprendeu a usar as mãos, como eu mandei."
Não nos abraçamos de imediato; a rua ensina a manter uma certa distância de respeito. Depois de algum tempo sentei-me ao lado dela que abriu a mão, revelando uma pequena caixinha de veludo. Dentro, não havia joias, mas as chaves de uma pequena casa que eu havia alugado meses antes, na zona leste, e as do meu carro.
Então disse a ela:- "Gaúcha, meu trabalho está tá indo bem. Agora tenho um lugar para morar, não é de luxo, mas pelo menos tem um chuveiro quente e ninguém vai me mandar sair da calçada, e eu vim te buscar para você conhecer e dar uma volta no meu carro."
Ela olhou para as chaves e depois para as minhas mãos ainda marcadas por ter carregado tantas latas de filmes. Uma lágrima teimosa borrou o rímel pesado que ela usava, e me respondeu:- "Eu não aceito caridade, guri. Você sabe disso."
Calmamente respondi a ela:- "Não é caridade," minha resposta foi firme, e continuei dizendo:- "Na verdade vim te convidar porque o meu aluguel com você está atrasado, lembra daquela canja de galinha de 1966? Então o juro tá alto."
A Gaúcha soltou uma gargalhada que ecoou pela rua e todos a nossa volta nos olharam, sem entender nada, aquela era a mesma risada que um dia espantou os meus agressores sob a garoa.
Ela pegou as chaves, fechou a minha mão com a sua e, pela primeira vez, deixou-se ser levada para outro lugar, que não fosse a Boca do Lixo, e por alguém que ela mesma salvou do abismo.
Com essa atitude, o menino de rua que eu tinha sido um dia, finalmente encerrava aquela história, ciclo da rua, finalmente, o meu ciclo da rua havia se fechado.

®Jorge Bessa Simões

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quinta-feira, 5 de março de 2026

"Um acordo de meio fio com o menino de rua" (Crônica da Vida)

Era inverno de 1966, a garoa de São Paulo parecia agulhas de gelo, nesse ano completava 10 anos de vida, e praticamente 2 anos vivendo nas ruas desta grande metrópole que se expandia para todas as direções, mas que estava sobrevivendo.
Agora já não estava mais só no Viaduto do Chá, até por causa do frio e também porque tinha uma companhia comigo, era um cachorro que vivia nas ruas e acabamos por nos encontrar.
Certa noite estava encolhido sob o vão de um casarão antigo na Barão de Itapetininga quando senti: um focinho úmido e quente contra meu pescoço. Era um vira-lata de pelo encardido e orelhas em pé, tão costela-e-osso quanto eu.
Não tinha nada para oferecer para ele, mas o cachorro não pedia pão, tudo que ele pedia era trégua. Naquela noite, pela primeira vez, o frio não venceu. O calor do cachorro, que batizei de "Radar", por causa das suas orelhas que ficavam virando de um lado para o outro, me serviu de cobertor vivo.
Acabou que o cachorro virou minha sombra, meu guarda-costas de dentes à mostra contra quem tentasse mexer comigo enquanto eu dormia.
Porém minha sorte mudou numa noite de terça-feira, em frente ao antigo Cine Art-Palácio. Eu tentava engraxar os sapatos de um sujeito apressado que me empurrou com força, eu cai, o Radar latiu furioso, avançando na canela do agressor.
O homem levantou a mão para espancar o cachorro, mas uma voz de trovão, com cheiro de perfume barato interrompeu o gesto, ela disse; "Se encostar a mão no cachorro ou no guri, eu abro um mapa na sua cara, seu covarde!"
Era uma mulher alta, cabelos claros, olhos azuis, nunca me disse seu nome, mas soube que todo mundo a conhecia como Gaúcha. Ela usava um casaco de pele sintética que brilhava sob os postes de luz e tinha o olhar de quem já tinha visto o inferno de perto e resolvido morar lá. A Gaúcha não era uma santa de altar; era uma mulher da noite, calejada pela Boca do Lixo, mas que guardava no peito um resto de infância que a rua não tinha conseguido matar.
Em nenhum momento ela perguntou o meu nome. Apenas me pegou pelo braço, fez um sinal para o cachorro e caminhamos até sua pensão. Lá, o meu mundo mudou de cor.
Ela me fez tomar um banho, aliás o primeiro em meses, com água morna, a Gaúcha mandou eu tirar a roupa, fiquei envergonhado com a presença dela, mas mesmo assim, ela me ajudou a tomar banho tirando as crostas de poeira e medo da minha pele.
Depois daquele banho gostoso, me deu um prato de canja de galinha que fumegava, e que foi dividido com o Radar em um canto da cozinha.
Enquanto nós comíamos, ela nos contou um pouco da sua história e de como viera parar em São Paulo, naquele momento, compreendi que a Gaúcha não queria um "filho", ela queria um sobrevivente, e esse era eu.
Assim a Gaúcha se tornaria minha mentora improvável. Ela usava o pouco que sobrava dos seus ganhos e da sua influência com os "coronéis" da região para conseguir para mim algo que valia mais que ouro nos anos 60.
Foi assim que tempos depois, quando eu já tinha 12 anos, ela me conseguiu um lugar de aprendiz de office-boy em um estúdio de filmes de chanchadas na Boca do Lixo.
"Escuta aqui, guri," ela disse, enquanto ajeitava a gola da camisa nova que tinha comprado para mim. "A rua te deu os dentes, mas o trabalho vai te dar as mãos. Não olhe pra trás e cuida desse cachorro. Se eu te vir pedindo esmola de novo, eu mesma te dou uma surra."
E lá fui eu, levando o Radar, que agora dormia sobre um tapete de estopa entre latas de filmes e monte de cartazes de cinema.
A Gaúcha continuou na noite, desaparecendo entre as luzes de neon e o fumo dos cigarros, mas eu nunca me esqueci que a minha vida foi costurada pelas mãos de uma mulher que a sociedade chamava de "perdida", porém foi a única pessoa naqueles dias cruéis que me encontrou, me ensinou muitas coisas e me mostrou um caminho que poderia fazer a diferença na minha vida.
Eu, a Gaúcha e o Radar ainda nos veríamos muitas outras vezes, por um tempo ainda ia dormir no quarto de pensão onde ela morava, isso quando não acabava dormindo no corredor por causa dos clientes que ela recebia, mas enfim isso é uma outra história.
E foi desta maneira que fiz um acordo de meio fio, com a vida e a mulher que me estenderá a mão, não para me bater, me cobrar ou me julgar, mas que ajudou a me salvar.

®Jorge Bessa Simões

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quarta-feira, 4 de março de 2026

"O menino invisível no Viaduto do Chá" (Crônica de Vida)

Era 1964, São Paulo, a cidade não tinha o mar de prédios que sufoca o horizonte hoje em dia, mas já possuía a frieza de quem não tem tempo para olhar para baixo.
Em especial para os pequenos meninos de rua, como eu, de apenas oito anos de idade, a capital paulista não era a "locomotiva do Brasil", na verdade aos meus olhos assustados, era como um bicho de concreto que rangia dentes de ferro e cuspia fumaça cinza.
Naquele tempo a ditadura se desenhava nos jornais que os senhores de terno liam apressados, enquanto isso a minha guerra era outra, a minha infância não foi só perdida ou roubada; ela foi confiscada, com isso confiscaram até minha inocência.
No lugar de cadernos, tive que aprender a carregar uma caixa de engraxate que pesava mais que meu próprio corpo. No lugar do afeto ou do carinho, aprendi a ler os humores do céu e a agressividade dos sapatos.
Para mim, sobreviver no centro de São Paulo nos anos 60 exigia uma logística cruel que nenhuma criança deveria conhecer, por exemplo; o frio. O inverno daquela década era impiedoso.
Eu dormia sobre folhas de jornal "O Estado de S. Paulo", não pelas notícias, mas porque o papel era a única barreira entre meus ossos e o cimento gelado do Viaduto do Chá. O segredo era o "abraço de bicho", encolher-se até que o queixo tocasse os joelhos, tentando conservar o calor que a barriga vazia insistia em dissipar.
Depois tinha a fome, e como menino de rua, para mim ela tinha um som, que era o barulho das portas dos restaurantes se fechando no final da noite. Aprendi a ter uma amizade estratégica com os fundos das padarias na Rua Direita, esperando pelo pão "amanhecido" que, às vezes, vinha acompanhado de um chute de algum funcionário de mau humor.
Mas pior que essas duas situações, tinha a violência. Na rua era um território de sombras, havia o medo da "polícia do juizado" que se pegassem um de nós, nos recolhiam como se fossemos lixo, era pior que cachorro sendo laçado pela carrocinha, para piorar as coisas, ainda tinha o medo de homens cujos olhos brilhavam de um jeito errado na escuridão dos becos ou quando vinha se esconder debaixo do viaduto. Tive que aprender a ser como fumaça, estar em todo lugar, mas não ser notado por ninguém.
Certa noite, sob a garoa fina que era a marca registrada da cidade naquela ocasião, encontrei um carrinho de rolimã quebrado perto da Praça da Sé. Por alguns minutos, me esqueci que meus pés estavam rachados pelo sereno.
Me sentei no pedaço de madeira e, no silêncio da madrugada, imaginei que cruzava a cidade em velocidade da luz, longe do cheiro do cano de descarga e do frio que cortava como navalha.
Aquele pedaço de madeira era o último vestígio do menino que eu deveria ser. No dia seguinte, troquei o carrinho por um pedaço de charque com um vendedor de rua que queria aproveitar as rolimãs.
Assim a sobrevivência sempre vencia a ludicidade, e desta maneira sobrevivi aos anos 60, não virei estatística, embora a cidade tenha tentado me devorar em cada esquina. Cresci com as marcas da rua, não apenas as cicatrizes físicas, mas aquele olhar vigilante de quem sabe que o mundo não é, e nunca seria um lugar seguro.
E foi dessa maneira que a minha infância ficou depositada em algum bueiro da Avenida São João, perdida entre o barulho dos bondes e o grito dos jornais.
Hoje, quando caminho pelo centro de São Paulo, já como homem feito e de sapatos limpos, ainda sinto um arrepio quando a garoa cai. Não é frio, nem é o medo, são as memórias de um tempo em que eu era um menino invisível no Viaduto do Chá, lutando contra os monstros noturnos, contra os pesadelos do que me acontecerá, e contra gigantes de concreto para simplesmente ver o amanhecer.

®Jorge Bessa Simões

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