domingo, 24 de maio de 2026

"Laços de sangue" (Fraseando)

Mãos calejadas, olhos de saber, o pai aprende a como crescer, o filho sorri no amanhecer, e assim a árvore da vida traz um novo florescer com o filho do filho. Que em cada abraço que o tempo traz, possa fortalecer os laços de sangue, deixando a todos uma herança que possa ser de paz.

®Jorge Bessa Simões

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"Três gerações do tempo" (Poema)

As vezes sozinho com meus pensamentos, fico imaginando que um dia, talvez, possa unir três gerações do tempo que a vida tem me apresentado.
O que imagino não é algo extraordinário demais, mas é uma imagem visível no calor, não só de um ambiente solitário, mas é a que vem do meu coração e, acima de tudo, é algo com muita profundidade a todos os olhares.
O que tento expressar, e que ainda busco compreender, é algo além de se viver na plenitude, é o relacionamento entre o avô, o filho e o neto, é algo que ultrapassa todas as minhas palavras já escritas ou ditas, porém ao mesmo tempo revela uma herança silenciosa de afeto, respeito e continuidade, que nunca tive ou vivi.
Por exemplo, quando falo sobre três gerações, o quero dizer, não é sobre pessoas, é sobre o tempo, é sobre a força de vida.
Então primeiro, o que trago nas minhas memórias, seria a imagem de um avô que carrega no rosto as marcas do tempo e da sua experiência. E a lembrança de que suas mãos calejadas, já seguraram um filho no passado, e que poderão servir de amparo e porto seguro.
Assim, ao olhar para a imagem de um neto, com uma ternura que só a sabedoria da idade consegue expressar, isso transforma meu olhar como quem vê o futuro se desdobrar diante de si.
Em segundo, o quero dizer é sobre como tento encarar o elo de continuidade, por exemplo, quando imagino meu filho, percebo que agora ele observa a cena do avô ao lado do seu filho, e ele faz isso com um sorriso discreto e os olhos cheios de admiração.
Porque nesse momento, ele compreende que, agora é ele quem é a ponte entre o passado e o futuro. E na sua expressão, noto o orgulho de ver seu próprio pai transmitindo os mesmos valores que o moldaram um dia, sendo assim é o meu filho que irá oferecer ao seu filho, o apoio físico e emocional, mantendo a sua família unida e protegida.
E é nesse instante que imagino algo sobre a terceira geração de um novo tempo que se apresenta, que é a promessa do futuro, e no centro de tudo isso, passo a imaginar meu neto hoje, menino, que é a personificação da alegria pura e da inocência, que com seu sorriso iluminado reflete a segurança de quem sabe que é profundamente amado.
E quem sabe um dia, ao olhar para seu avô, ele não veja apenas o peso dos anos que me acompanha, e tampouco a figura de um herói, já que não tenho tal pretensão, mas que ele possa ver em mim, uma fonte de histórias e um refúgio de carinho, afinal, como disse, ainda estou tentando compreender e viver essa nova fase do meu tempo.
Dessa maneira que o toque das mãos unidas entre essas três gerações do tempo, sejam a base da imagem que tanto imagino, e que resume essa dinâmica.
Que tudo possa ser um pacto silencioso, que o amor familiar se torne uma corrente que não se quebra, onde o passado pode ensinar, o presente protege, e que o futuro possa crescer cada vez mais, com base sólida e firme dentro de um amor que marque para sempre essa geração do tempo que estamos vivendo.

®Jorge Bessa Simões

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"Três tempos" (Poema) (Dedicado ao meu neto Matheus)

Três tempos guardados numa mesma raiz,
O tronco, o galho, a folha que agora cresce,
O avô com as marcas de tudo o que fiz,
Vive com as lembranças que o tempo tece.

Olha para o filho, sua imagem madura,
E vê o homem que outas vezes ele ninou,
Que herdou seu andar, sua força segura,
E os mesmos traços que a vida moldou.

E o filho, agora com os olhos de pai,
Vê seu próprio menino a correr no quintal,
E o neto que ri, que tropeça e cai,
Buscando num abraço do avô, também o do pai, afinal.

Três gerações sob o mesmo tempo,
O ontem, o hoje, e o amanhã a brotar,
E no laço sagrado de pai, filho e neto,
O amor sempre será o sangue que vive a pulsar.

®Jorge Bessa Simões

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*"Raízes" (Poema) (Dedicado ao meu neto Matheus)

Mãos sobre as mãos, o tempo a tecer,
O avô com histórias que o vento traz,
A sabedoria em rugas a escrever,
Nesta luz quente que pode transformar o lar em paz.

O neto, pequeno, de riso inocente,
Olha o avô, o pai, com o mundo já a andar,
No presente descobre o passado recente,
E o futuro que agora está a se plantar.

O filho, é a ponte, o meio do caminho,
Observa os dois com amor sem medida,
Sentindo o sangue, o carinho e o ninho,
Na corrente dourada da própria vida.

São três elos de uma mesma corrente, um laço de fé,
Que no calor deste solo, a vida se diz,
Do broto tenro à raiz que se veem,
São a herança de um amor que pode nos fazer feliz.

®Jorge Bessa Simões

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sexta-feira, 22 de maio de 2026

*"Menino de rua, um ciclo que se fecha" (Crônica da vida)

1974, nessa época eu completaria 18 anos, havia me alistado no Exército obrigatoriamente, São Paulo agora era uma selva de concreto ainda mais densa.
O Viaduto do Chá já não tinha mais o mesmo silêncio das madrugadas de 1964. E eu já não era mais um menino de rua, todos me chamavam por meu nome, nas mãos tinha as marcas geradas pelas latas de filmes que carregava entranhada nos poros.
Mas no "crachá do jornal" onde fui trabalhar em 1970 como assistente de laboratório fotográfico tinha o meu nome, "Jorge - Office-boy", mais que isso, ele tinha o retrato de quem venceu a vida no dente da engrenagem.
A duras penas e muito trabalho diuturno consegui comprar a prestação um carro usado do qual sempre tinha sonhado, agora eu era dono de um Simca Chambord 1967 que foi reformado por mim mesmo nos meus dias de folga.
No banco do carona, o lugar que seria do Radar estava vazio; meu velho companheiro de orelhas em pé havia partido anos antes, enterrado sob uma laranjeira no quintal da primeira casa que o ex-menino de rua conseguiu alugar lá na Mooca
Senti um aperto no peito quando sai para dar minhas primeiras voltas nas ruas do bairro, foi então que resolvi dirigir até o centro de São Paulo, algo me puxava para ir até a Boca do Lixo, não!. Não iria atrás das prostitutas como alguns faziam aos finais de semana ou quando recebiam seus pagamentos, minhas intenções eram outras, e tinha um motivo muito especial.
Assim estacionei perto da Rua General Osório, o cenário já era outro diferente dos meus tempos de menino de rua, mas as sombras ainda eram as mesmas.
Olhando a minha volta, vi uma mulher sentada em um banco de praça, observando o movimento com uma elegância que o tempo tentava, em vão, desgastar. O casaco de pele sintética fora substituído por um xale de lã batida, e o batom vermelho, antes berrante, agora era um traço fino e cansado. Era a Gaúcha.
Me aproximei devagar, o cheiro de jasmim barato e do cigarro que ela fumava, me atingiu como um soco de nostalgia. Parei a poucos metros dela e disse, com a voz embargada:- "Um dia me disseram que se eu voltasse a pedir esmola, a senhora mesma me daria uma surra." Se lembra disso, Senhora?
A Gaúcha levantou os olhos. Levou alguns segundos para processar o rapaz de ombros largos, camisa de botão e chaves de carro na mão. Mas quando ela viu o brilho nos olhos daquele "guri" que ela havia dado um banho com água morna há alguns anos atrás, um sorriso enviesado surgiu em seu rosto.
E segurando com uma das mãos o meu rosto, olhou nos meus olhos, murmurou:- "Olha só... não é que o guri cresceu," a voz estava mais rouca do que me lembrava, e completou me dizendo:-"E parece que aprendeu a usar as mãos, como eu mandei."
Não nos abraçamos de imediato; a rua ensina a manter uma certa distância de respeito. Depois de algum tempo sentei-me ao lado dela que abriu a mão, revelando uma pequena caixinha de veludo. Dentro, não havia joias, mas as chaves de uma pequena casa que eu havia alugado meses antes, na zona leste, e as do meu carro.
Então disse a ela:- "Gaúcha, meu trabalho está tá indo bem. Agora tenho um lugar para morar, não é de luxo, mas pelo menos tem um chuveiro quente e ninguém vai me mandar sair da calçada, e eu vim te buscar para você conhecer e dar uma volta no meu carro."
Ela olhou para as chaves e depois para as minhas mãos ainda marcadas por ter carregado tantas latas de filmes. Uma lágrima teimosa borrou o rímel pesado que ela usava, e me respondeu:- "Eu não aceito caridade, guri. Você sabe disso."
Calmamente respondi a ela:- "Não é caridade," minha resposta foi firme, e continuei dizendo:- "Na verdade vim te convidar porque o meu aluguel com você está atrasado, lembra daquela canja de galinha de 1966? Então o juro tá alto."
A Gaúcha soltou uma gargalhada que ecoou pela rua e todos a nossa volta nos olharam, sem entender nada, aquela era a mesma risada que um dia espantou os meus agressores sob a garoa.
Ela pegou as chaves, fechou a minha mão com a sua e, pela primeira vez, deixou-se ser levada para outro lugar, que não fosse a Boca do Lixo, e por alguém que ela mesma salvou do abismo.
Com essa atitude, o menino de rua que eu tinha sido um dia, finalmente encerrava aquela história, ciclo da rua, finalmente, o meu ciclo da rua havia se fechado.

®Jorge Bessa Simões

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*"Um acordo de meio fio com o menino de rua" (Crônica da Vida)

Era inverno de 1966, a garoa de São Paulo parecia agulhas de gelo, nesse ano completava 10 anos de vida, e praticamente 2 anos vivendo nas ruas desta grande metrópole que se expandia para todas as direções, mas que estava sobrevivendo.
Agora já não estava mais só no Viaduto do Chá, até por causa do frio e também porque tinha uma companhia comigo, era um cachorro que vivia nas ruas e acabamos por nos encontrar.
Certa noite estava encolhido sob o vão de um casarão antigo na Barão de Itapetininga quando senti: um focinho úmido e quente contra meu pescoço. Era um vira-lata de pelo encardido e orelhas em pé, tão costela-e-osso quanto eu.
Não tinha nada para oferecer para ele, mas o cachorro não pedia pão, tudo que ele pedia era trégua. Naquela noite, pela primeira vez, o frio não venceu. O calor do cachorro, que batizei de "Radar", por causa das suas orelhas que ficavam virando de um lado para o outro, me serviu de cobertor vivo.
Acabou que o cachorro virou minha sombra, meu guarda-costas de dentes à mostra contra quem tentasse mexer comigo enquanto eu dormia.
Porém minha sorte mudou numa noite de terça-feira, em frente ao antigo Cine Art-Palácio. Eu tentava engraxar os sapatos de um sujeito apressado que me empurrou com força, eu cai, o Radar latiu furioso, avançando na canela do agressor.
O homem levantou a mão para espancar o cachorro, mas uma voz de trovão, com cheiro de perfume barato interrompeu o gesto, ela disse; "Se encostar a mão no cachorro ou no guri, eu abro um mapa na sua cara, seu covarde!"
Era uma mulher alta, cabelos claros, olhos azuis, nunca me disse seu nome, mas soube que todo mundo a conhecia como Gaúcha. Ela usava um casaco de pele sintética que brilhava sob os postes de luz e tinha o olhar de quem já tinha visto o inferno de perto e resolvido morar lá. A Gaúcha não era uma santa de altar; era uma mulher da noite, calejada pela Boca do Lixo, mas que guardava no peito um resto de infância que a rua não tinha conseguido matar.
Em nenhum momento ela perguntou o meu nome. Apenas me pegou pelo braço, fez um sinal para o cachorro e caminhamos até sua pensão. Lá, o meu mundo mudou de cor.
Ela me fez tomar um banho, aliás o primeiro em meses, com água morna, a Gaúcha mandou eu tirar a roupa, fiquei envergonhado com a presença dela, mas mesmo assim, ela me ajudou a tomar banho tirando as crostas de poeira e medo da minha pele.
Depois daquele banho gostoso, me deu um prato de canja de galinha que fumegava, e que foi dividido com o Radar em um canto da cozinha.
Enquanto nós comíamos, ela nos contou um pouco da sua história e de como viera parar em São Paulo, naquele momento, compreendi que a Gaúcha não queria um "filho", ela queria um sobrevivente, e esse era eu.
Assim a Gaúcha se tornaria minha mentora improvável. Ela usava o pouco que sobrava dos seus ganhos e da sua influência com os "coronéis" da região para conseguir para mim algo que valia mais que ouro nos anos 60.
Foi assim que tempos depois, quando eu já tinha 12 anos, ela me conseguiu um lugar de aprendiz de office-boy em um estúdio de filmes de chanchadas na Boca do Lixo.
"Escuta aqui, guri," ela disse, enquanto ajeitava a gola da camisa nova que tinha comprado para mim. "A rua te deu os dentes, mas o trabalho vai te dar as mãos. Não olhe pra trás e cuida desse cachorro. Se eu te vir pedindo esmola de novo, eu mesma te dou uma surra."
E lá fui eu, levando o Radar, que agora dormia sobre um tapete de estopa entre latas de filmes e monte de cartazes de cinema.
A Gaúcha continuou na noite, desaparecendo entre as luzes de neon e o fumo dos cigarros, mas eu nunca me esqueci que a minha vida foi costurada pelas mãos de uma mulher que a sociedade chamava de "perdida", porém foi a única pessoa naqueles dias cruéis que me encontrou, me ensinou muitas coisas e me mostrou um caminho que poderia fazer a diferença na minha vida.
Eu, a Gaúcha e o Radar ainda nos veríamos muitas outras vezes, por um tempo ainda ia dormir no quarto de pensão onde ela morava, isso quando não acabava dormindo no corredor por causa dos clientes que ela recebia, mas enfim isso é uma outra história.
E foi desta maneira que fiz um acordo de meio fio, com a vida e a mulher que me estenderá a mão, não para me bater, me cobrar ou me julgar, mas que ajudou a me salvar.

®Jorge Bessa Simões

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*"O menino invisível no Viaduto do Chá" (Crônica de Vida)

Era 1964, São Paulo, a cidade não tinha o mar de prédios que sufoca o horizonte hoje em dia, mas já possuía a frieza de quem não tem tempo para olhar para baixo.
Em especial para os pequenos meninos de rua, como eu, de apenas oito anos de idade, a capital paulista não era a "locomotiva do Brasil", na verdade aos meus olhos assustados, era como um bicho de concreto que rangia dentes de ferro e cuspia fumaça cinza.
Naquele tempo a ditadura se desenhava nos jornais que os senhores de terno liam apressados, enquanto isso a minha guerra era outra, a minha infância não foi só perdida ou roubada; ela foi confiscada, com isso confiscaram até minha inocência.
No lugar de cadernos, tive que aprender a carregar uma caixa de engraxate que pesava mais que meu próprio corpo. No lugar do afeto ou do carinho, aprendi a ler os humores do céu e a agressividade dos sapatos.
Para mim, sobreviver no centro de São Paulo nos anos 60 exigia uma logística cruel que nenhuma criança deveria conhecer, por exemplo; o frio. O inverno daquela década era impiedoso.
Eu dormia sobre folhas de jornal "O Estado de S. Paulo", não pelas notícias, mas porque o papel era a única barreira entre meus ossos e o cimento gelado do Viaduto do Chá. O segredo era o "abraço de bicho", encolher-se até que o queixo tocasse os joelhos, tentando conservar o calor que a barriga vazia insistia em dissipar.
Depois tinha a fome, e como menino de rua, para mim ela tinha um som, que era o barulho das portas dos restaurantes se fechando no final da noite. Aprendi a ter uma amizade estratégica com os fundos das padarias na Rua Direita, esperando pelo pão "amanhecido" que, às vezes, vinha acompanhado de um chute de algum funcionário de mau humor.
Mas pior que essas duas situações, tinha a violência. Na rua era um território de sombras, havia o medo da "polícia do juizado" que se pegassem um de nós, nos recolhiam como se fossemos lixo, era pior que cachorro sendo laçado pela carrocinha, para piorar as coisas, ainda tinha o medo de homens cujos olhos brilhavam de um jeito errado na escuridão dos becos ou quando vinha se esconder debaixo do viaduto. Tive que aprender a ser como fumaça, estar em todo lugar, mas não ser notado por ninguém.
Certa noite, sob a garoa fina que era a marca registrada da cidade naquela ocasião, encontrei um carrinho de rolimã quebrado perto da Praça da Sé. Por alguns minutos, me esqueci que meus pés estavam rachados pelo sereno.
Me sentei no pedaço de madeira e, no silêncio da madrugada, imaginei que cruzava a cidade em velocidade da luz, longe do cheiro do cano de descarga e do frio que cortava como navalha.
Aquele pedaço de madeira era o último vestígio do menino que eu deveria ser. No dia seguinte, troquei o carrinho por um pedaço de charque com um vendedor de rua que queria aproveitar as rolimãs.
Assim a sobrevivência sempre vencia a ludicidade, e desta maneira sobrevivi aos anos 60, não virei estatística, embora a cidade tenha tentado me devorar em cada esquina. Cresci com as marcas da rua, não apenas as cicatrizes físicas, mas aquele olhar vigilante de quem sabe que o mundo não é, e nunca seria um lugar seguro.
E foi dessa maneira que a minha infância ficou depositada em algum bueiro da Avenida São João, perdida entre o barulho dos bondes e o grito dos jornais.
Hoje, quando caminho pelo centro de São Paulo, já como homem feito e de sapatos limpos, ainda sinto um arrepio quando a garoa cai. Não é frio, nem é o medo, são as memórias de um tempo em que eu era um menino invisível no Viaduto do Chá, lutando contra os monstros noturnos, contra os pesadelos do que me acontecerá, e contra gigantes de concreto para simplesmente ver o amanhecer.

®Jorge Bessa Simões

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*"Fui um menino de rua" (Crônica da Vida)

Porém não fui eu que pedi isso, mas fui levado a fazer tal escolha por vergonha do que me acontecerá quando me roubaram a infância de forma brutal, e eu só tinha oito anos de vida.
Tente imaginar um menino tendo que fazer a pior escolha da sua vida, depois de ter sido deixado quase morto na linha de trem, por causa do que me fizeram.
Naquele tempo, muitos do que se aproximavam de mim, me perguntavam; "Porque você vive nas ruas? Você gosta de ser um menino de rua?." Porém ninguém me perguntava, "porque eu perdi os sonhos dourados de criança que a vida um dia me prometeu."
Assim me tornei um menino que vivia nas ruas de uma grande metrópole, morava e dormia um dia aqui, outro dia ali, e noites acolá. E nunca ninguém me perguntava onde estariam meus pais?. Aliás, o medo de que soubessem o que me acontecerá, e por causa das cicatrizes que carregava no meu corpo miúdo, me levava a responder que não os tinha.
Mas um dia alguém me acolheu e me ajudou a frequentar uma escola, algo que não duraria muito, por causa de muitas coisas que até hoje me doem ao lembrar.
Sempre fui sabido, aprendia rápido as coisas, talvez por isso não me esqueço de que a rua foi uma escola para mim e me ensinou muito do que sei, até a ter desgosto, porque na rua era, cada um por si, tive que aprender a brigar e me defender, vi muita violências, passei fome e humilhação para comer, mas eu sobrevivi.
Na rua a luta por um pedaço de pão ou um pouquinho de comida, era na base da "lei do cão", na rua era um ambiente de constante tristeza e amargura, se eu desse um vacilo, não tinha perdão!
Uma vez um ajudante de cozinha num dos lugares que eu ia atrás de comida, me perguntou; "Você gosta de morar na rua?."
Eu apenas balançava a cabeça dizendo "Não!", porém o medo e a vergonha não me davam opção, pois das poucas vezes que tentei voltar para a família, eu era tratado como alguém diferente de todos, para piorar me faziam sentir culpado por tudo que me aconteceu na vida.
Resultado, tive que voltar e aprender a morar, me acostumar que o meu lar era a rua, que debaixo das pontes tinha mais proteção, ledo engano, quantas vezes tinha que fugir da polícia do juizado de menores, isso quando por várias vezes tinha que me esconder dos meninos maiores e até dos adultos da rua que eram verdadeiros crápulas ou monstros em forma de gente. E assim eu vivia de lá, pra cá, sem ter paradas até para dormir.
Tem pessoas que até hoje me perguntam, porque que sou tão desconfiado, ou porque estou sempre olhando para todos os lados?. Alguns pensam, que já fui ladrão, por ter sido menino de rua, mas nunca roubei. Sei que é difícil acreditar, mas nunca fiz isso, quando tinha fome, eu pedia comida pra comer. Porém muitas vezes dormi de barriga vazia.
Tive alguns vícios, isso eu sei! E aprendi a tê-los por estar naquela vida, mas, não era a vida que queria, se pudesse escolher. Me tornei um menino de rua, porém se alguém por piedade, viesse me socorrer ou acreditasse em mim, talvez eu não correria o risco de ver chegar o meu fim, se não me fizesse acreditar que eu era o culpado de tudo, iria agradecer, porque eu queria vencer!.
Não queria me tornar um homem de rua, tampouco não queria perder todas as esperanças que ainda me restavam, já me bastava ter perdido aquela inocência que têm todas as crianças tinham.
Sim!. Fui um menino de rua, melhor, acreditem, me fizeram ser, não fui eu quem pediu!

®Jorge Bessa Simões

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*"Quatro tempos de um menino de rua" (Crônica da Vida)

Nasci numa noite de sereno, na infância vivi entre bondes e trilhos. Naquele tempo era só um pingo de gente, sem nada e sem brilho. No Viaduto do Chá, meu mundo era plano, visto de baixo, por um soberano de pano.
Tinha o cheiro do engraxe, a fome de vento, e morava no vão do esquecimento.
São Paulo rugia, erguia o seu muro, e eu, pequeno, moldava o meu futuro.
Um tal de "Professor" sempre me dizia: "Escuta o chiado! O rádio é a voz do mundo guardado."
Aprendi a ler o silêncio e a desviar do guarda e dos atritos da vida.
Depois vi chegar a tal da Tropicália com sua guitarra, e o grito do rock, que mesmo no asfalto queimando era algo bendito.
Sou o menino de rua que correu com o caderno na mão, descrevendo o medo e a revolução.
Cresci com o Metrô, na terra vermelha, troquei o jornal por uma centelha.
Meu lápis virou lente, o meu olhar virou prova, e me tornei testemunha do retrato da angústia na cidade nova.
Sob a luz vermelha do laboratório, ajudei a revelar o avesso do auditório e vi a mordaça imposta por uma ditadura.
Onde havia o silêncio da bota e do aço, eu pus o foco no cansaço e no meu passo.
Logo não seria mais um pingo de gente, nem sombra, nem rastro.
Logo eu teria o olhar mais atento, seria o meu próprio maestro.
São Paulo não para, mas certa vez eu a detive, num clique eterno, em preto e branco, onde vi as palavras "Ame-o ou Deixe-o".
Assim foram os quatro tempos de um menino de rua que virou o olhar, e olhando, buscava um novo horizonte, e ainda que muita coisa me acontecesse, iria tentar chegar no meu objetivo na vida.

®Jorge Bessa Simões

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*"O menino de rua que aprendeu a sobreviver" (Crônica da Vida)

Como havia escrito na última página do caderno em 67 ou 68, eu não parei mais de escrever até para que, a cidade soubesse o meu nome e se lembra-se que eu existia. Sendo assim, eu não era mais o menino invisível do Viaduto do Chá.
Sem querer, mas como já estava na rua desde os meus oito anos, acabei me tornando uma testemunha ocular de uma São Paulo que tentava esconder suas cicatrizes sob camadas de asfalto novo.
Mais uma vez peguei meu velho caderno e, abaixo da frase que escrevera em 1967 ou 68, acrescentei a última linha: "A cidade não aprendeu meu nome, mas, com certeza, ela vai ter que olhar para os meus olhos."
Agora o calendário marcava 1970, naquele ano a seleção brasileira se tornaria tricampeã na cidade do México, já em São Paulo, a cidade se tornava uma selva de guindastes.
Um tal de "Milagre Econômico" erguia espigões na Avenida Paulista na mesma velocidade com que o silêncio era imposto nas redações de jornais e revistas, no teatro e cinema, além das universidades.
A cidade já não tinha o charme da terra da garoa; tinha o peso do concreto bruto e o ritmo frenético de quem precisava produzir para não ser engolido.
Eu agora era Jorge. "Jorge Office Boy", era como me chamavam na redação de um grande jornal que tinha me contratado para trabalhar como assistente de laboratório fotográfico. Do alto dos meus 14 anos, já não morava mais embaixo do viaduto e nem dormia mais debaixo de qualquer marquise, tinham me arrumado um quartinho nos fundos de um casarão na Bela Vista.
No subsolo do jornal, sob a luz vermelha e o cheiro forte de fixador e revelador, eu via a história do Brasil e de São Paulo passar por minhas mãos antes mesmo de chegar às bancas. As imagens que revelava mostravam fotos de políticos de óculos escuros, inaugurações de rodovias que pareciam não ter fim e o rosto suado dos operários que construíam o Metrô.
Como disse, às vezes, um homem de terno cinza entrava no laboratório do jornal e, com um gesto seco, confiscava os negativos. Com autoritarismo arrogante ele dizia: "Essa não sai, rapaz". Eu apenas concordava, mas guardava a imagem na memória.
Eu ainda carregava o caderno de 1965. Mas agora, embora eu usasse o lápis para escrever minhas anotações, poemas ou poesias, ele foi substituído por uma câmera Leica de segunda mão, que me ajudaram a comprar e que pagaria com muitas refeições puladas.
Certa tarde, caminhando pelo Largo do Paissandu, vi um vulto familiar sentado em um banco de pedra. Era o "Professor". Mas o rádio Transglobo estava mudo, com a antena quebrada. O velho parecia uma estátua de poeira, esquecida pelo progresso que ele tanto profetizara.
Bem devagar me aproximei dele e com muito cuidado o chamei; "Professor"?. O velho demorou a focar os olhos. Quando me reconheceu, um resto de brilho surgiu sob as pálpebras cansadas.
Ele me perguntou: "Você virou um deles, rapaz?", apontando para a câmera fotográfica no meu pescoço. "Você está tirando retrato da mentira para vender a verdade?"
Me sentei ao lado dele e respondi; "Não! "Professor", eu tiro foto do que vejo. O que fazem com a foto depois, ainda não consigo controlar. Mas eu guardo os negativos que eles mandam queimar. Um dia a gente vai precisar deles para lembrar quem a gente foi."
O "Professor" sorriu, tossindo e disse; "A cidade ficou barulhenta demais, rapaz. Já não ouço mais o universo. Só ouço o som das britadeiras."
Naquela mesma semana, eu estava na Praça da Sé. As obras do Metrô haviam transformado o coração da cidade em um buraco imenso de terra vermelha. Entre as máquinas, vi um grupo de operários dividindo uma marmita fria sob o sol escaldante, enquanto, logo acima do canteiro de obras, um outdoor gigante anunciava: "Brasil: Ame-o ou Deixe-o".
Eu não pensei, apenas ajustei o foco, medi a luz e disparei. O clique da câmera foi como um tiro silencioso. Um policial se aproximou de mim, mas eu fui mais rápido. Afinal, eu não era mais a criança que fugia por medo; agora eu era o jovem que fugia por missão. Mergulhei na multidão, cruzei a Galeria do Rock e desapareci nos becos que conhecia desde os oito anos de idade.
À noite, no silêncio do subsolo da redação, o responsável pelo laboratório, revelou a foto. A imagem era poderosa: o contraste entre o slogan ufanista e a realidade dura do prato de metal vazio. Olhei para o meu reflexo no espelho manchado, guardei aquele negativo em uma caixa de sapatos e levei para esconder sob o assoalho do quartinho onde eu dormia.
Eu sabia que os anos 70 ainda seriam longos, mas eu tinha o tempo a meu favor. Aquele menino de rua tinha aprendido que, para sobreviver em São Paulo, não bastava correr; era preciso registrar o rastro de quem ficou para trás.

®Jorge Bessa Simões

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