domingo, 25 de outubro de 2026

"Não existe destino" (Poesia)

Não existe destino,
O que existe na verdade,
São caminhos que podem nos levar a um destino,
Porém tudo dependerá das nossas escolhas.

Algumas serão fáceis,
Entretanto outras não,
As escolhas que fizermos,
Na verdade são as que realmente irão importar.

Afinal serão elas que nos definirão sempre,
Como pessoas únicas que somos,
Cada um de nós.

®Jorge Bessa Simões

®Velhas Memórias Poéticas. Copyright © 2013-2026
®Direitos Autorais Reservados. Lei 9.610/98

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"Minha mãe, você me deu o direito de nascer" (Poema)

No tempo em que estava no seu ventre, minha mãe, eu sentia o calor do seu amor enquanto você sonhava com meu nascimento e me acarinhava na ânsia da minha espera.
Você minha mãe, por mim virou o mundo ao avesso e quando se sentia cansada, era o momento que de novo me acariciava para que no seu ventre, eu continuasse a sonhar.
Eis que no calor do seu ventre eu adormecia e em sonhos me imaginava em seus braços na busca do meu alimento materno junto a quentura dos seus seios de mulher, mãe.
E quando nasci, você foi com um anjo em forma de mãe que me deparei, você me recebeu em seu abraço e a partir daquele momento me abrigou em seu coração.
Você cuidava de mim com todo seu carinho, e me daria cada vez mais por toda sua vida seu amor sem fim, porém o tempo passou, muitas coisas mudaram, e o anjo que um dia eu vira num sonho, foi-se embora levada pelo pesadelo da morte.
Restando em mim uma profunda marca que transformou meus sonhos distantes num cruel pesadelo que agora me rasga a alma, e nos dias da sua ausência revivo você a todo instante.
Resta-me a esperança de reencontrá-la no paraíso terrestre prometido por nosso Deus, onde creio me trará de novo a alegria na minha vida da mesma forma de quando você me deste o direito de nascer.

®Jorge Bessa Simões

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"No meu sonhar" (Poesia)

Não sei mais no que pensar,
Aliás nem sei se quero pensar,
Já que sempre tenho sonhado com você.

Pois além da saudade da sua presença,
Ainda ecoam em meus pensamentos,
O som suave da sua doce voz.

Suas últimas palavras,
Passam e repassam em minha mente a todo instante,
Nos meus dias e por esses anos da sua ausência.

Você minha mãe,
Sem que eu entendesse sempre foi minha luz,
Luz que ilumina meu coração e caminhos,
E que agora só vive no meu sonhar.

®Jorge Bessa Simões

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"Minha mãe, quando você se foi..." (Poema)

Soube por minha mãe que ao descobrir que eu estava em seu ventre para nascer, aquilo lhe trouxe um brilho de luz e sua felicidade se tornou plena, ela se sentiu ainda mais mulher, já que logo se tornaria mãe.
Quando eu nasci, ela se realizava com cada palavra que eu aprendia, cada olhar ou suspiro que eu dava, mesmo que uma lágrima inundasse meus olhos, ela as transformava em carinho, alegria e paz, pois ela tinha o dom de me amar.
Quando me tornei adolescente e passei a buscar minha independência, sem querer não percebi que isso iria nos distanciar ainda mais, além do que já tínhamos estado distante, e em nome dessa "independência" me esquecia de dizer o quanto a amava.
Um dia sem compreender direito o porque, minha mãe se foi quando eu menos esperava, em meu peito restou a dor de uma punhalada, a cada "meus pêsames", aquilo penetrava profundamente no meu coração dilacerado por tamanha perda.
Em cada gota de sangue do meu corpo surgiu a culpa por muitas vezes não ter dito: "Te amo, mãe", "Preciso de você, mãe", "Me preocupo contigo, minha mãe", e como se não bastasse, veio o pensamento mais dolorido, "Será que ela se foi por minha culpa?"
Meus sonhos caíram por terra, minha independência perdeu importância, com o tempo passei a ter uma certeza; "Quando amei minha mãe, deveria ter transmitido em pequenos atos e gestos, tudo aquilo que poderia ter sido feito enquanto ela estava aqui!"
Porém quando ela se foi, nada mais importava, percebi o quanto precisava dela, mesmo sonhando com sua presença, as palavras que surgem no meu coração já não tem mais sentido.
Sem minha mãe, me sinto sozinho, cada momento da sua ausência surge em minhas memórias suas palavras, e embora saiba que a culpa é da vida que infelizmente tem inicio, meio e fim, sinto culpa porque poderia ter amado mais, e só senti isso quando a perdi.
Porém a vida continua, e o que mais me entristece e que vejo que muitos ainda não aprenderam a dar valor ao que tem enquanto não perder, pois para mim só restou a saudade e uma certeza: "Embora minha mãe não possa estar aqui, ela sempre estará em minhas memórias e no meu coração."

®Jorge Bessa Simões

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"Conversa de um bebê com Deus" (Poema)

(*Uma história que minha mãe me contava enquanto criança)

Um bebê no ventre da sua mãe perguntou a Deus:
"Dize-me Senhor, agora que fui gerado e logo nascerei, como vou viver depois que sair do ventre dessa mulher, sendo tão pequenino e indefeso?"
Deus respondeu ao bebê:
"A mulher que te espera vai cuidar muito bem de você."

O bebê perguntou novamente:
"Mas Senhor, aqui no ventre que me encontro não tenho que fazer nada mais que sonhar em como ser feliz, como ela poderá realizar esse sonho?"
Deus respondeu mais uma vez ao bebê:
"A mulher que te espera irá cantar, sorrirá para você todos os dias, você sentirá o amor verdadeiro e será feliz, é isso que ela fará porquanto eu os abençoar"

De novo o bebê perguntou:
"E como é que vou ser capaz de entender o que as pessoas falam comigo se não sei a língua que elas falam?"
Deus respondeu ao bebê:
"A mulher que te espera lhe dirá as palavras mais belas e doces com paciência e carinho, e te ensinará a falar e andar na verdade."

O bebê pergunta mais uma vez:
"E o que vou fazer quando quiser falar com o Senhor?"
Simplesmente Deus responde ao bebê:
"A mulher que te espera lhe ensinará a orar em meu nome."

"Mas como ela irá me proteger?" Pergunta o bebê mais uma vez.
Deus em sua sabedoria divina responde:
"A mulher que te espera te defenderá mesmo que isso signifique arriscar sua própria vida."

O bebê faz uma penúltima pergunta:
"Ficarei muito triste porque não poderei te ver mais, o que vou fazer?."
E Deus lhe responde com palavras verdadeiras:
"Acredite, a mulher que te espera falará sobre Mim, te ensinará a maneira correta de vir a Mim, e mais, irá te ensinar meu Nome e com isso estarei sempre dentro de você."

Nesse momento houve uma paz, mas as vozes da terra já podiam ser ouvidas, havia chegado o momento do nascimento desse bebê e a criança apressada antes de vir ao mundo faz um ultimo pedido: "Deus, já que tenho que ir agora, por favor, me diga, como devo chamar essa mulher que me espera?."
E Deus lhe responde dizendo: "Você chamará essa mulher de "Mamãe".

®Jorge Bessa Simões

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sábado, 24 de outubro de 2026

"Quem posso ser?" (Poesia em Metáfora)

Muitos acreditam que me conhecem, porém são poucos os que podem afirmar isso, tanto é verdade que alguns ainda se perguntam; "Quem posso ser?"
Assim nas palavras a seguir vou tentar me descrever...

Nessa vida, sabe quem eu sou?
Acho que sou um palhaço!
Por isso se você me fizer a pergunta, para onde vou?
Te responderei: Por caminhos que não traço!

Pois onde queria ir, não vou!
Porque já que a vida me fez palhaço,
Onde queria estar, não estou,
E a vida sempre me põe em embaraço!

Até tentei fazer um traço,
Para não ser na vida só um palhaço,
Porém acho que perdi o trato,
Pois quis embaraçar a vida e não à embaraço!

Então onde estou? O que sou?
Creio que sou aquele que,
Segue a vida em busca de um rumo!

Sou aquele que sobe as descidas,
Que desce as subidas,
Que em toda terra navega,
E que por mares caminha!

Sou aquele que sonha de dia,
E a noite não dorme,
Já que a angústia me consome,
E em mim a tristeza sempre se apega,
E com a mágoa que minha vida caminha!

Sou aquele que se cala, mesmo sem ter falado,
Que volta sem ter partido,
Que ri do que não havia rido,
Que à amargura se agrega,
E que entre espinhos meus pés caminha!

Creio que sou tudo o que imaginam que eu seja,
Sou também tudo que afinal não sou!
Sou o arbusto que a leve brisa bafeja,
Sou um pobre árvore que o sol secou!

Sou tudo aquilo que ser se deseja,
Sou a ave de rapina que jamais voou!
Sou a plantinha que no jardim viceja,
E também posso não ser nada do que você pensou!

Mas sou o que todos veem e a ninguém iludo,
Sou diferente e não finjo, nem falsas aparências tenho!
Sou como sou, ríspido, enérgico, contudo,
A todos amo e por amar a todos me empenho!

Sou assim, rude, talvez, mas não engano,
Com falsas atitudes, senão ao meu próprio coração!
E esse velho coração que de tantas mentiras tem tutano,
Para aguentar a dureza do que a vida tem me dado como porção,
Após porção, que já nem sei mais como esse coração aguenta!

Sou assim mesmo, alegre, triste, e imparcial,
Doa a quem doer, minha voz não calo, embora depois cruenta,
Dor me sufoque a alma e o coração por assim ser,
Mas que culpa tenho de ser assim tão desigual,
Com o que sente meu coração ante esse meu proceder?

Sou o que poucas pessoas que me conhecem sabem,
E melhor que eu, percebem quando triste estou,
E quando penso que a elas enganando vou,
Os enganos aparentados no meu coração não cabem!

Assim rio, brinco, mas não minto como alguns dizem,
Posso ser imprevisível às vezes quando "broncas" dou,
Mas o que me conhecem, sabem que assim sou,
E que as "broncas" mais que à elas, a mim me ferem!

As poucas pessoas que me conhecem sabem bem assim,
Melhor do que eu, quando triste estou,
E por mais que tente ser feliz, sou assim,
E diariamente elas veem isso em mim!

As vezes acho mesmo que tento aparentar felicidade,
Pois minha alma triste com o tempo, meu coração pensou,
Convencer-me a esquecer toda e qualquer saudade!

Assim sou da vida um palhaço,
Ando por caminhos que não traço,
Nas descida, subidas, navego, caminho,
Sonho, durmo, angustiado e triste a procura de um carinho!

Assim sou o que fala, cala, volto, parto, rio,
Amargo, tenho espinhos, vivo, sofro,
Choro, morro e ressuscito em meu desvario!

Sou o que poucos sabem, querem e me desejam,
Sou ave, plantinha, árvore, brisa e o calor,
Sou tudo como sou e o que mais desejam,
Sou afago, beijo, mãos e abraços, dou carinho e amor!

Não tenho diferenças ou falsas aparências,
Mesmo sendo enérgico ou ríspido, ainda assim amo!
E não engano, pois esse velho coração é cheio de carências,
Tento ser alegre mesmo sendo triste, não sou imparcial, eu amo!

Assim sou cruento, desigual, mas o que poucas pessoas sabem,
Que não sou de enganos aparentados,
Pois no meu coração todos cabem!

Desta maneira quando brinco, rio ou "broncas" dou,
As "broncas" mais a mim me ferem,
Busco ser feliz pois minha vida não acabou,
E mesmo triste ou alegre, todos que amo sabem!

Apenas assim sou!
E por mais que queira embaraçar a vida, não a embaraço,
Assim me amem ou me odeiem,
Gostem ou me admirem, assim eu sou,
E vivendo a vida, vou continuar amando!

Mesmo que muitos por não me conhecerem,
Se perguntam: Quem posso ser?

®Jorge Bessa Simões

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"O perdão" (Poema)

Quantas vezes o perdão eu soube dar, porém, modéstia a parte, parece que o perdão que tenho no coração, nos outros eu não consigo encontrar.
Quantas vezes tenho perdoado os erros que os outros me praticam, mas basta uma atitude errada, ainda que sem querer, e já me difamam, denigrem a minha imagem, me julgam a ponto de me açoitarem com palavras que machucam e me condenam ao castigo.
Queria poder mudar, nem sei o quanto gostaria de ser diferente do que sou, porém penso que; mudar-me, no que isso poderia ajudar para que eu também tivesse o perdão dos outros?
E foi nessas coisas pensando que novamente versejei, afinal, imperfeitos que somos, chegaria eu sendo imperfeito, não sei, à perfeição que o Verdadeiro Deus de todos quer e exigiria?
É difícil, quantas vezes tentei mudar esse meu jeito que dia a dia me confundi e me fazem fora da lei!
Por isso, perdão peço a quem magoei, sinto que essa imperfeição em mim me guia, se de joelhos for o melhor para pedir perdão, ajoelhar-me ei!
Porém que todos também soubessem perdoar, pois embora possamos errar por causa das nossas imperfeições, o mais importante e nos preservarmos no verdadeiro amor que é uma das principais qualidades do nosso Criador.

®Jorge Bessa Simões

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"Dias de bolor" (Poema)

As vezes o pranto embarga minha voz, as emoções em meu íntimo se confundem desordenando meu coração deixando-o sem rumo, as palavras ganham e perdem muito do seu significado.
E assim quase nada mais transmito, apenas trago em meu rosto traços lamuriento, minhas lágrimas caem, já não me consolam, e esse pranteio me faz perder a paz.
A vida apesar de tantos anos, parece muitas vezes perder seus encantos que as vezes acredito que o amor dentro de mim se esvai a cada dia, e em meio aos desenganos e desencantos me agito por causa das desesperanças, a dor dilacera meu peito com a triste certeza de que perdi tudo que amei.
Como gostaria de alentar-me e acreditar que nada perdi, mas ai estaria para mim mesmo mentindo, pois muitos se perderam pelo caminho do meu tempo.
E a dor da perda ainda marca meu coração o suficiente pra me lembrar das cicatrizes que carrego, creio que essas marcas jamais se apagarão já que deixaram no meu calendário dias de bolor.

®Jorge Bessa Simões

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"Ficar vulnerável" (Poema)

Quando fico vulnerável, isso me dá medo porque não sei fingir, não sei disfarçar as coisas que sinto, não sei esconder quando me entrego, já que não sei viver a vida pela metade, tudo que vivo é intenso dentro de mim.
Procuro sempre manter minha alma transparente, já que tudo que sinto em meu coração é barulhento, meus sentimentos não usam armadura, se amo, amo por inteiro, se abraço, espero que sintam o calor do meu abraço, sou o mais sincero e verdadeiro que posso em tudo que digo ou faço, ou então não digo e não tomo atitudes.
Baixar a guarda para mim é correr risco, mas as vezes é também permitir que algo bonito aconteça, como pode não acontecer, mas não depende só de mim, certas coisas na vida.
Por isso preciso ter coragem para deixar que os outros me enxerguem exatamente como sou, ou seja, no final, a minha vulnerabilidade nada mais é do que a minha coragem vestida de medo.

®Jorge Bessa Simões

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"Menino de rua, um ciclo que se fecha" (Crônica da vida)

1974, nessa época eu completaria 18 anos, havia me alistado no Exército obrigatoriamente, São Paulo agora era uma selva de concreto ainda mais densa.
O Viaduto do Chá já não tinha mais o mesmo silêncio das madrugadas de 1964. E eu já não era mais um menino de rua, todos me chamavam por meu nome, nas mãos tinha as marcas geradas pelas latas de filmes que carregava entranhada nos poros.
Mas no "crachá do jornal" onde fui trabalhar em 1970 como assistente de laboratório fotográfico tinha o meu nome, "Jorge - Office-boy", mais que isso, ele tinha o retrato de quem venceu a vida no dente da engrenagem.
A duras penas e muito trabalho diuturno consegui comprar a prestação um carro usado do qual sempre tinha sonhado, agora eu era dono de um Simca Chambord 1967 que foi reformado por mim mesmo nos meus dias de folga.
No banco do carona, o lugar que seria do meu cachorro estava vazio; meu velho companheiro de orelhas em pé havia partido, e foi enterrado sob uma laranjeira no quintal da primeira casa que o ex menino de rua conseguiu alugar lá na Mooca
Senti um aperto no peito quando sai para dar minhas primeiras voltas nas ruas do bairro, foi então que resolvi dirigir até o centro de São Paulo, algo me puxava para ir até a Boca do Lixo, não!. Não iria atrás das prostitutas como alguns faziam aos finais de semana ou quando recebiam seus pagamentos, minhas intenções eram outras, e tinha um motivo muito especial.
Foi assim que eu estacionei perto da Rua General Osório, o cenário já era outro diferente dos meus tempos de menino de rua, mas as sombras ainda eram as mesmas.
Olhando a minha volta, vi uma mulher sentada em um banco de praça, observando o movimento com uma elegância que o tempo tentava, em vão, desgastar.
O casaco de pele sintética fora substituído por um xale de lã batida, e o batom vermelho, antes berrante, agora era um traço fino e cansado. Era a Gaúcha.
Me aproximei devagar, o cheiro de jasmim barato e do cigarro que ela fumava, me atingiu como um soco de nostalgia. Parei a poucos metros dela e disse, com a voz embargada:- "Um dia me disseram que se eu voltasse a pedir esmola, me daria uma surra." Se lembra disso, Senhora?
A Gaúcha levantou os olhos. Levou alguns segundos para processar o rapaz de ombros largos, camisa de botão e chaves de carro na mão. Mas quando ela viu o brilho nos olhos daquele "guri" que ela havia dado um banho com água morna há alguns anos atrás, um sorriso enviesado surgiu em seu rosto.
E segurando com uma das mãos o meu rosto, olhou nos meus olhos, e murmurou:- "Olha só... não é que o guri cresceu," a voz estava mais rouca do que me lembrava, e ela completou me dizendo:-"E parece que aquele menino de rua aprendeu a usar as mãos, como eu mandei."
Não nos abraçamos de imediato; a rua ensina a manter uma certa distância de respeito. Depois de algum tempo sentei-me ao lado dela, abrindo a mão, revelei uma pequena caixinha de veludo. Dentro, não havia joias, mas as chaves de uma pequena casa que eu havia alugado meses antes, na zona leste, e as do meu carro.
Então disse a ela:- "Gaúcha, meu trabalho está tá indo bem. Agora tenho um lugar para morar, não é de luxo, mas pelo menos tem um chuveiro quente e ninguém vai me mandar sair da calçada, e eu vim te buscar para você conhecer e dar uma volta no meu carro."
Ela olhou para as chaves e depois para as minhas mãos ainda marcadas por ter carregado tantas latas de filmes.
Uma lágrima teimosa borrou o rímel pesado que ela usava, e me respondeu:- "Eu não aceito caridade, guri. Você sabe disso."
Calmamente respondi a ela:- "Não é caridade," minha resposta foi firme, e continuei dizendo:- "Na verdade vim te convidar porque o meu aluguel com você está atrasado, lembra daquela canja de galinha de 1966? Então o juro tá alto."
A Gaúcha soltou uma gargalhada que ecoou pela rua e todos a nossa volta nos olharam, sem entender nada, aquela era a mesma risada que um dia espantou os meus agressores sob a garoa.
Ela pegou as chaves, fechou a minha mão com a sua e, pela primeira vez, deixou-se ser levada para outro lugar, que não fosse a Boca do Lixo, e por alguém que ela mesma salvou do abismo.
Com essa atitude, o menino de rua que eu tinha sido um dia, encerrava aquela história, e finalmente, o meu ciclo da rua havia se fechado.

®Jorge Bessa Simões

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