segunda-feira, 2 de março de 2026

*"Quatro tempos de um menino de rua" (Crônica da Vida)

Nasci numa noite de sereno, na infância vivi entre bondes e trilhos. Naquele tempo era só um pingo de gente, sem nada e sem brilho. No Viaduto do Chá, meu mundo era plano, visto de baixo, por um soberano de pano.
Tinha o cheiro do engraxe, a fome de vento, e morava no vão do esquecimento.
São Paulo rugia, erguia o seu muro, e eu, pequeno, moldava o meu futuro.
Um tal de "Professor" sempre me dizia: "Escuta o chiado! O rádio é a voz do mundo guardado."
Aprendi a ler o silêncio e a desviar do guarda e dos atritos da vida.
Depois vi chegar a tal da Tropicália com sua guitarra, e o grito do rock, que mesmo no asfalto queimando era algo bendito.
Sou o menino de rua que correu com o caderno na mão, descrevendo o medo e a revolução.
Cresci com o Metrô, na terra vermelha, troquei o jornal por uma centelha.
Meu lápis virou lente, o meu olhar virou prova, e me tornei testemunha do retrato da angústia na cidade nova.
Sob a luz vermelha do laboratório, ajudei a revelar o avesso do auditório e vi a mordaça imposta por uma ditadura.
Onde havia o silêncio da bota e do aço, eu pus o foco no cansaço e no meu passo.
Logo não seria mais um pingo de gente, nem sombra, nem rastro.
Logo eu teria o olhar mais atento, seria o meu próprio maestro.
São Paulo não para, mas certa vez eu a detive, num clique eterno, em preto e branco, onde vi as palavras "Ame-o ou Deixe-o".
Assim foram os quatro tempos de um menino de rua que virou o olhar, e olhando, buscava um novo horizonte, e ainda que muita coisa me acontecesse, iria tentar chegar no meu objetivo na vida.

®Jorge Bessa Simões

®Velhas Memórias Poéticas. Copyright © 2013-2026
®Direitos Autorais Reservados. Lei 9.610/98

*Imagem Gerada por IA.
©Todos os direitos reservados/2026
 

domingo, 1 de março de 2026

"O menino de rua que queria que soubessem o seu nome" (Crônica da Vida)

O ano era 1967 ou 68, como havia escrito no meu caderno, agora eu criaria o meu próprio mapa, melhor, eu queria de soubessem que eu existia e tinha um nome.
Naquela época, São Paulo não apenas corria; ela pulsava em uma frequência elétrica e perigosa. O céu de brigadeiro dos anos dourados tinha dado lugar a uma névoa de incerteza, e a cidade, que antes cheirava a café e fumaça dos freios de bonde, agora exalava o odor de asfalto quente e gás lacrimogêneo.
Eu não era mais um pingo de gente entre a multidão. Aos onze anos, quase doze, era um garoto magro de pernas compridas, que vestia uma calça boca-de-sino remendada e uma camisa de tergal amarelada.
O caderno de capa dura que tinha comprado antes, ainda resistia as intempéries do clima úmido de São Paulo, terra da garoa, que eu escondia com minhas coisas entre algumas brechas dos viadutos onde muitas vezes me escondia do tempo ou da polícia do juizado de menores, mas agora estava cheio de histórias, poemas e poesias, além de anotações sobre os "loucos" que eu via nas escadarias do Teatro Municipal.
Muitas vezes, quando o tempo ajudava, ficava encostado em um poste de iluminação na Rua Conselheiro Crispiniano. O ar era carregado. Naquele tempo surgiu a era dos grandes festivais de música da TV Record.
O som das ruas, não eram mais só dos bondes raspando os trilhos, tinha também os enormes "Papa-Filas" da FNM que puxavam as carretas de passageiros da CMTC, que além do barulho soltavam uma fumaça espessa de diesel, e nas praças de onde partiam, tinha o som dos pregões de vendedores de bilhete, as lojas de eletrodomésticos, aumentavam o volume dos sons das guitarras distorcidas de Os Mutantes e a voz visceral de Caetano e Gil.
As mulheres que circulavam pelas ruas do centro, exibiam o visual da moda na época, com suas mini-saias audaciosas que usavam como fardas impecáveis. A elegância antes de 1965, tinha sido atropelada por uma explosão de cores psicodélicas e óculos de aros grossos.
Naquela ocasião, já não mais engraxava sapatos para sobreviver, agora eu trabalhava como "leva-e-traz", uma espécie de "Office-Boy", para um estúdio de filmes de chanchadas na região da Rua do Triunfo. E mesmo fazendo isso, já que conhecia os atalhos das ruas de São Paulo, ainda assim, tinha que fugir das viaturas da rádio-patrulha, os famosos "Fuscas" que vigiavam a moral e os bons costumes, além da polícia do Exército da época na ditadura.
Um dia, no meio do burburinho, reencontrei o "Professor". O velho parecia menor, mais curvado, mas o rádio Transglobo ainda estava lá, chiando como uma panela de pressão.
Quando ele me viu, disse: "Rapaz! Ouviu essa?". Ele gritou, apontando para o rádio que tocava algo que parecia uma mistura de samba com rock. "É rapaz, a música tá mudando. Estão colocando eletricidade no pandeiro. O mundo vai explodir e a gente vai dançar sobre os cacos."
Sorri, mas agora era um sorriso de quem já entendia que o mundo não era apenas uma crônica de jornal. Foi quando percebi que algo a nossa volta estava acontecendo; "Professor", o senhor viu? Estão fechando tudo cedo. O pessoal tá com medo das sombras."
O "Professor" deu de ombros e me disse: "Medo é para quem tem algo a perder, rapaz. Nós? Nós somos os donos da calçada. E a calçada ninguém confisca."
De repente, um estrondo. Não era música. Era uma manifestação de estudantes que descia a Barão de Itapetininga, foi então que vi os cartazes pintados à mão, no instante seguinte, começou uma correria, vi que surgiu uma barreira humana, cheia de policiais com seus cassetetes batendo nos escudos.
Instintivamente, abri minha bolsa de lona, pena que eu não tinha uma câmera fotográfica, era caro demais para um office-boy de rua, mas tinha o meu olhar. Então saquei o caderno e, com uma velocidade que só a fome e a pressa ensinam, comecei a escrever todo movimento daquela massa humana.
Entre as linhas do que escrevia, descrevi o rosto de uma moça que corria com os sapatos na mão, os cabelos ao vento, os olhos cheios de um brilho que não era de medo, mas de vida.
Naquela noite, por causa da balburdia que tinha acontecido no centro de São Paulo, tive que dormir no terraço de um prédio abandonado no Bixiga. Dali eu olhava para baixo e via a cidade iluminada pelos faróis não só dos Fuscas, agora tinha também dos Opalas e Corcéis.
São Paulo estava se tornando um monstro de concreto que nunca dormia, e eu, que antes era só um menino de rua, percebi que estava me tornando um adolescente de rua, e também uma de suas células mais resistentes.
Foi então que abri meu caderno na última página, e entre o desenho que que havia feito do Edifício Itália de 1965 e a manifestação de 1967, escrevi uma única frase: "Se a cidade não para, também não vou parar até que ela aprenda meu nome e lembre-se que eu existo"

®Jorge Bessa Simões

®Velhas Memórias Poéticas. Copyright © 2013-2026
®Direitos Autorais Reservados. Lei 9.610/98

*Imagem Gerada por IA.
©Todos os direitos reservados/2026
 

sábado, 28 de fevereiro de 2026

"O menino que não correu para o futuro" (Crônica da Vida)

Naquela fria manhã para que a próxima garoa não me pegasse não corri para o futuro, corri para o Viaduto Santa Ifigênia. Lá eu tinha um encontro marcado com o "Professor", um homem que morava dentro de um sobretudo que parecia ter sido costurado com retalhos de três décadas diferentes.
O "Professor" não me ensinava aritmética, mas conhecia a geometria das ruas como ninguém, e foi com ele que aprendi a conhecer cada ruela e beco de São Paulo.
Ele ficava ali, encostado na grade de ferro, observando o fluxo de gente que descia para a região da rua Vitória e da Santa Ifigênia, onde o comércio de rádios e válvulas fervilhava.
Naquele dia, o "Professor" segurava uma relíquia: um rádio de pilha Transglobo, cujo couro estava descascando, mas que ainda emitia chiados cheios de autoridade, a voz de um locutor de rádio, empolada e grave, anunciava as notícias do mundo.
Meus olhos, viam naquele aparelho uma caixa mágica capaz de trazer Londres ou Paris para o centro de São Paulo.
Aquele rádio só não conseguia diminuir o barulho das picaretas de uma obra próxima ao viaduto, aquele parecia ser o eterno som da cidade que se reconstruía sobre si mesma.
Num certo momento o "Professor" disse; "Escuta menino," encostando o rádio no meu ouvido, "Esse chiado entre as estações? É o som do universo conversando. A gente só não aprendeu o dial certo ainda."
"A cidade é um rádio gigante, menino. Tem gente que é música clássica, tem gente que é só estática. O segredo é não deixar ninguém desligar o seu volume."
Enquanto a gente conversava, uma mulher de porte altivo, vestindo um Taieur azul-marinho e um colar de pérolas que refletia a luz pálida da manhã, parou diante de nós. Ela não parecia sentir nojo, apenas uma certa curiosidade, típica de quem lia as crônicas de Nelson Rodrigues no jornal e buscava a "vida real" nas calçadas.
Então ela abriu uma bolsa de couro legítimo e tirou uma nota de cinco mil cruzeiros. Para mim, aquilo era uma fortuna; para ela, talvez o preço de um chá na Confeitaria Fasano.
"Compre um agasalho para esse menino", disse ela ao "Professor", com uma voz que cheirava a talco e sabonete caro.
O "Professor" pegou a nota com a ponta dos dedos, como se fosse um documento histórico. Olhou para a mulher, depois para mim, e deu um sorriso desdentado que era puro sarcasmo e sabedoria: "A senhora é muito generosa, madame. Mas o frio de São Paulo a gente não espanta com lã. A gente espanta com movimento."
Assim que a mulher sumiu na multidão, o "Professor" entregou a nota para mim. "O que eu faço com isso?", perguntei, com o coração batendo no ritmo de um samba de Adoniran Barbosa.
"O que você quiser. Mas se fosse eu, comprava um bilhete de loteria ali na esquina e um sanduíche de mortadela no Mercado Municipal. O sanduíche garante o hoje, o bilhete irá alimentar o amanhã."
Eu não comprei o bilhete, atravessei o viaduto e fui até a porta de uma livraria na Rua Direita, lá comprei um caderno de capa dura e um lápis. Naquela tarde, sentado no meio-fio, enquanto os primeiros ônibus elétricos passavam silenciosos como fantasmas de metal, comecei a escrever a minha história.
Nessa história eu falava da fome, do frio. Das noites em que dormia ao relento no contorno do Edifício Itália que subia em direção às nuvens. Percebi que, se não tinha um lugar no mapa de São Paulo, então eu criaria o meu próprio mapa no papel.

®Jorge Bessa Simões

®Velhas Memórias Poéticas. Copyright © 2013-2026
®Direitos Autorais Reservados. Lei 9.610/98

*Imagem Gerada por IA.
©Todos os direitos reservados/2026
 

"Menino invisível" (Crônica da Vida)

São Paulo em 1964 não corria; desfilava sob um céu que ainda se permitia ser azul entre os rolos de fumaça das fábricas da Mooca. No coração desse formigueiro de concreto, vivia eu, um menino de rua, para muitas pessoas que passavam por mim eu não tinha nome, por outro lado tinha o Viaduto do Chá, o que, para mim, um menino de oito anos, era possuir o mirante do mundo.
Naquele tempo, eu era um mestre da invisibilidade e da audácia, porque enquanto os engravatados de chapéu palheta e as senhoras de saia plissada apressavam o passo rumo a Loja Mappin, eu me movia como uma sombra entre os bondes camarão, para mim, o tilintar do bonde era a trilha sonora de minha sobrevivência.
Para mim, a cidade era dividida em cheiros e texturas, por exemplo, o Vale do Anhangabaú, lá tinha cheiro de engraxe, fumaça de cigarro Continental, e era ali que eu ganhava meus trocados, manejando a escova de sapatos com destreza que faria um maestro sentir inveja, isso quando os fiscais não me tiravam a caixa de engraxate e ameaçava chamar a polícia do juizado de menores.
A Praça da Sé, lá tinha o gosto da pipoca de saco de papel, um luxo raro que eu saboreava apenas quando o pipoqueiro, olhava para o lado e fingia não ver a minha mãozinha ágil "pegando" um punhado para mim comer.
Ah, tinha o Cine Art-Palácio! Eu não tinha ingresso, mas conhecia cada fresta da porta lateral, não conseguia ver o filme inteiro, apenas retalhos de luz e sombras que projetavam sonhos de heróis que eu, secretamente, pretendia ser um dia.
Certa noite, a famosa garoa paulistana decidiu virar uma chuva de verdade. O frio de junho cortava a minha pele como navalha de barbeiro, eu me encolhia sob o vão de um prédio na Rua Barão de Itapetininga, e observava as luzes dos ônibus e dos muitos Fuscas criando rastros luminosos no asfalto molhado.
Numa noite dessas, um homem parou à minha frente, não era um Guarda Civil, nem tampouco um beato daqueles que andavam pelas noites na busca de alguma criança que quisesse um abrigo, mas que no dia seguinte, quando essas crianças voltavam, contavam histórias horríveis do que havia acontecido lá.
Na verdade era um sujeito com um sobretudo pesado e olhos cansados, que sem dizer uma palavra, esse homem tirou um jornal do braço e estendeu para mim, deitado naquela fria calçada e disse; "Toma, garoto. Esse é o Estadão de hoje, esquenta mais que cobertor de pobre."
Aceitei com um aceno de cabeça, naquele momento, vi as notícias de política e as manchetes sobre a construção de um tal novo Masp, que para mim pouco importava.
O que importava era que a celulose daquele jornal retinha o calor do meu corpo miúdo contra o mármore gelado da calçada onde eu passaria a minha noite.
Ao amanhecer, quando o primeiro bonde dava o seu grito metálico nos trilhos, das ruas do centro de São Paulo, eu já estava de pé, limpava o meu rosto com a manga da camisa encardida e olhava para o horizonte de prédios que não paravam de crescer.
A São Paulo dos anos 60 era uma promessa de progresso que, para muitos, passava por cima, mas para mim, passava ao lado, eu não tinha casa, mas conhecia cada ruela.
Não tinha família ao meu lado, e nem poderia, pois a vergonha do que me havia acontecido quando violentaram a minha infância, me consumia, mas a cidade me adotara com a dureza de uma madrasta e a indiferença de uma estranha.
Eu era como um pingo de gente no oceano de asfalto que começava a cobrir as antigas ruas de paralelepípedos, sobrevivendo entre a elegância da elite e a poeira da construção civil.
E enquanto a cidade despertava para mais um dia de "São Paulo não pode parar", comecei a correr. Não fugia de nada; apenas corria para chegar primeiro ao futuro, antes que a próxima garoa me alcançasse, mesmo sendo só um menino invisível no meio da multidão.

®Jorge Bessa Simões

®Velhas Memórias Poéticas. Copyright © 2013-2026
®Direitos Autorais Reservados. Lei 9.610/98

*Imagem Gerada por IA.
©Todos os direitos reservados/2026
 

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

"Eu, menino de rua e Radar, meu cachorro" (Crônica da Vida)

A cidade grande tem um jeito engraçado de ser barulhenta e invisível ao mesmo tempo. E foi assim, entre os vãos dos prédios de uma Avenida chamada Paulista, onde os vidros refletiam gente que corriam para lá e para cá pra não perder o tempo, que vivi parte da minha infância depois de ter tido roubada a minha inocência.
E interessante que o centro da cidade parecia um organismo vivo que nunca dormia, mas que por outro lado ignora muita gente para conseguir continuar respirando. Foi no meio desse vai e vem de ternos apressados e saltos que estalavam no asfalto quente, que não só eu vivi, mas também foi onde encontrei um cachorro e que passei a chama-lo de Radar.
Não tinha mais que 9 ou 10 anos, embora meus olhos parecessem carregar o cansaço de quem já tinha mais tempo de vida. Eu era pequeno, ágil como um gato, vestia uma camisa quase sem botões que já estava bem desbotada, uma calça maltrapilha e muitas vezes não usava nenhum calçado ou chinelos.
E ao meu lado, sempre a um passo de distância, vinha Radar, um vira-lata com manchas preta, caramelo e branco, orelhas que pareciam duas antenas girando de um lado para o outro (daí o nome dele). Ele observava tudo, prestava atenção a todos a nossa volta, em especial quando muito cansado das nossas andanças, eu dormia numa calçada ou em algum banco de praça.
Muitas vezes descíamos até o Mercado Municipal, já que nas proximidades tinha uma padaria, na frente dela, eu não pedia dinheiro; pedia "um pedaço de atenção".
Depois ficava ali, sentado com as costas no poste, dividindo o olhar entre o movimento e o meu cachorro.
Afinal, Radar era o meu segurança e meu travesseiro. Quando meu estômago roncava, ele parecia sentir a mesma vibração e encostava a cabeça no meu colo. Quando alguém mais apressado quase pisava em nós, Radar soltava um rosnado baixo, mas não de agressividade, mas de aviso: “Aqui existe alguém”.
Para a maioria das pessoas, o centro da cidade era um conjunto de lojas e escritórios, mas para mim e o Radar, era um mapa de sobrevivência, perto de uma grande loja de departamentos da época, tinha um chafariz onde o banho era gelado, mas necessário.
E debaixo da marquise de um teatro quase no coração da cidade, ali era o melhor abrigo contra a chuva para nós, onde o som das gotas no zinco parecia música. Algumas ruas mais abaixo, tinha alguns restaurantes onde, a tarde depois das duas horas, com sorte alguém nos dava alguma sobra de comida, que era dividida entre nós dois.
Certa vez, encontrei uma bolinha de tênis perdida numa lixeira, naquele dia, a avenida de paralelepípedos do centro virou o nosso Pacaembu, eu jogava a bola, e o Radar, com uma agilidade de atleta, driblava as pernas dos pedestres para recuperá-la.
Por alguns minutos, as pessoas pararam de desviar o olhar da gente. Elas sorriram. Sem querer aquele menino de rua e o seu cão tiveram o poder milagroso de humanizar o concreto.
Quando chegava a noite, as luzes das vitrines se apagavam e o barulho da cidade diminuía, o mundo ficava maior e mais frio. Assim eu me enrolava em um cobertor de papelão, e o Radar se aninhava no vão das minhas pernas.
Ali, sob o brilho neon de algum letreiro de alguma loja, eu não era "o menino de rua". Eu era o dono do Radar, o protetor de um amigo fiel.
E o Radar, no seu sono leve de cachorro atento, não era um animal abandonado; ele era a âncora que impedia que eu flutuasse ou sumisse na imensidão da cidade.
Naqueles dias, nós não tínhamos teto, mas tínhamos um ao outro, e no fim das contas, no coração do caos urbano, a única coisa que realmente ocupava espaço, era aquela lealdade silenciosa que nenhum dinheiro de qualquer pessoa que passasse por ali poderia comprar.

®Jorge Bessa Simões

®Velhas Memórias Poéticas. Copyright © 2013-2026
®Direitos Autorais Reservados. Lei 9.610/98

*Imagem Gerada por IA.
©Todos os direitos reservados/2026
 

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

"Um menino de rua" (Crônica da Vida)

Embora tivesse uma família e um lar, um acontecimento terrível, após ter tido a minha infância roubada da forma mais brutal e violenta, que se pode afligir a uma criança, acabei por me tornar um menino de rua.
Por muitos anos fiquei exposto ao sofrimento de várias maneiras, ficava vagueando pelas ruas, sem futuro, só o presente, era cada dia pior que o outro, tinha somente 8 anos quando tive que aprender a me sustentar, aliás, comia o pão que o Diabo amassou.
Batia de porta em porta, passando fome e medo, até porque não sabia quem seria o próximo crápula que travestido de alguém protetor iria me atender, porque algumas pessoas eram tão cruéis que, sabendo que não tinha o que comer, e se aproveitando da minha fragilidade na época, me ofereciam o que precisava em troca de abusos ainda mais brutais do que o que já havia passado.
Era assim que acabava por dormir no relento, exposto ao frio, chuva e outros riscos a minha frágil integridade, não havia ninguém para me proteger, e quando me ofereciam uma suposta proteção, o que recebia era mais violência abusando da minha infância que já tinha sido roubada.
Nas ruas era obrigado a me esconder entre os vãos dos viadutos e pontes, ou até mesmo em construções ou carros abandonados, para fugir dos garotos maiores que, por causa do que os havia acontecido, judiavam dos garotos menores, por isso me escondia para não ser encontrado e poder sobreviver.
Com o tempo meus pés foram calejando, andava descalço pelos becos da cidade, me cobria com papelões, andava sempre vestido por trapos que encontrava em meio aos lixos revirados.
Quantas vezes fiquei doente, sentia dores terríveis, porque muitas vezes revirei lixo a procura de um pedaço de pão, pondo em risco minha vida comendo sobras de algum restaurante ou padaria.
Até hoje, quando me recordo daqueles tempos de menino de rua, me dá arrepios, perdi as contas de quantas vezes adormeci sem ter comido nada, meus olhos eram secos, pois nem lágrimas mais tinha, tudo isso foi só o começo dos meus pesadelos, depois que me tornei um menino de rua.
Certa vez, a fome era tanta que entrei num restaurante, quem sabe alguém me ofereceria um prato de comida, mas, nem os garçons me deram atenção, aquela foi a primeira vez que senti tamanho preconceito, mesmo sendo só uma criança.
Estava maltrapilho e descalço, porém, estava ali, fazia parte de um quadro geral da cidade, mas, percebi naquele momento que não tinha direito algum a nada a minha volta, quando me lembro daqueles tempos, me dói no fundo do meu coração.
Foi então que conheci o lado mais terrível da vida, porque via crianças como eu, se metendo em encrencas na tentativa de comer algo, algumas chegaram a ser mortas com um pedaço de pão duro ou um punhado de comida entre as mãos, outras eram levadas ao vício, no começo era benzina, depois fluído de isqueiro, cola de sapatos e em seguida as drogas mais pesadas, e de novo, esse mundo cruel colocava um preço alto demais a ser pago, quando não morriam pelas mãos dos traficantes, eram mortos pelas autoridades da época, era triste o fim de muitos meninos de rua, como eu.
Acabei encontrando um jeito de me impor nas ruas, comecei a andar com outros meninos de rua que conseguia controlar, para que juntos fossemos mais forte, e por andar juntos dividíamos tudo, ainda mais se conseguisse arranjar comida, e foi assim que fui sobrevivendo naquela vida.
Sempre a margem da miséria, alguns meninos se deixavam levar pelas conversas dos marginais, e acabavam se envolvendo no mundo do crime, foi assim que vi alguns morrerem bem diante dos meus olhos, aquilo era um aviso, de como nossas vidas não tinham valor algum.
Um dia, uma senhora se aproximou de mim e me ofereceu ajuda, nunca mais me esqueci dela, me levou pra sua casa me deu um banho, roupas limpas e um bom almoço, depois foi me ensinando a como ser alguém melhor, sem querer, ela me ajudou a me tornar um adulto melhor.
Hoje quando me lembro daquele menino de rua que fui um dia, isso me deixa triste porque sei que ainda tem muitos meninos de rua por ai, alguns presos pelas armadilhas da vida, pelas drogas, a prostituição ou mortos jogados em algum bueiro da cidade.
Sei que não posso mudar o mundo, e ninguém vai, mas tomará que logo logo venha o reino do Verdadeiro Deus, e com ele esse terrível pesadelo se acabe, tenho certeza que até meus traumas e minhas cicatrizes não existirão mais, porém até lá, não gostaria de ver mais os meninos de rua por ai, como um dia também fui.

®Jorge Bessa Simões

®Velhas Memórias Poéticas. Copyright © 2013-2026
®Direitos Autorais Reservados. Lei 9.610/98

*Imagem Gerada por IA.
©Todos os direitos reservados/2026
 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

*"Bendito" (Poema)

Bendito seja o que chegar em minha vida em silêncio, com passos leves para não acordar minhas dores, não despertar meus fantasmas e não ressuscitar meus medos, que se dirija a mim com leveza, com gentileza, falando o idioma da paz pra não assustar minha alma.
Bendito seja o que tocar meu coração com carinho, e me olhar com respeito, me aceitar inteiro com todos os meus erros e imperfeições, e me escolhendo por doação.
Bendito seja esse ser iluminado que me chega como uma estrela, flor, passarinho ou anjo que dê asas aos meus sonhos, e tendo a liberdade de escolher ficar e ser o ninho que me aconchega no amor.

®Jorge Bessa Simões

®Velhas Memórias Poéticas. Copyright © 2013-2026
®Direitos Autorais Reservados. Lei 9.610/98

*Foto Arquivo Google Imagens.
©Todos os direitos reservados/2026
 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

*"As janelas do meu quarto" (Poema)

Muitas vezes sento-me a beira da cama nas minhas madrugadas e percebo que as janelas do meu quarto são tímidas. Nesses momentos me pergunto, "porque minhas janelas são assim?".
E a resposta que vem a minha mente é; "Elas são assim porque só se abrem quando o silêncio é tão profundo, mas tão profundo, que até os meus pensamentos se calam."
É como se elas estivessem à espera de um grito meu que nunca chega, por isso elas ficam ali na parede, suspensas, à escuta, desejosas de algo que as desperte, mas elas não gritam, e tampouco eu.
E assim, nós, eu e minhas janelas, ficamos presos a este corpo que continua a ser apenas um nome dentro de um homem só, mas que, mesmo assim, desse lugar imóvel em fico quando me sento a beira da cama nas minhas madrugadas, vejo mundos inteiros lá fora.
Mesmo imóvel a beira da cama, vejo ruas que nunca pisei, vidas que nunca vivi, sonhos que talvez tenham sido meus numa outra versão de mim.
Porém algo acontece dentro de mim nessas minhas madrugadas, pois vejo que há outros mundos ainda maiores, alguns perfeitos, outros desfeitos, alguns em construção, outros em ruínas.
Por outro lado, creio que as janelas do meu quarto querem ficar fechadas, porque lá fora o mundo quer sempre falar, e o barulho é tanto que, no meu quarto tudo se transforma em silêncio, mas é um silêncio diferente, não é aquele silêncio que acalma, na verdade é o silêncio que pesa, é um silêncio a base da pressa e de medo, ou de um medo com pressa, sei lá!?
Então, nas minhas madrugadas sentado a beira da cama, volto a ficar ali, entre o abrir e o fechar, o dentro e o fora, e é nesses momentos que vejo o que sinto, e as janelas do meu quarto estão ali sempre à espera que, nem que seja só uma vez, eu tenha a coragem de gritar.

®Jorge Bessa Simões
(Baseado em Texto de Autoria Desconhecida)

®Velhas Memórias Poéticas. Copyright © 2013-2026
®Direitos Autorais Reservados. Lei 9.610/98

*Foto Arquivo Google Imagens.
©Todos os direitos reservados/2026
 

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

*"Escrevo para não me afogar nas palavras" (Poema)

Muitas vezes me perguntam porque escrevo, e por mais que tente explicar, poucos compreendem, mas, vou tentar mais uma vez.
Escrevo porque escrever é algo simples para mim, ao mesmo tempo quando escrevo, isso impede de me afogar nas palavras. Porque as palavras ao nascer nas minhas memórias, além de abrir a minha mente, elas abrem as janelas do meu coração, ao mesmo tempo elas me libertam, me faz crescer, e me ajuda a construir um alicerce mais forte dentro de mim e só então consigo partilhar.
Ao mesmo tempo quando escrevo não é para me dividir ou para me perder, quando escrevo isso ajuda a me reconhecer em cada linha, e me faz juntar as entrelinhas preservando o meu eu.
Além disso, quando escrevo procuro me entrego na arte de escolher as palavras certas, aquelas que, em qualquer lugar, me devolvem a mim quem sou.
Por isso busco algum termo que acenda meu coração, na tentativa de tirá-lo da tristeza ou da mágoa, com isso escolho um verbo que empurre meus punhos para escrever, é nesse instante que o silêncio me diz mais do que o ruído.
Dessa forma, brinco com as frases, embaralho as palavras na busca de que elas façam sentido, afino o ritmo entre o ponto inicial e o ponto final, aparo arestas de cada uma delas entre as vírgulas, e assim não procuro enfeites, busco o sentido daquilo que escrevo.
Quando escrevo, é nesse momento que me expresso, e demonstro de forma clara tudo aquilo que vibra por dentro, faço isso de uma maneira só minha, pois é dessa forma que digo o que sinto e o que penso, consigo descrever o que ouço do fundo do meu peito e tudo aquilo que vejo ou vi, tento contar o que me acontece ao lado, na beira do meu cotidiano, onde o meu mundo murmura histórias que pedem voz ao serem escritas.
Quando escrevo é para não esquecer, mas ao mesmo tempo é para transformar os meus momentos em memória, o que me faz lembrar o quanto rasgo meus caminhos, na busca de sair do meu caos que a vida me desenha.
É nesse momento que escrevo o porque das minhas palavras, é quando encontro dentro de mim um lugar, um abrigo, e quando partilho o que escrevo, isso se torna uma ponte.
E quando escrevo é para tocar o íntimo dos que as leem, para emocionar sem excessos, ao mesmo tempo ensinar sem ser pretensioso, e convencer sem empurrar.
Busco sempre ajustar o tom ao coração do propósito, busco ser direto quando é preciso, quem sabe delicado quando convém, mas muito firme quando a ideia exige palavras mais contundentes.
Por outro lado, tento cortar repetições gramaticais, preferindo sempre manter a voz ativa entre as palavras, pois sei que é ai que a minha mensagem ganha músculo ao se mover.
É difícil escrever com parágrafos curtos, mesmo sabendo que o que escrevo respire melhor, mas o que fazer quando minhas memórias e o meu coração ditam o ritmo, porque cada texto dança quando as frases se dão a mão.
Ao término do que escrevo, ainda leio em voz alta, faço algumas revisões, posso até pedir opiniões, e corrijo tudo o que distraia, até porque as palavras são vivas e merecem cuidado, e atenção.
E para aqueles que ainda não compreendem do porque escrevo, respondo que ao escrever faço isso com alma, porque um texto quando toca, convence e ensina, com certeza será o texto que viaja. E é o que se partilha, o que fica, e no final, é o que devolve a mim tudo aquilo que me faz inteiro, me mantém vivo, espanta meus traumas e meus fantasmas, e ainda que não cure as minhas cicatrizes, com certeza me deixará em paz. É por isso que escrevo...

®Jorge Bessa Simões

®Velhas Memórias Poéticas. Copyright © 2013-2026
®Direitos Autorais Reservados. Lei 9.610/98

*Foto Arquivo Google Imagens.
©Todos os direitos reservados/2026
 

domingo, 15 de fevereiro de 2026

*"Saberia dizer, te amo sinceramente?" (Crônica da Vida)

Você já amou? Não estou me referindo em amar o pai, mãe, filho ou irmão, mas se respondeu que sim, acredite, você nunca amou de verdade, aliás, o amor não deveria ser conjugado no passado já que é a palavra mais próxima do eterno.
Porém é incrível como atualmente esse sentimento maior está tão banalizado nos relacionamentos de hoje, por exemplo, no primeiro mês de namoro já dizem “te amo”, quando mal se conhecem, no segundo mês quando estão se conhecendo, já passam a dizer “te amo para sempre”, e quando estão quase chegando ao fim do terceiro mês, "esse lindo romance" chega ao fim.
Volta-se então a pergunta do inicio, se estas pessoas que dizem amar tanto, porque não falam um “te amo sinceramente”, e assim não permitam que esse romance se acabe? É porque simplesmente nunca se amaram de fato?.
Talvez devessem admitir que nunca amaram, não por incapacidade, pelo contrário, mas por não saberem classificar os sentimentos e por não acreditarem na verdadeira força do amor.
Mas, quem nunca disse a tal frase bendita e teimosa expelida pela boca nos momentos de euforia e paixão, e é nesses momentos que essa frase perde o seu encanto.
Porém, como julgar se nunca o sentiu de verdade? Bem, para compreender o amor é preciso meditar diariamente sobre o seu poder e concluir que tal sentimento é o que há de mais completo, bonito, intenso e nunca deixará de ser constante, e jamais é cego.
Pois o amor nos permite ver qualidades e defeitos, aceitar e gostar de conviver juntos, não importa o que possa vir acontecer, o amor é como uma luz que emana do íntimo.
Por isso sempre digo, se passou, não foi amor, pois foi assim que aprendi a não ter pressa e não me esquecer de querer amar, e quando se encontra a dona ou o dono do seu “te amo”, diga “te amo sinceramente", só ai estará pronto para dizer: “sempre te amarei”.

®Jorge Bessa Simões

®Velhas Memórias Poéticas. Copyright © 2013-2026
®Direitos Autorais Reservados. Lei 9.610/98

*Foto Arquivo Google Imagens.
©Todos os direitos reservados/2026