
E interessante que o centro da cidade parecia um organismo vivo que nunca dormia, mas que por outro lado ignora muita gente para conseguir continuar respirando. Foi no meio desse vai e vem de ternos apressados e saltos que estalavam no asfalto quente, que não só eu vivi, mas também foi onde encontrei um cachorro e que passei a chama-lo de Radar.
Não tinha mais que 9 ou 10 anos, embora meus olhos parecessem carregar o cansaço de quem já tinha mais tempo de vida. Eu era pequeno, ágil como um gato, vestia uma camisa quase sem botões que já estava bem desbotada, uma calça maltrapilha e muitas vezes não usava nenhum calçado ou chinelos.
E ao meu lado, sempre a um passo de distância, vinha Radar, um vira-lata com manchas preta, caramelo e branco, orelhas que pareciam duas antenas girando de um lado para o outro (daí o nome dele). Ele observava tudo, prestava atenção a todos a nossa volta, em especial quando muito cansado das nossas andanças, eu dormia numa calçada ou em algum banco de praça.
Muitas vezes descíamos até o Mercado Municipal, já que nas proximidades tinha uma padaria, na frente dela, eu não pedia dinheiro; pedia "um pedaço de atenção".
Depois ficava ali, sentado com as costas no poste, dividindo o olhar entre o movimento e o meu cachorro.
Afinal, Radar era o meu segurança e meu travesseiro. Quando meu estômago roncava, ele parecia sentir a mesma vibração e encostava a cabeça no meu colo. Quando alguém mais apressado quase pisava em nós, Radar soltava um rosnado baixo, mas não de agressividade, mas de aviso: “Aqui existe alguém”.
Para a maioria das pessoas, o centro da cidade era um conjunto de lojas e escritórios, mas para mim e o Radar, era um mapa de sobrevivência, perto de uma grande loja de departamentos da época, tinha um chafariz onde o banho era gelado, mas necessário.
E debaixo da marquise de um teatro quase no coração da cidade, ali era o melhor abrigo contra a chuva para nós, onde o som das gotas no zinco parecia música. Algumas ruas mais abaixo, tinha alguns restaurantes onde, a tarde depois das duas horas, com sorte alguém nos dava alguma sobra de comida, que era dividida entre nós dois.
Certa vez, encontrei uma bolinha de tênis perdida numa lixeira, naquele dia, a avenida de paralelepípedos do centro virou o nosso Pacaembu, eu jogava a bola, e o Radar, com uma agilidade de atleta, driblava as pernas dos pedestres para recuperá-la.
Por alguns minutos, as pessoas pararam de desviar o olhar da gente. Elas sorriram. Sem querer aquele menino de rua e o seu cão tiveram o poder milagroso de humanizar o concreto.
Quando chegava a noite, as luzes das vitrines se apagavam e o barulho da cidade diminuía, o mundo ficava maior e mais frio. Assim eu me enrolava em um cobertor de papelão, e o Radar se aninhava no vão das minhas pernas.
Ali, sob o brilho neon de algum letreiro de alguma loja, eu não era "o menino de rua". Eu era o dono do Radar, o protetor de um amigo fiel.
E o Radar, no seu sono leve de cachorro atento, não era um animal abandonado; ele era a âncora que impedia que eu flutuasse ou sumisse na imensidão da cidade.
Naqueles dias, nós não tínhamos teto, mas tínhamos um ao outro, e no fim das contas, no coração do caos urbano, a única coisa que realmente ocupava espaço, era aquela lealdade silenciosa que nenhum dinheiro de qualquer pessoa que passasse por ali poderia comprar.
®Jorge Bessa Simões
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