sexta-feira, 22 de maio de 2026

*"Menino de rua, um ciclo que se fecha" (Crônica da vida)

1974, nessa época eu completaria 18 anos, havia me alistado no Exército obrigatoriamente, São Paulo agora era uma selva de concreto ainda mais densa.
O Viaduto do Chá já não tinha mais o mesmo silêncio das madrugadas de 1964. E eu já não era mais um menino de rua, todos me chamavam por meu nome, nas mãos tinha as marcas geradas pelas latas de filmes que carregava entranhada nos poros.
Mas no "crachá do jornal" onde fui trabalhar em 1970 como assistente de laboratório fotográfico tinha o meu nome, "Jorge - Office-boy", mais que isso, ele tinha o retrato de quem venceu a vida no dente da engrenagem.
A duras penas e muito trabalho diuturno consegui comprar a prestação um carro usado do qual sempre tinha sonhado, agora eu era dono de um Simca Chambord 1967 que foi reformado por mim mesmo nos meus dias de folga.
No banco do carona, o lugar que seria do Radar estava vazio; meu velho companheiro de orelhas em pé havia partido anos antes, enterrado sob uma laranjeira no quintal da primeira casa que o ex-menino de rua conseguiu alugar lá na Mooca
Senti um aperto no peito quando sai para dar minhas primeiras voltas nas ruas do bairro, foi então que resolvi dirigir até o centro de São Paulo, algo me puxava para ir até a Boca do Lixo, não!. Não iria atrás das prostitutas como alguns faziam aos finais de semana ou quando recebiam seus pagamentos, minhas intenções eram outras, e tinha um motivo muito especial.
Assim estacionei perto da Rua General Osório, o cenário já era outro diferente dos meus tempos de menino de rua, mas as sombras ainda eram as mesmas.
Olhando a minha volta, vi uma mulher sentada em um banco de praça, observando o movimento com uma elegância que o tempo tentava, em vão, desgastar. O casaco de pele sintética fora substituído por um xale de lã batida, e o batom vermelho, antes berrante, agora era um traço fino e cansado. Era a Gaúcha.
Me aproximei devagar, o cheiro de jasmim barato e do cigarro que ela fumava, me atingiu como um soco de nostalgia. Parei a poucos metros dela e disse, com a voz embargada:- "Um dia me disseram que se eu voltasse a pedir esmola, a senhora mesma me daria uma surra." Se lembra disso, Senhora?
A Gaúcha levantou os olhos. Levou alguns segundos para processar o rapaz de ombros largos, camisa de botão e chaves de carro na mão. Mas quando ela viu o brilho nos olhos daquele "guri" que ela havia dado um banho com água morna há alguns anos atrás, um sorriso enviesado surgiu em seu rosto.
E segurando com uma das mãos o meu rosto, olhou nos meus olhos, murmurou:- "Olha só... não é que o guri cresceu," a voz estava mais rouca do que me lembrava, e completou me dizendo:-"E parece que aprendeu a usar as mãos, como eu mandei."
Não nos abraçamos de imediato; a rua ensina a manter uma certa distância de respeito. Depois de algum tempo sentei-me ao lado dela que abriu a mão, revelando uma pequena caixinha de veludo. Dentro, não havia joias, mas as chaves de uma pequena casa que eu havia alugado meses antes, na zona leste, e as do meu carro.
Então disse a ela:- "Gaúcha, meu trabalho está tá indo bem. Agora tenho um lugar para morar, não é de luxo, mas pelo menos tem um chuveiro quente e ninguém vai me mandar sair da calçada, e eu vim te buscar para você conhecer e dar uma volta no meu carro."
Ela olhou para as chaves e depois para as minhas mãos ainda marcadas por ter carregado tantas latas de filmes. Uma lágrima teimosa borrou o rímel pesado que ela usava, e me respondeu:- "Eu não aceito caridade, guri. Você sabe disso."
Calmamente respondi a ela:- "Não é caridade," minha resposta foi firme, e continuei dizendo:- "Na verdade vim te convidar porque o meu aluguel com você está atrasado, lembra daquela canja de galinha de 1966? Então o juro tá alto."
A Gaúcha soltou uma gargalhada que ecoou pela rua e todos a nossa volta nos olharam, sem entender nada, aquela era a mesma risada que um dia espantou os meus agressores sob a garoa.
Ela pegou as chaves, fechou a minha mão com a sua e, pela primeira vez, deixou-se ser levada para outro lugar, que não fosse a Boca do Lixo, e por alguém que ela mesma salvou do abismo.
Com essa atitude, o menino de rua que eu tinha sido um dia, finalmente encerrava aquela história, ciclo da rua, finalmente, o meu ciclo da rua havia se fechado.

®Jorge Bessa Simões

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*"Um acordo de meio fio com o menino de rua" (Crônica da Vida)

Era inverno de 1966, a garoa de São Paulo parecia agulhas de gelo, nesse ano completava 10 anos de vida, e praticamente 2 anos vivendo nas ruas desta grande metrópole que se expandia para todas as direções, mas que estava sobrevivendo.
Agora já não estava mais só no Viaduto do Chá, até por causa do frio e também porque tinha uma companhia comigo, era um cachorro que vivia nas ruas e acabamos por nos encontrar.
Certa noite estava encolhido sob o vão de um casarão antigo na Barão de Itapetininga quando senti: um focinho úmido e quente contra meu pescoço. Era um vira-lata de pelo encardido e orelhas em pé, tão costela-e-osso quanto eu.
Não tinha nada para oferecer para ele, mas o cachorro não pedia pão, tudo que ele pedia era trégua. Naquela noite, pela primeira vez, o frio não venceu. O calor do cachorro, que batizei de "Radar", por causa das suas orelhas que ficavam virando de um lado para o outro, me serviu de cobertor vivo.
Acabou que o cachorro virou minha sombra, meu guarda-costas de dentes à mostra contra quem tentasse mexer comigo enquanto eu dormia.
Porém minha sorte mudou numa noite de terça-feira, em frente ao antigo Cine Art-Palácio. Eu tentava engraxar os sapatos de um sujeito apressado que me empurrou com força, eu cai, o Radar latiu furioso, avançando na canela do agressor.
O homem levantou a mão para espancar o cachorro, mas uma voz de trovão, com cheiro de perfume barato interrompeu o gesto, ela disse; "Se encostar a mão no cachorro ou no guri, eu abro um mapa na sua cara, seu covarde!"
Era uma mulher alta, cabelos claros, olhos azuis, nunca me disse seu nome, mas soube que todo mundo a conhecia como Gaúcha. Ela usava um casaco de pele sintética que brilhava sob os postes de luz e tinha o olhar de quem já tinha visto o inferno de perto e resolvido morar lá. A Gaúcha não era uma santa de altar; era uma mulher da noite, calejada pela Boca do Lixo, mas que guardava no peito um resto de infância que a rua não tinha conseguido matar.
Em nenhum momento ela perguntou o meu nome. Apenas me pegou pelo braço, fez um sinal para o cachorro e caminhamos até sua pensão. Lá, o meu mundo mudou de cor.
Ela me fez tomar um banho, aliás o primeiro em meses, com água morna, a Gaúcha mandou eu tirar a roupa, fiquei envergonhado com a presença dela, mas mesmo assim, ela me ajudou a tomar banho tirando as crostas de poeira e medo da minha pele.
Depois daquele banho gostoso, me deu um prato de canja de galinha que fumegava, e que foi dividido com o Radar em um canto da cozinha.
Enquanto nós comíamos, ela nos contou um pouco da sua história e de como viera parar em São Paulo, naquele momento, compreendi que a Gaúcha não queria um "filho", ela queria um sobrevivente, e esse era eu.
Assim a Gaúcha se tornaria minha mentora improvável. Ela usava o pouco que sobrava dos seus ganhos e da sua influência com os "coronéis" da região para conseguir para mim algo que valia mais que ouro nos anos 60.
Foi assim que tempos depois, quando eu já tinha 12 anos, ela me conseguiu um lugar de aprendiz de office-boy em um estúdio de filmes de chanchadas na Boca do Lixo.
"Escuta aqui, guri," ela disse, enquanto ajeitava a gola da camisa nova que tinha comprado para mim. "A rua te deu os dentes, mas o trabalho vai te dar as mãos. Não olhe pra trás e cuida desse cachorro. Se eu te vir pedindo esmola de novo, eu mesma te dou uma surra."
E lá fui eu, levando o Radar, que agora dormia sobre um tapete de estopa entre latas de filmes e monte de cartazes de cinema.
A Gaúcha continuou na noite, desaparecendo entre as luzes de neon e o fumo dos cigarros, mas eu nunca me esqueci que a minha vida foi costurada pelas mãos de uma mulher que a sociedade chamava de "perdida", porém foi a única pessoa naqueles dias cruéis que me encontrou, me ensinou muitas coisas e me mostrou um caminho que poderia fazer a diferença na minha vida.
Eu, a Gaúcha e o Radar ainda nos veríamos muitas outras vezes, por um tempo ainda ia dormir no quarto de pensão onde ela morava, isso quando não acabava dormindo no corredor por causa dos clientes que ela recebia, mas enfim isso é uma outra história.
E foi desta maneira que fiz um acordo de meio fio, com a vida e a mulher que me estenderá a mão, não para me bater, me cobrar ou me julgar, mas que ajudou a me salvar.

®Jorge Bessa Simões

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*"O menino invisível no Viaduto do Chá" (Crônica de Vida)

Era 1964, São Paulo, a cidade não tinha o mar de prédios que sufoca o horizonte hoje em dia, mas já possuía a frieza de quem não tem tempo para olhar para baixo.
Em especial para os pequenos meninos de rua, como eu, de apenas oito anos de idade, a capital paulista não era a "locomotiva do Brasil", na verdade aos meus olhos assustados, era como um bicho de concreto que rangia dentes de ferro e cuspia fumaça cinza.
Naquele tempo a ditadura se desenhava nos jornais que os senhores de terno liam apressados, enquanto isso a minha guerra era outra, a minha infância não foi só perdida ou roubada; ela foi confiscada, com isso confiscaram até minha inocência.
No lugar de cadernos, tive que aprender a carregar uma caixa de engraxate que pesava mais que meu próprio corpo. No lugar do afeto ou do carinho, aprendi a ler os humores do céu e a agressividade dos sapatos.
Para mim, sobreviver no centro de São Paulo nos anos 60 exigia uma logística cruel que nenhuma criança deveria conhecer, por exemplo; o frio. O inverno daquela década era impiedoso.
Eu dormia sobre folhas de jornal "O Estado de S. Paulo", não pelas notícias, mas porque o papel era a única barreira entre meus ossos e o cimento gelado do Viaduto do Chá. O segredo era o "abraço de bicho", encolher-se até que o queixo tocasse os joelhos, tentando conservar o calor que a barriga vazia insistia em dissipar.
Depois tinha a fome, e como menino de rua, para mim ela tinha um som, que era o barulho das portas dos restaurantes se fechando no final da noite. Aprendi a ter uma amizade estratégica com os fundos das padarias na Rua Direita, esperando pelo pão "amanhecido" que, às vezes, vinha acompanhado de um chute de algum funcionário de mau humor.
Mas pior que essas duas situações, tinha a violência. Na rua era um território de sombras, havia o medo da "polícia do juizado" que se pegassem um de nós, nos recolhiam como se fossemos lixo, era pior que cachorro sendo laçado pela carrocinha, para piorar as coisas, ainda tinha o medo de homens cujos olhos brilhavam de um jeito errado na escuridão dos becos ou quando vinha se esconder debaixo do viaduto. Tive que aprender a ser como fumaça, estar em todo lugar, mas não ser notado por ninguém.
Certa noite, sob a garoa fina que era a marca registrada da cidade naquela ocasião, encontrei um carrinho de rolimã quebrado perto da Praça da Sé. Por alguns minutos, me esqueci que meus pés estavam rachados pelo sereno.
Me sentei no pedaço de madeira e, no silêncio da madrugada, imaginei que cruzava a cidade em velocidade da luz, longe do cheiro do cano de descarga e do frio que cortava como navalha.
Aquele pedaço de madeira era o último vestígio do menino que eu deveria ser. No dia seguinte, troquei o carrinho por um pedaço de charque com um vendedor de rua que queria aproveitar as rolimãs.
Assim a sobrevivência sempre vencia a ludicidade, e desta maneira sobrevivi aos anos 60, não virei estatística, embora a cidade tenha tentado me devorar em cada esquina. Cresci com as marcas da rua, não apenas as cicatrizes físicas, mas aquele olhar vigilante de quem sabe que o mundo não é, e nunca seria um lugar seguro.
E foi dessa maneira que a minha infância ficou depositada em algum bueiro da Avenida São João, perdida entre o barulho dos bondes e o grito dos jornais.
Hoje, quando caminho pelo centro de São Paulo, já como homem feito e de sapatos limpos, ainda sinto um arrepio quando a garoa cai. Não é frio, nem é o medo, são as memórias de um tempo em que eu era um menino invisível no Viaduto do Chá, lutando contra os monstros noturnos, contra os pesadelos do que me acontecerá, e contra gigantes de concreto para simplesmente ver o amanhecer.

®Jorge Bessa Simões

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*"Fui um menino de rua" (Crônica da Vida)

Porém não fui eu que pedi isso, mas fui levado a fazer tal escolha por vergonha do que me acontecerá quando me roubaram a infância de forma brutal, e eu só tinha oito anos de vida.
Tente imaginar um menino tendo que fazer a pior escolha da sua vida, depois de ter sido deixado quase morto na linha de trem, por causa do que me fizeram.
Naquele tempo, muitos do que se aproximavam de mim, me perguntavam; "Porque você vive nas ruas? Você gosta de ser um menino de rua?." Porém ninguém me perguntava, "porque eu perdi os sonhos dourados de criança que a vida um dia me prometeu."
Assim me tornei um menino que vivia nas ruas de uma grande metrópole, morava e dormia um dia aqui, outro dia ali, e noites acolá. E nunca ninguém me perguntava onde estariam meus pais?. Aliás, o medo de que soubessem o que me acontecerá, e por causa das cicatrizes que carregava no meu corpo miúdo, me levava a responder que não os tinha.
Mas um dia alguém me acolheu e me ajudou a frequentar uma escola, algo que não duraria muito, por causa de muitas coisas que até hoje me doem ao lembrar.
Sempre fui sabido, aprendia rápido as coisas, talvez por isso não me esqueço de que a rua foi uma escola para mim e me ensinou muito do que sei, até a ter desgosto, porque na rua era, cada um por si, tive que aprender a brigar e me defender, vi muita violências, passei fome e humilhação para comer, mas eu sobrevivi.
Na rua a luta por um pedaço de pão ou um pouquinho de comida, era na base da "lei do cão", na rua era um ambiente de constante tristeza e amargura, se eu desse um vacilo, não tinha perdão!
Uma vez um ajudante de cozinha num dos lugares que eu ia atrás de comida, me perguntou; "Você gosta de morar na rua?."
Eu apenas balançava a cabeça dizendo "Não!", porém o medo e a vergonha não me davam opção, pois das poucas vezes que tentei voltar para a família, eu era tratado como alguém diferente de todos, para piorar me faziam sentir culpado por tudo que me aconteceu na vida.
Resultado, tive que voltar e aprender a morar, me acostumar que o meu lar era a rua, que debaixo das pontes tinha mais proteção, ledo engano, quantas vezes tinha que fugir da polícia do juizado de menores, isso quando por várias vezes tinha que me esconder dos meninos maiores e até dos adultos da rua que eram verdadeiros crápulas ou monstros em forma de gente. E assim eu vivia de lá, pra cá, sem ter paradas até para dormir.
Tem pessoas que até hoje me perguntam, porque que sou tão desconfiado, ou porque estou sempre olhando para todos os lados?. Alguns pensam, que já fui ladrão, por ter sido menino de rua, mas nunca roubei. Sei que é difícil acreditar, mas nunca fiz isso, quando tinha fome, eu pedia comida pra comer. Porém muitas vezes dormi de barriga vazia.
Tive alguns vícios, isso eu sei! E aprendi a tê-los por estar naquela vida, mas, não era a vida que queria, se pudesse escolher. Me tornei um menino de rua, porém se alguém por piedade, viesse me socorrer ou acreditasse em mim, talvez eu não correria o risco de ver chegar o meu fim, se não me fizesse acreditar que eu era o culpado de tudo, iria agradecer, porque eu queria vencer!.
Não queria me tornar um homem de rua, tampouco não queria perder todas as esperanças que ainda me restavam, já me bastava ter perdido aquela inocência que têm todas as crianças tinham.
Sim!. Fui um menino de rua, melhor, acreditem, me fizeram ser, não fui eu quem pediu!

®Jorge Bessa Simões

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*"Quatro tempos de um menino de rua" (Crônica da Vida)

Nasci numa noite de sereno, na infância vivi entre bondes e trilhos. Naquele tempo era só um pingo de gente, sem nada e sem brilho. No Viaduto do Chá, meu mundo era plano, visto de baixo, por um soberano de pano.
Tinha o cheiro do engraxe, a fome de vento, e morava no vão do esquecimento.
São Paulo rugia, erguia o seu muro, e eu, pequeno, moldava o meu futuro.
Um tal de "Professor" sempre me dizia: "Escuta o chiado! O rádio é a voz do mundo guardado."
Aprendi a ler o silêncio e a desviar do guarda e dos atritos da vida.
Depois vi chegar a tal da Tropicália com sua guitarra, e o grito do rock, que mesmo no asfalto queimando era algo bendito.
Sou o menino de rua que correu com o caderno na mão, descrevendo o medo e a revolução.
Cresci com o Metrô, na terra vermelha, troquei o jornal por uma centelha.
Meu lápis virou lente, o meu olhar virou prova, e me tornei testemunha do retrato da angústia na cidade nova.
Sob a luz vermelha do laboratório, ajudei a revelar o avesso do auditório e vi a mordaça imposta por uma ditadura.
Onde havia o silêncio da bota e do aço, eu pus o foco no cansaço e no meu passo.
Logo não seria mais um pingo de gente, nem sombra, nem rastro.
Logo eu teria o olhar mais atento, seria o meu próprio maestro.
São Paulo não para, mas certa vez eu a detive, num clique eterno, em preto e branco, onde vi as palavras "Ame-o ou Deixe-o".
Assim foram os quatro tempos de um menino de rua que virou o olhar, e olhando, buscava um novo horizonte, e ainda que muita coisa me acontecesse, iria tentar chegar no meu objetivo na vida.

®Jorge Bessa Simões

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*"O menino de rua que aprendeu a sobreviver" (Crônica da Vida)

Como havia escrito na última página do caderno em 67 ou 68, eu não parei mais de escrever até para que, a cidade soubesse o meu nome e se lembra-se que eu existia. Sendo assim, eu não era mais o menino invisível do Viaduto do Chá.
Sem querer, mas como já estava na rua desde os meus oito anos, acabei me tornando uma testemunha ocular de uma São Paulo que tentava esconder suas cicatrizes sob camadas de asfalto novo.
Mais uma vez peguei meu velho caderno e, abaixo da frase que escrevera em 1967 ou 68, acrescentei a última linha: "A cidade não aprendeu meu nome, mas, com certeza, ela vai ter que olhar para os meus olhos."
Agora o calendário marcava 1970, naquele ano a seleção brasileira se tornaria tricampeã na cidade do México, já em São Paulo, a cidade se tornava uma selva de guindastes.
Um tal de "Milagre Econômico" erguia espigões na Avenida Paulista na mesma velocidade com que o silêncio era imposto nas redações de jornais e revistas, no teatro e cinema, além das universidades.
A cidade já não tinha o charme da terra da garoa; tinha o peso do concreto bruto e o ritmo frenético de quem precisava produzir para não ser engolido.
Eu agora era Jorge. "Jorge Office Boy", era como me chamavam na redação de um grande jornal que tinha me contratado para trabalhar como assistente de laboratório fotográfico. Do alto dos meus 14 anos, já não morava mais embaixo do viaduto e nem dormia mais debaixo de qualquer marquise, tinham me arrumado um quartinho nos fundos de um casarão na Bela Vista.
No subsolo do jornal, sob a luz vermelha e o cheiro forte de fixador e revelador, eu via a história do Brasil e de São Paulo passar por minhas mãos antes mesmo de chegar às bancas. As imagens que revelava mostravam fotos de políticos de óculos escuros, inaugurações de rodovias que pareciam não ter fim e o rosto suado dos operários que construíam o Metrô.
Como disse, às vezes, um homem de terno cinza entrava no laboratório do jornal e, com um gesto seco, confiscava os negativos. Com autoritarismo arrogante ele dizia: "Essa não sai, rapaz". Eu apenas concordava, mas guardava a imagem na memória.
Eu ainda carregava o caderno de 1965. Mas agora, embora eu usasse o lápis para escrever minhas anotações, poemas ou poesias, ele foi substituído por uma câmera Leica de segunda mão, que me ajudaram a comprar e que pagaria com muitas refeições puladas.
Certa tarde, caminhando pelo Largo do Paissandu, vi um vulto familiar sentado em um banco de pedra. Era o "Professor". Mas o rádio Transglobo estava mudo, com a antena quebrada. O velho parecia uma estátua de poeira, esquecida pelo progresso que ele tanto profetizara.
Bem devagar me aproximei dele e com muito cuidado o chamei; "Professor"?. O velho demorou a focar os olhos. Quando me reconheceu, um resto de brilho surgiu sob as pálpebras cansadas.
Ele me perguntou: "Você virou um deles, rapaz?", apontando para a câmera fotográfica no meu pescoço. "Você está tirando retrato da mentira para vender a verdade?"
Me sentei ao lado dele e respondi; "Não! "Professor", eu tiro foto do que vejo. O que fazem com a foto depois, ainda não consigo controlar. Mas eu guardo os negativos que eles mandam queimar. Um dia a gente vai precisar deles para lembrar quem a gente foi."
O "Professor" sorriu, tossindo e disse; "A cidade ficou barulhenta demais, rapaz. Já não ouço mais o universo. Só ouço o som das britadeiras."
Naquela mesma semana, eu estava na Praça da Sé. As obras do Metrô haviam transformado o coração da cidade em um buraco imenso de terra vermelha. Entre as máquinas, vi um grupo de operários dividindo uma marmita fria sob o sol escaldante, enquanto, logo acima do canteiro de obras, um outdoor gigante anunciava: "Brasil: Ame-o ou Deixe-o".
Eu não pensei, apenas ajustei o foco, medi a luz e disparei. O clique da câmera foi como um tiro silencioso. Um policial se aproximou de mim, mas eu fui mais rápido. Afinal, eu não era mais a criança que fugia por medo; agora eu era o jovem que fugia por missão. Mergulhei na multidão, cruzei a Galeria do Rock e desapareci nos becos que conhecia desde os oito anos de idade.
À noite, no silêncio do subsolo da redação, o responsável pelo laboratório, revelou a foto. A imagem era poderosa: o contraste entre o slogan ufanista e a realidade dura do prato de metal vazio. Olhei para o meu reflexo no espelho manchado, guardei aquele negativo em uma caixa de sapatos e levei para esconder sob o assoalho do quartinho onde eu dormia.
Eu sabia que os anos 70 ainda seriam longos, mas eu tinha o tempo a meu favor. Aquele menino de rua tinha aprendido que, para sobreviver em São Paulo, não bastava correr; era preciso registrar o rastro de quem ficou para trás.

®Jorge Bessa Simões

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*"O menino de rua que queria que soubessem o seu nome" (Crônica da Vida)

O ano era 1967 ou 68, como havia escrito no meu caderno, agora eu criaria o meu próprio mapa, melhor, eu queria de soubessem que eu existia e tinha um nome.
Naquela época, São Paulo não apenas corria; ela pulsava em uma frequência elétrica e perigosa. O céu de brigadeiro dos anos dourados tinha dado lugar a uma névoa de incerteza, e a cidade, que antes cheirava a café e fumaça dos freios de bonde, agora exalava o odor de asfalto quente e gás lacrimogêneo.
Eu não era mais um pingo de gente entre a multidão. Aos onze anos, quase doze, era um garoto magro de pernas compridas, que vestia uma calça boca-de-sino remendada e uma camisa de tergal amarelada.
O caderno de capa dura que tinha comprado antes, ainda resistia as intempéries do clima úmido de São Paulo, terra da garoa, que eu escondia com minhas coisas entre algumas brechas dos viadutos onde muitas vezes me escondia do tempo ou da polícia do juizado de menores, mas agora estava cheio de histórias, poemas e poesias, além de anotações sobre os "loucos" que eu via nas escadarias do Teatro Municipal.
Muitas vezes, quando o tempo ajudava, ficava encostado em um poste de iluminação na Rua Conselheiro Crispiniano. O ar era carregado. Naquele tempo surgiu a era dos grandes festivais de música da TV Record.
O som das ruas, não eram mais só dos bondes raspando os trilhos, tinha também os enormes "Papa-Filas" da FNM que puxavam as carretas de passageiros da CMTC, que além do barulho soltavam uma fumaça espessa de diesel, e nas praças de onde partiam, tinha o som dos pregões de vendedores de bilhete, as lojas de eletrodomésticos, aumentavam o volume dos sons das guitarras distorcidas de Os Mutantes e a voz visceral de Caetano e Gil.
As mulheres que circulavam pelas ruas do centro, exibiam o visual da moda na época, com suas mini-saias audaciosas que usavam como fardas impecáveis. A elegância antes de 1965, tinha sido atropelada por uma explosão de cores psicodélicas e óculos de aros grossos.
Naquela ocasião, já não mais engraxava sapatos para sobreviver, agora eu trabalhava como "leva-e-traz", uma espécie de "Office-Boy", para um estúdio de filmes de chanchadas na região da Rua do Triunfo. E mesmo fazendo isso, já que conhecia os atalhos das ruas de São Paulo, ainda assim, tinha que fugir das viaturas da rádio-patrulha, os famosos "Fuscas" que vigiavam a moral e os bons costumes, além da polícia do Exército da época na ditadura.
Um dia, no meio do burburinho, reencontrei o "Professor". O velho parecia menor, mais curvado, mas o rádio Transglobo ainda estava lá, chiando como uma panela de pressão.
Quando ele me viu, disse: "Rapaz! Ouviu essa?". Ele gritou, apontando para o rádio que tocava algo que parecia uma mistura de samba com rock. "É rapaz, a música tá mudando. Estão colocando eletricidade no pandeiro. O mundo vai explodir e a gente vai dançar sobre os cacos."
Sorri, mas agora era um sorriso de quem já entendia que o mundo não era apenas uma crônica de jornal. Foi quando percebi que algo a nossa volta estava acontecendo; "Professor", o senhor viu? Estão fechando tudo cedo. O pessoal tá com medo das sombras."
O "Professor" deu de ombros e me disse: "Medo é para quem tem algo a perder, rapaz. Nós? Nós somos os donos da calçada. E a calçada ninguém confisca."
De repente, um estrondo. Não era música. Era uma manifestação de estudantes que descia a Barão de Itapetininga, foi então que vi os cartazes pintados à mão, no instante seguinte, começou uma correria, vi que surgiu uma barreira humana, cheia de policiais com seus cassetetes batendo nos escudos.
Instintivamente, abri minha bolsa de lona, pena que eu não tinha uma câmera fotográfica, era caro demais para um office-boy de rua, mas tinha o meu olhar. Então saquei o caderno e, com uma velocidade que só a fome e a pressa ensinam, comecei a escrever todo movimento daquela massa humana.
Entre as linhas do que escrevia, descrevi o rosto de uma moça que corria com os sapatos na mão, os cabelos ao vento, os olhos cheios de um brilho que não era de medo, mas de vida.
Naquela noite, por causa da balburdia que tinha acontecido no centro de São Paulo, tive que dormir no terraço de um prédio abandonado no Bixiga. Dali eu olhava para baixo e via a cidade iluminada pelos faróis não só dos Fuscas, agora tinha também dos Opalas e Corcéis.
São Paulo estava se tornando um monstro de concreto que nunca dormia, e eu, que antes era só um menino de rua, percebi que estava me tornando um adolescente de rua, e também uma de suas células mais resistentes.
Foi então que abri meu caderno na última página, e entre o desenho que havia feito do Edifício Itália de 1965 e a manifestação de 1967, escrevi uma única frase: "Se a cidade não para, também não vou parar até que ela aprenda meu nome e lembre-se que eu existo"

®Jorge Bessa Simões

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*"O menino que não correu para o futuro" (Crônica da Vida)

Naquela fria manhã para que a próxima garoa não me pegasse não corri para o futuro, corri para o Viaduto Santa Ifigênia. Lá eu tinha um encontro marcado com o "Professor", um homem que morava dentro de um sobretudo que parecia ter sido costurado com retalhos de três décadas diferentes.
O "Professor" não me ensinava aritmética, mas conhecia a geometria das ruas como ninguém, e foi com ele que aprendi a conhecer cada ruela e beco de São Paulo.
Ele ficava ali, encostado na grade de ferro, observando o fluxo de gente que descia para a região da rua Vitória e da Santa Ifigênia, onde o comércio de rádios e válvulas fervilhava.
Naquele dia, o "Professor" segurava uma relíquia: um rádio de pilha Transglobo, cujo couro estava descascando, mas que ainda emitia chiados cheios de autoridade, a voz de um locutor de rádio, empolada e grave, anunciava as notícias do mundo.
Meus olhos, viam naquele aparelho uma caixa mágica capaz de trazer Londres ou Paris para o centro de São Paulo.
Aquele rádio só não conseguia diminuir o barulho das picaretas de uma obra próxima ao viaduto, aquele parecia ser o eterno som da cidade que se reconstruía sobre si mesma.
Num certo momento o "Professor" disse; "Escuta menino," encostando o rádio no meu ouvido, "Esse chiado entre as estações? É o som do universo conversando. A gente só não aprendeu o dial certo ainda."
"A cidade é um rádio gigante, menino. Tem gente que é música clássica, tem gente que é só estática. O segredo é não deixar ninguém desligar o seu volume."
Enquanto a gente conversava, uma mulher de porte altivo, vestindo um Taieur azul-marinho e um colar de pérolas que refletia a luz pálida da manhã, parou diante de nós. Ela não parecia sentir nojo, apenas uma certa curiosidade, típica de quem lia as crônicas de Nelson Rodrigues no jornal e buscava a "vida real" nas calçadas.
Então ela abriu uma bolsa de couro legítimo e tirou uma nota de cinco mil cruzeiros. Para mim, aquilo era uma fortuna; para ela, talvez o preço de um chá na Confeitaria Fasano.
"Compre um agasalho para esse menino", disse ela ao "Professor", com uma voz que cheirava a talco e sabonete caro.
O "Professor" pegou a nota com a ponta dos dedos, como se fosse um documento histórico. Olhou para a mulher, depois para mim, e deu um sorriso desdentado que era puro sarcasmo e sabedoria: "A senhora é muito generosa, madame. Mas o frio de São Paulo a gente não espanta com lã. A gente espanta com movimento."
Assim que a mulher sumiu na multidão, o "Professor" entregou a nota para mim. "O que eu faço com isso?", perguntei, com o coração batendo no ritmo de um samba de Adoniran Barbosa.
"O que você quiser. Mas se fosse eu, comprava um bilhete de loteria ali na esquina e um sanduíche de mortadela no Mercado Municipal. O sanduíche garante o hoje, o bilhete irá alimentar o amanhã."
Eu não comprei o bilhete, atravessei o viaduto e fui até a porta de uma livraria na Rua Direita, lá comprei um caderno de capa dura e um lápis. Naquela tarde, sentado no meio-fio, enquanto os primeiros ônibus elétricos passavam silenciosos como fantasmas de metal, comecei a escrever a minha história.
Nessa história eu falava da fome, do frio. Das noites em que dormia ao relento no contorno do Edifício Itália que subia em direção às nuvens. Percebi que, se não tinha um lugar no mapa de São Paulo, então eu criaria o meu próprio mapa no papel.

®Jorge Bessa Simões

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*"Menino invisível" (Crônica da Vida)

São Paulo em 1964 não corria; desfilava sob um céu que ainda se permitia ser azul entre os rolos de fumaça das fábricas da Mooca. No coração desse formigueiro de concreto, vivia eu, um menino de rua, para muitas pessoas que passavam por mim eu não tinha nome, por outro lado tinha o Viaduto do Chá, o que, para mim, um menino de oito anos, era possuir o mirante do mundo.
Naquele tempo, eu era um mestre da invisibilidade e da audácia, porque enquanto os engravatados de chapéu palheta e as senhoras de saia plissada apressavam o passo rumo a Loja Mappin, eu me movia como uma sombra entre os bondes camarão, para mim, o tilintar do bonde era a trilha sonora de minha sobrevivência.
Para mim, a cidade era dividida em cheiros e texturas, por exemplo, o Vale do Anhangabaú, lá tinha cheiro de engraxe, fumaça de cigarro Continental, e era ali que eu ganhava meus trocados, manejando a escova de sapatos com destreza que faria um maestro sentir inveja, isso quando os fiscais não me tiravam a caixa de engraxate e ameaçava chamar a polícia do juizado de menores.
A Praça da Sé, lá tinha o gosto da pipoca de saco de papel, um luxo raro que eu saboreava apenas quando o pipoqueiro, olhava para o lado e fingia não ver a minha mãozinha ágil "pegando" um punhado para mim comer.
Ah, tinha o Cine Art-Palácio! Eu não tinha ingresso, mas conhecia cada fresta da porta lateral, não conseguia ver o filme inteiro, apenas retalhos de luz e sombras que projetavam sonhos de heróis que eu, secretamente, pretendia ser um dia.
Certa noite, a famosa garoa paulistana decidiu virar uma chuva de verdade. O frio de junho cortava a minha pele como navalha de barbeiro, eu me encolhia sob o vão de um prédio na Rua Barão de Itapetininga, e observava as luzes dos ônibus e dos muitos Fuscas criando rastros luminosos no asfalto molhado.
Numa noite dessas, um homem parou à minha frente, não era um Guarda Civil, nem tampouco um beato daqueles que andavam pelas noites na busca de alguma criança que quisesse um abrigo, mas que no dia seguinte, quando essas crianças voltavam, contavam histórias horríveis do que havia acontecido lá.
Na verdade era um sujeito com um sobretudo pesado e olhos cansados, que sem dizer uma palavra, esse homem tirou um jornal do braço e estendeu para mim, deitado naquela fria calçada e disse; "Toma, garoto. Esse é o Estadão de hoje, esquenta mais que cobertor de pobre."
Aceitei com um aceno de cabeça, naquele momento, vi as notícias de política e as manchetes sobre a construção de um tal novo Masp, que para mim pouco importava.
O que importava era que a celulose daquele jornal retinha o calor do meu corpo miúdo contra o mármore gelado da calçada onde eu passaria a minha noite.
Ao amanhecer, quando o primeiro bonde dava o seu grito metálico nos trilhos, das ruas do centro de São Paulo, eu já estava de pé, limpava o meu rosto com a manga da camisa encardida e olhava para o horizonte de prédios que não paravam de crescer.
A São Paulo dos anos 60 era uma promessa de progresso que, para muitos, passava por cima, mas para mim, passava ao lado, eu não tinha casa, mas conhecia cada ruela.
Não tinha família ao meu lado, e nem poderia, pois a vergonha do que me havia acontecido quando violentaram a minha infância, me consumia, mas a cidade me adotara com a dureza de uma madrasta e a indiferença de uma estranha.
Eu era como um pingo de gente no oceano de asfalto que começava a cobrir as antigas ruas de paralelepípedos, sobrevivendo entre a elegância da elite e a poeira da construção civil.
E enquanto a cidade despertava para mais um dia de "São Paulo não pode parar", comecei a correr. Não fugia de nada; apenas corria para chegar primeiro ao futuro, antes que a próxima garoa me alcançasse, mesmo sendo só um menino invisível no meio da multidão.

®Jorge Bessa Simões

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*"Eu, menino de rua e Radar, meu cachorro" (Crônica da Vida)

A cidade grande tem um jeito engraçado de ser barulhenta e invisível ao mesmo tempo. E foi assim, entre os vãos dos prédios de uma Avenida chamada Paulista, onde os vidros refletiam gente que corriam para lá e para cá pra não perder o tempo, que vivi parte da minha infância depois de ter tido roubada a minha inocência.
E interessante que o centro da cidade parecia um organismo vivo que nunca dormia, mas que por outro lado ignora muita gente para conseguir continuar respirando. Foi no meio desse vai e vem de ternos apressados e saltos que estalavam no asfalto quente, que não só eu vivi, mas também foi onde encontrei um cachorro e que passei a chama-lo de Radar.
Não tinha mais que 9 ou 10 anos, embora meus olhos parecessem carregar o cansaço de quem já tinha mais tempo de vida. Eu era pequeno, ágil como um gato, vestia uma camisa quase sem botões que já estava bem desbotada, uma calça maltrapilha e muitas vezes não usava nenhum calçado ou chinelos.
E ao meu lado, sempre a um passo de distância, vinha Radar, um vira-lata com manchas preta, caramelo e branco, orelhas que pareciam duas antenas girando de um lado para o outro (daí o nome dele). Ele observava tudo, prestava atenção a todos a nossa volta, em especial quando muito cansado das nossas andanças, eu dormia numa calçada ou em algum banco de praça.
Muitas vezes descíamos até o Mercado Municipal, já que nas proximidades tinha uma padaria, na frente dela, eu não pedia dinheiro; pedia "um pedaço de atenção".
Depois ficava ali, sentado com as costas no poste, dividindo o olhar entre o movimento e o meu cachorro.
Afinal, Radar era o meu segurança e meu travesseiro. Quando meu estômago roncava, ele parecia sentir a mesma vibração e encostava a cabeça no meu colo. Quando alguém mais apressado quase pisava em nós, Radar soltava um rosnado baixo, mas não de agressividade, mas de aviso: “Aqui existe alguém”.
Para a maioria das pessoas, o centro da cidade era um conjunto de lojas e escritórios, mas para mim e o Radar, era um mapa de sobrevivência, perto de uma grande loja de departamentos da época, tinha um chafariz onde o banho era gelado, mas necessário.
E debaixo da marquise de um teatro quase no coração da cidade, ali era o melhor abrigo contra a chuva para nós, onde o som das gotas no zinco parecia música. Algumas ruas mais abaixo, tinha alguns restaurantes onde, a tarde depois das duas horas, com sorte alguém nos dava alguma sobra de comida, que era dividida entre nós dois.
Certa vez, encontrei uma bolinha de tênis perdida numa lixeira, naquele dia, a avenida de paralelepípedos do centro virou o nosso Pacaembu, eu jogava a bola, e o Radar, com uma agilidade de atleta, driblava as pernas dos pedestres para recuperá-la.
Por alguns minutos, as pessoas pararam de desviar o olhar da gente. Elas sorriram. Sem querer aquele menino de rua e o seu cão tiveram o poder milagroso de humanizar o concreto.
Quando chegava a noite, as luzes das vitrines se apagavam e o barulho da cidade diminuía, o mundo ficava maior e mais frio. Assim eu me enrolava em um cobertor de papelão, e o Radar se aninhava no vão das minhas pernas.
Ali, sob o brilho neon de algum letreiro de alguma loja, eu não era "o menino de rua". Eu era o dono do Radar, o protetor de um amigo fiel.
E o Radar, no seu sono leve de cachorro atento, não era um animal abandonado; ele era a âncora que impedia que eu flutuasse ou sumisse na imensidão da cidade.
Naqueles dias, nós não tínhamos teto, mas tínhamos um ao outro, e no fim das contas, no coração do caos urbano, a única coisa que realmente ocupava espaço, era aquela lealdade silenciosa que nenhum dinheiro de qualquer pessoa que passasse por ali poderia comprar.

®Jorge Bessa Simões

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