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Havia um silêncio estranho naquela casa que antes era cheia de vida. Não era o tipo de silêncio da paz, mas aquele que se instala depois de muitas palavras engolidas, de gestos interrompidos e de abraços que nunca aconteceram.
Minha mãe ainda deixava a janela aberta todas as tardes, como fazia quando eu era pequeno. Era quase um ritual, sempre no mesmo horário, com o mesmo olhar perdido na rua, como se, em algum momento, eu fosse surgir dobrando a esquina com o sorriso de antigamente. Mas o tempo tinha levado mais do que meus poucos anos. Levou também a minha coragem de voltar.
Quem via de fora costumava nos julgar.
— Deve ter acontecido algo grave…
— Mãe e filho não se falam? Que absurdo…
Porém ninguém conhecia a história inteira. Ninguém sabia que, muitas vezes, o afastamento não é abandono, é respeito. Aliás um respeito doloroso, daqueles que exige que a gente se cale mesmo querendo gritar o nome um do outro.
Quando criança, eu era inseparável da minha mãe. Até o dia em que a vida, sem aviso, rasgou nossa história ao meio. Por circunstâncias da vida, houve um momento em que me vi obrigado a fugir de casa por causa das surras que tomava do homem, que até então não entendia, seria meu pai de sangue e que à época era alcoólatra.
Acabei fugindo para casa da minha avó, que até então seria a mãe do pai que me deu seu nome, lá acabei sofrendo um atentado violento, daqueles que deixam marcas que não aparecem só no corpo, mas que deixam cicatrizes estampadas no íntimo.
Com isso, por vergonha e medo, depois de ter sobrevivido após ser jogado na linha do trem quase morto, acabei por me tornar um menino de rua, foi assim que acabei sendo arrancado de casa por um tempo longo demais.
Porém, foi o tempo suficiente para transformar aquele menino em alguém que já não se reconhecia mais no espelho.
Até o dia em que fui pego nas ruas pela polícia do juizado de menores e levado para um lugar onde tentavam descobrir quem eu era e quem seriam meus pais, em certo momento entra uma mulher acompanhando a assistente social na sala onde estava retido, quando a vi de imediato reconheci que era minha mãe, mas foi nesse instante que cometi a pior de todas as ingratidões que um filho poderia fazer.
Mesmo vendo-a diante de mim, a neguei por três vezes, dizendo que aquela mulher não era minha mãe, ainda que no fundo do meu coração quisesse abraçá-la, mas diante do que havia me acontecido sendo só um garoto de oito anos de idade, tive vergonha e medo.
E essa mescla de sentimentos, além das cicatrizes que carregaria para o resto da minha vida, me impelia a negá-la, me culpava e a culpava por tantas coisas em nossas vidas, não conseguia entender certas escolhas que foram feitas, mesmo antes que eu nascesse e que colaboraram para que nossas vidas fossem rasgadas ao meio.
Ainda vendo-a chorar diante das minhas negativas, algo que doía dentro de mim, ela comprovou que era minha mãe, e assim fui entregue a ela, no caminho até nossas casa, ela apenas chorava, e eu tremia de medo pois sabia que reencontraria o homem que me culpava por tantas coisas que eu não entendia, e que com certeza, as surras voltariam a acontecer, como aconteceram, voltei para lá, mas não voltei inteiro.
E pior do que isso, voltei carregando uma vergonha que nunca deveria ter sido minha.
No começo, minha mãe tentou de tudo. Abraços, conversas, silêncio, presença. Mas havia algo nos meus olhos que a impedia de chegar perto de mim, era um muro invisível, construído pela dor e culpa. Até que vieram os momentos que nós jamais esqueceríamos.
A primeira vez foi numa reunião de família. Perguntaram para mim quem era aquela senhora ao meu lado, e mesmo sabendo de quem se tratava, por vergonha e medo, hesitei, desviei meu olhar e disse que era apenas uma conhecida. Percebi que minha mãe sentiu como se o chão tivesse cedido.
A segunda vez aconteceu na rua. Um antigo colega de rua me cumprimentou e, ao notar a presença dela, fez a pergunta natural: — É sua mãe? Mais uma vez neguei com a cabeça, rápido demais. Como quem tenta apagar algo antes mesmo que exista.
A terceira vez foi a mais cruel. Não havia ninguém por perto. Era só ela e eu. E mesmo assim, quando ela tentou se aproximar, ouviu: — É melhor, a senhora não dizer que é minha mãe.
Eu só tinha oito anos de idade, não compreendia o quanto tudo aquilo nos machucava, porém não foram palavras ditas com raiva. Foram ditas com vergonha e medo. E aquilo partiu o coração dela mais uma vez. Porque, naquele instante, minha mãe entendeu algo que ninguém mais entenderia: o filho não a rejeitava por falta de amor…, mas por excesso de dor, ainda que ela só tenha sabido de tudo o que me acontecerá, muitos anos depois.
Foi assim que acabamos por nos afastar, porque após uma outra surra mais violenta, voltei a fugir de casa, e mesmo ela tentando me encontrar pelas ruas, quando eu a via, me escondia para não ser encontrado, em certo momento ela não me procurou mais, não por desistência, mas por respeito, como ela me comentaria anos depois.
Ela tomou tal atitude por respeito ao meu tempo, até para que eu pudesse assimilar minhas dores e minhas feridas. À decisão, embora fosse só uma criança, era só minha. Ainda que aquela decisão a destruísse por dentro, como me corroia também, um pouco a cada dia.
Mesmo sem saberem de todos os fatos, as pessoas nos julgavam, até porque é mais fácil apontar o dedo do que enxergar o que está escondido. Mas a verdade é que existem distâncias que não são feitas de falta de amor, são feitas de sobrevivência.
Assim passei da infância roubada para minha adolescência, me tornei adulto, construí minha vida, segui em frente da maneira como podia e com as lições que a vida me ensinava. Mas há coisas que o tempo não apaga, apenas esconde em camadas mais profundas.
Porque em algum lugar dentro de mim, sempre continuou existindo o menino que um dia chamou aquela mulher de mãe, sem vergonha, sem medo e sem dor. Sempre acreditei que um dia pudesse voltar, até porque entendia que nunca precisaria negar minha história para continuar vivendo.
No fundo do meu coração acreditava que, talvez, quando esse dia chegasse, a janela ainda estaria aberta, como um dia a encontrei, foi então que compreendi que o amor de mãe… esse nunca se afasta, ele apenas ensina a esperar.
Por isso digo sempre; "Quando você vê os pais afastados de um filho, não julguem... muitas vezes eles apenas estão respeitando uma decisão que partiu dele, afinal, o filho irá fazer a própria vida... mas esquecer seus pais que tanto se sacrificaram por ele, seria uma das maiores ingratidões que existe, em especial com a mãe que o carregou no ventre."
E depois, muitas vezes a gente desconhece todos os fatos de uma história que tem dois lados, e nem toda verdade é absoluta, que o que é para mim, nem sempre é o certo para o outro, por isso tenho aprendido a entender a verdade dos outros, e a respeitá-la tanto quanto espero que respeitem a minha.
Sendo assim, não tenho o direito de julgar, porém tenho total direito de mudar de opinião... uma... duas... três, quantas vezes quiser.
Porque a vida me ensinou que idealizar as coisas ou as pessoas é um erro, porque os meus defeitos fazem parte da minha personalidade, e uma pessoa sem defeitos não teria graça nenhuma. Assim estou aprendendo a me preocupar menos e a viver mais. Afinal, tudo tem um motivo, e todas as pessoas que passaram na minha vida me deixaram lições, uma delas é que nenhuma dor será para sempre, até porque enquanto estiver vivo tenho a possibilidade de recomeçar de novo!!
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