
Tinha o cheiro do engraxe, a fome de vento, e morava no vão do esquecimento.
São Paulo rugia, erguia o seu muro, e eu, pequeno, moldava o meu futuro.
Um tal de "Professor" sempre me dizia: "Escuta o chiado! O rádio é a voz do mundo guardado."
Aprendi a ler o silêncio e a desviar do guarda e dos atritos da vida.
Depois vi chegar a tal da Tropicália com sua guitarra, e o grito do rock, que mesmo no asfalto queimando era algo bendito.
Sou o menino de rua que correu com o caderno na mão, descrevendo o medo e a revolução.
Cresci com o Metrô, na terra vermelha, troquei o jornal por uma centelha.
Meu lápis virou lente, o meu olhar virou prova, e me tornei testemunha do retrato da angústia na cidade nova.
Sob a luz vermelha do laboratório, ajudei a revelar o avesso do auditório e vi a mordaça imposta por uma ditadura.
Onde havia o silêncio da bota e do aço, eu pus o foco no cansaço e no meu passo.
Logo não seria mais um pingo de gente, nem sombra, nem rastro.
Logo eu teria o olhar mais atento, seria o meu próprio maestro.
São Paulo não para, mas certa vez eu a detive, num clique eterno, em preto e branco, onde vi as palavras "Ame-o ou Deixe-o".
Assim foram os quatro tempos de um menino de rua que virou o olhar, e olhando, buscava um novo horizonte, e ainda que muita coisa me acontecesse, iria tentar chegar no meu objetivo na vida.
®Jorge Bessa Simões
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