
A coragem, as vezes aparece num gesto tão pequeno que quase passa despercebido, até que nos muda por dentro.
Lembro-me de um dia em que estava sentado no sofá, olhando para um ponto qualquer da sala, pensando nas muitas conversas difíceis que já tive na vida e o medo que tinha de falar.
Não era nada épico, porém me trouxe lembranças nada cinematográficas de um tempo em que várias vezes abafei a minha voz, isso me fez respirar fundo, e foi num desses instantes da vida que tive de decidir se avançava nas palavras ou se as voltava para o meu pensamento como sempre tentava fazer para evitar entrar em uma discussão.
Mas foi ai que percebi: a coragem não é o momento em que falo, é um segundo antes, é quando decidi não fugir da conversa.
Então entrei naquele dialogo, a voz tremia, o coração batia rápido demais, porém, naquele instante, disse tudo o que precisava de ser dito, não para ter razão ou ganhar a discussão, também não era para convencer, mas era para deixar de carregar aquilo sozinho.
Foi assim que descobri algo que ninguém tinha me explicado, a coragem que tive de falar revelou o que me doía, o que me importava, e revelou quem eu sou quando deixo de ser a versão que agrada e passo a ser a versão que enfrenta.
Ou seja, a coragem de falar quando preciso, não é sobre ter força, é sobre dizer a verdade, é sobre assumir que tenho medo, mas preciso avançar mesmo assim, é sobre não me esconder atrás de desculpas que já não me servem de mais nada, por fim, é sobre escolher o desconforto que me liberta em vez do conforto que me aprisiona.
Compreendi que o mais humano da coragem é isto, ela não me transforma num herói, mas me transforma em alguém honesto, e quando sou honesto comigo, o mundo deixa de ser tão assustador.
®Jorge Bessa Simões
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