
Naquele dia, sem que você soubesse, não foi apenas uma mulher que surgiu diante dos meus olhos. Foi a esperança voltando a bater à porta de um coração que já não acreditava em novos amanheceres. Antes de você, eu era um homem moldado pelas perdas.
A vida havia me ensinado, muitas vezes da forma mais cruel, que o amor também pode partir, que os sonhos podem se desfazer e que existem dores tão profundas que aprendemos a escondê-las até de nós mesmos. Meu sorriso existia, mas quase nunca revelava o que acontecia dentro de mim.
Eu caminhava, respirava, vivia, mas havia deixado de sonhar, então, numa tarde de outubro, você apareceu, acredito que isso tenha sido a providência de Deus nos dando o milagre do amor.
Lembro-me do seu rosto iluminado pela luz da janela, da delicadeza do seu sorriso e da serenidade do seu olhar. Naquele instante, sem dizer uma única palavra, você fez algo que ninguém havia conseguido: alcançou a parte mais ferida da minha alma.
Você nunca tentou apagar o meu passado, ou me pediu para esquecer minhas cicatrizes, ao contrário, as acolheu com a delicadeza de quem segura um coração quebrado, sem medo de se ferir, foi assim, quase sem perceber, que você devolveu cor aos meus dias.
Onde havia silêncio, você levou música, onde havia inverno, fez nascer primavera, onde existia medo, plantou confiança e onde havia um homem convencido de que jamais voltaria a ser feliz para amar, você reconstruiu meu coração.
Você me ensinou que o verdadeiro amor não é aquele que promete uma vida sem lágrimas, é aquele que enxuga cada lágrima, não é o que evita as tempestades, é o que permanece de mãos dadas quando elas chegam, não é o que elimina as cicatrizes, é o que as transforma em testemunhas de que sobrevivemos juntos, e assim, passaram-se quarenta e nove anos.
Quarenta e nove anos em que nos conhecemos, e quarenta e oito anos em que nos casamos, com esses anos todos vieram os risos, os desafios, os abraços, os recomeços, as esperanças, as vitórias e, sobretudo, nosso companheirismo.
Juntos vivemos dias de sol, enfrentamos noites difíceis, mas nunca deixamos de caminhar na mesma direção.
O tempo mudou nossos cabelos, desenhou marcas em nossos rostos, tornou nossos passos mais tranquilos, mas jamais conseguiu diminuir aquilo que eu sinto por você, e acredito, você por mim.
Se é verdade que a juventude encanta os olhos, também é verdade que somente o tempo revela a beleza de um amor que permaneceu fiel a cada promessa feita em silêncio.
Hoje, quando volto a me lembrar daquela janela de outubro, compreendo que ali nasceu muito mais do que uma história de amor, ali nasceu uma nova vida para mim e para você.
Pois você não foi apenas a mulher por quem me apaixonei, foi a mulher que acreditou em mim quando nem eu mesmo conseguia acreditar, você foi o abraço que me devolveu a paz, a luz que atravessou a escuridão, o porto onde encontrei descanso depois de tantos naufrágios que eu tive na vida, e continua sendo.
Depois de quarenta e nove anos, ainda encontro no seu olhar o mesmo brilho que transformou o meu caminho, ainda sinto meu coração acelerar quando seguro sua mão, ainda descubro em seu sorriso razões para agradecer ao Verdadeiro Deus por cada dia vivido ao seu lado.
Se me perguntassem qual foi a maior bênção que eu recebi nesta vida, eu não falaria de riquezas, conquistas ou vitórias, eu diria apenas que, numa janela de outubro, o Verdadeiro Deus colocou você no meu caminho.
E, naquele instante, aquele homem cansado de sofrer voltou a acreditar que o amor podia existir. Hoje sei que algumas pessoas passam por nossas vidas, outras deixam lembranças, mas existem aquelas raríssimas que se tornam parte da nossa própria alma, e você é essa pessoa.
Se eu pudesse viver mil vidas, escolheria você em cada uma delas, escolheria novamente aquela janela de outubro, escolheria outra vez o seu sorriso, escolheria reviver cada dificuldade, cada lágrima e cada alegria, porque todas elas me conduziram até este momento.
E, quando o tempo finalmente silenciar nossos passos, haverá uma verdade que nem os anos, nem a distância, nem a eternidade poderão apagar: "Você foi o maior presente que o Verdadeiro Deus escreveu na minha história."
E, enquanto existir um único batimento em meu peito, meu coração continuará repetindo, com a mesma emoção daquele primeiro encontro: "Eu ainda amo você. Mais do que ontem. Menos do que amarei amanhã."
®Jorge Bessa Simões
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