quinta-feira, 5 de março de 2026

"Um acordo de meio fio com o menino de rua" (Crônica da Vida)

Era inverno de 1966, a garoa de São Paulo parecia agulhas de gelo, nesse ano completava 10 anos de vida, e praticamente 2 anos vivendo nas ruas desta grande metrópole que se expandia para todas as direções, mas que estava sobrevivendo.
Agora já não estava mais só no Viaduto do Chá, até por causa do frio e também porque tinha uma companhia comigo, era um cachorro que vivia nas ruas e acabamos por nos encontrar.
Certa noite estava encolhido sob o vão de um casarão antigo na Barão de Itapetininga quando senti: um focinho úmido e quente contra meu pescoço. Era um vira-lata de pelo encardido e orelhas em pé, tão costela-e-osso quanto eu.
Não tinha nada para oferecer para ele, mas o cachorro não pedia pão, tudo que ele pedia era trégua. Naquela noite, pela primeira vez, o frio não venceu. O calor do cachorro, que batizei de "Radar", por causa das suas orelhas que ficavam virando de um lado para o outro, me serviu de cobertor vivo.
Acabou que o cachorro virou minha sombra, meu guarda-costas de dentes à mostra contra quem tentasse mexer comigo enquanto eu dormia.
Porém minha sorte mudou numa noite de terça-feira, em frente ao antigo Cine Art-Palácio. Eu tentava engraxar os sapatos de um sujeito apressado que me empurrou com força, eu cai, o Radar latiu furioso, avançando na canela do agressor.
O homem levantou a mão para espancar o cachorro, mas uma voz de trovão, com cheiro de perfume barato interrompeu o gesto, ela disse; "Se encostar a mão no cachorro ou no guri, eu abro um mapa na sua cara, seu covarde!"
Era uma mulher alta, cabelos claros, olhos azuis, nunca me disse seu nome, mas soube que todo mundo a conhecia como Gaúcha. Ela usava um casaco de pele sintética que brilhava sob os postes de luz e tinha o olhar de quem já tinha visto o inferno de perto e resolvido morar lá. A Gaúcha não era uma santa de altar; era uma mulher da noite, calejada pela Boca do Lixo, mas que guardava no peito um resto de infância que a rua não tinha conseguido matar.
Em nenhum momento ela perguntou o meu nome. Apenas me pegou pelo braço, fez um sinal para o cachorro e caminhamos até sua pensão. Lá, o meu mundo mudou de cor.
Ela me fez tomar um banho, aliás o primeiro em meses, com água morna, a Gaúcha mandou eu tirar a roupa, fiquei envergonhado com a presença dela, mas mesmo assim, ela me ajudou a tomar banho tirando as crostas de poeira e medo da minha pele.
Depois daquele banho gostoso, me deu um prato de canja de galinha que fumegava, e que foi dividido com o Radar em um canto da cozinha.
Enquanto nós comíamos, ela nos contou um pouco da sua história e de como viera parar em São Paulo, naquele momento, compreendi que a Gaúcha não queria um "filho", ela queria um sobrevivente, e esse era eu.
Assim a Gaúcha se tornaria minha mentora improvável. Ela usava o pouco que sobrava dos seus ganhos e da sua influência com os "coronéis" da região para conseguir para mim algo que valia mais que ouro nos anos 60.
Foi assim que tempos depois, quando eu já tinha 12 anos, ela me conseguiu um lugar de aprendiz de office-boy em um estúdio de filmes de chanchadas na Boca do Lixo.
"Escuta aqui, guri," ela disse, enquanto ajeitava a gola da camisa nova que tinha comprado para mim. "A rua te deu os dentes, mas o trabalho vai te dar as mãos. Não olhe pra trás e cuida desse cachorro. Se eu te vir pedindo esmola de novo, eu mesma te dou uma surra."
E lá fui eu, levando o Radar, que agora dormia sobre um tapete de estopa entre latas de filmes e monte de cartazes de cinema.
A Gaúcha continuou na noite, desaparecendo entre as luzes de neon e o fumo dos cigarros, mas eu nunca me esqueci que a minha vida foi costurada pelas mãos de uma mulher que a sociedade chamava de "perdida", porém foi a única pessoa naqueles dias cruéis que me encontrou, me ensinou muitas coisas e me mostrou um caminho que poderia fazer a diferença na minha vida.
Eu, a Gaúcha e o Radar ainda nos veríamos muitas outras vezes, por um tempo ainda ia dormir no quarto de pensão onde ela morava, isso quando não acabava dormindo no corredor por causa dos clientes que ela recebia, mas enfim isso é uma outra história.
E foi desta maneira que fiz um acordo de meio fio, com a vida e a mulher que me estenderá a mão, não para me bater, me cobrar ou me julgar, mas que ajudou a me salvar.

®Jorge Bessa Simões

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