terça-feira, 3 de março de 2026

"Fui um menino de rua" (Crônica da Vida)

Porém não fui eu que pedi isso, mas fui levado a fazer tal escolha por vergonha do que me acontecerá quando me roubaram a infância de forma brutal, e eu só tinha oito anos de vida.
Tente imaginar um menino tendo que fazer a pior escolha da sua vida, depois de ter sido deixado quase morto na linha de trem, por causa do que me fizeram.
Naquele tempo, muitos do que se aproximavam de mim, me perguntavam; "Porque você vive nas ruas? Você gosta de ser um menino de rua?." Porém ninguém me perguntava, "porque eu perdi os sonhos dourados de criança que a vida um dia me prometeu."
Assim me tornei um menino que vivia nas ruas de uma grande metrópole, morava e dormia um dia aqui, outro dia ali, e noites acolá. E nunca ninguém me perguntava onde estariam meus pais?. Aliás, o medo de que soubessem o que me acontecerá, e por causa das cicatrizes que carregava no meu corpo miúdo, me levava a responder que não os tinha.
Mas um dia alguém me acolheu e me ajudou a frequentar uma escola, algo que não duraria muito, por causa de muitas coisas que até hoje me doem ao lembrar.
Sempre fui sabido, aprendia rápido as coisas, talvez por isso não me esqueço de que a rua foi uma escola para mim e me ensinou muito do que sei, até a ter desgosto, porque na rua era, cada um por si, tive que aprender a brigar e me defender, vi muita violências, passei fome e humilhação para comer, mas eu sobrevivi.
Na rua a luta por um pedaço de pão ou um pouquinho de comida, era na base da "lei do cão", na rua era um ambiente de constante tristeza e amargura, se eu desse um vacilo, não tinha perdão!
Uma vez um ajudante de cozinha num dos lugares que eu ia atrás de comida, me perguntou; "Você gosta de morar na rua?."
Eu apenas balançava a cabeça dizendo "Não!", porém o medo e a vergonha não me davam opção, pois das poucas vezes que tentei voltar para a família, eu era tratado como alguém diferente de todos, para piorar me faziam sentir culpado por tudo que me aconteceu na vida.
Resultado, tive que voltar e aprender a morar, me acostumar que o meu lar era a rua, que debaixo das pontes tinha mais proteção, ledo engano, quantas vezes tinha que fugir da polícia do juizado de menores, isso quando por várias vezes tinha que me esconder dos meninos maiores e até dos adultos da rua que eram verdadeiros crápulas ou monstros em forma de gente. E assim eu vivia de lá, pra cá, sem ter paradas até para dormir.
Tem pessoas que até hoje me perguntam, porque que sou tão desconfiado, ou porque estou sempre olhando para todos os lados?. Alguns pensam, que já fui ladrão, por ter sido menino de rua, mas nunca roubei. Sei que é difícil acreditar, mas nunca fiz isso, quando tinha fome, eu pedia comida pra comer. Porém muitas vezes dormi de barriga vazia.
Tive alguns vícios, isso eu sei! E aprendi a tê-los por estar naquela vida, mas, não era a vida que queria, se pudesse escolher. Me tornei um menino de rua, porém se alguém por piedade, viesse me socorrer ou acreditasse em mim, talvez eu não correria o risco de ver chegar o meu fim, se não me fizesse acreditar que eu era o culpado de tudo, iria agradecer, porque eu queria vencer!.
Não queria me tornar um homem de rua, tampouco não queria perder todas as esperanças que ainda me restavam, já me bastava ter perdido aquela inocência que têm todas as crianças tinham.
Sim!. Fui um menino de rua, melhor, acreditem, me fizeram ser, não fui eu quem pediu!

®Jorge Bessa Simões

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