
E assim começava a minha história, eu era um menino risonho, desse que corria descalços pela casa e transformava qualquer canto em mundo. Minha mãe, incansável, fazia do pouco muito.
O meu pai, calado e quase sempre entregue a bebida, ainda assim carregava o peso de garantir o amanhã. Havia amor, imperfeito é verdade, como todo amor humano é, mas ele existia em alguns momentos.
Até que veio o dia que ninguém deveria viver, meu pai alcoolizado não só pela bebida, mas por um fúria incontrolável, me deu uma violenta surra, onde por pouco não me tirou a vida, por acreditar que eu era o culpado por tudo o que de ruim acontecia em casa e por acreditar que eu não era seu filho.
Com isso fugi de casa, busquei refúgio na casa daquela que seria minha avó, por parte do pai que me deu seu sobrenome, porém, um acontecimento brutal, desses que não cabem em palavras simples, atravessou a minha infância e partiu algo dentro de mim, na verdade, dilacerou a minha ingenuidade de criança.
Não foi apenas uma dor física o que senti, foi vergonha, tive medo, me senti confuso, aliás foram sentimentos que não pertencem a uma criança, mas que, ainda assim, passaram a morar no meu íntimo desde que roubaram a minha inocência.
Quando reencontrei minha mãe, depois de um tempo morando nas ruas, ela tentou segurar meus pedaços. Tentou me proteger, me acolher, me reconstruir. Mas há feridas que, quando abertas cedo demais, ensinam o coração a se esconder.
E de novo veio uma outra surra por causa da bebida alheia que me levou a fugir de casa mais uma vez, eu ainda era uma criança mas já tinha em mim um coração marcado pelo sofrimento, e foi assim que fui crescendo em meio as violências do mundo a minha volta.
Creio que cresci rápido demais, como quem queria deixar para trás tudo aquilo que não conseguia entender. Assim, fui aproveitando as oportunidades boas que surgiam e fui fazendo minha própria vida, construí rotinas, busquei me cercar de pessoas que não conheciam a minha história.
E, pouco a pouco, fui tentando apagar tudo o que me doía, ledo engano, achar que conseguiria apagar tudo o que me havia acontecido... até que, um dia, alguém perguntou sobre minha família, ou melhor, pela minha mãe, e eu a neguei.
Neguei uma vez, com hesitação. Na segunda, já havia menos tremor na minha voz, e na terceira vez, minha negativa saiu quase que natural. Foi como se aquela mulher que havia me trazido ao mundo fosse apenas um detalhe dispensável da minha biografia.
Mas não era esquecimento ou ingratidão. Era vergonha. Não da minha mãe, nunca dela, mas do que havia me acontecido. Do que diziam (ou que eu acreditava que diziam) sobre mim. E, na tentativa de fugir daquela dor, acabei fugindo de quem eu mais amava.
Muitos anos depois minha mãe soube da verdade. Porém como ela mesmo me diria, ela sempre soube que algo terrível tinha rasgado nossas vidas ao meio, mesmo quando ninguém havia lhe contado.
E, foi naquele momento, que tivemos de fazer uma escolha silenciosa: insistir ou respeitar. Gritar nossa dor ao mundo ou engoli-la para não nos afastar ainda mais.
Minha mãe escolheu o silêncio em respeito a tudo o que havia me acontecido, ela nunca contou nada a praticamente ninguém, até porque não importava mais, somente a nós dois.
Me recordo que, quando alguém perguntava para ela; "por que seu filho não aparece?." Ela apenas sorria e mudava de assunto. Algumas pessoas a nossa volta chegavam a dizer que era ingratidão da minha parte, mas novamente ela não respondia. Quando me julgavam, ela suportava. Porque, às vezes, amar também é aceitar o afastamento que eu havia escolhido para viver.
Talvez alguns digam que; "Sim, há filhos que esquecem. Há filhos que seguem a vida como se o passado fosse descartável. E isso dói de um jeito que não se explica. Já que para muitos isso pode, sim, ser uma das maiores ingratidões."
Entretanto nem toda ausência é desprezo. Às vezes, é ferida. Às vezes, é vergonha. E às vezes, é um coração que ainda não conseguiu fazer as pazes com a própria história.
Por isso, quando alguém vir pais afastados de um filho, não julgue tão rápido. Nem sempre o que parece abandono é falta de amor. Às vezes, é amor em silêncio, daquele tipo que continua existindo, mesmo quando o outro decide se manter afastado.
®Jorge Bessa Simões
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