quarta-feira, 4 de março de 2026

"O menino invisível no Viaduto do Chá" (Crônica de Vida)

Era 1964, São Paulo, a cidade não tinha o mar de prédios que sufoca o horizonte hoje em dia, mas já possuía a frieza de quem não tem tempo para olhar para baixo.
Em especial para os pequenos meninos de rua, como eu, de apenas oito anos de idade, a capital paulista não era a "locomotiva do Brasil", na verdade aos meus olhos assustados, era como um bicho de concreto que rangia dentes de ferro e cuspia fumaça cinza.
Naquele tempo a ditadura se desenhava nos jornais que os senhores de terno liam apressados, enquanto isso a minha guerra era outra, a minha infância não foi só perdida ou roubada; ela foi confiscada, com isso confiscaram até minha inocência.
No lugar de cadernos, tive que aprender a carregar uma caixa de engraxate que pesava mais que meu próprio corpo. No lugar do afeto ou do carinho, aprendi a ler os humores do céu e a agressividade dos sapatos.
Para mim, sobreviver no centro de São Paulo nos anos 60 exigia uma logística cruel que nenhuma criança deveria conhecer, por exemplo; o frio. O inverno daquela década era impiedoso.
Eu dormia sobre folhas de jornal "O Estado de S. Paulo", não pelas notícias, mas porque o papel era a única barreira entre meus ossos e o cimento gelado do Viaduto do Chá. O segredo era o "abraço de bicho", encolher-se até que o queixo tocasse os joelhos, tentando conservar o calor que a barriga vazia insistia em dissipar.
Depois tinha a fome, e como menino de rua, para mim ela tinha um som, que era o barulho das portas dos restaurantes se fechando no final da noite. Aprendi a ter uma amizade estratégica com os fundos das padarias na Rua Direita, esperando pelo pão "amanhecido" que, às vezes, vinha acompanhado de um chute de algum funcionário de mau humor.
Mas pior que essas duas situações, tinha a violência. Na rua era um território de sombras, havia o medo da "polícia do juizado" que se pegassem um de nós, nos recolhiam como se fossemos lixo, era pior que cachorro sendo laçado pela carrocinha, para piorar as coisas, ainda tinha o medo de homens cujos olhos brilhavam de um jeito errado na escuridão dos becos ou quando vinha se esconder debaixo do viaduto. Tive que aprender a ser como fumaça, estar em todo lugar, mas não ser notado por ninguém.
Certa noite, sob a garoa fina que era a marca registrada da cidade naquela ocasião, encontrei um carrinho de rolimã quebrado perto da Praça da Sé. Por alguns minutos, me esqueci que meus pés estavam rachados pelo sereno.
Me sentei no pedaço de madeira e, no silêncio da madrugada, imaginei que cruzava a cidade em velocidade da luz, longe do cheiro do cano de descarga e do frio que cortava como navalha.
Aquele pedaço de madeira era o último vestígio do menino que eu deveria ser. No dia seguinte, troquei o carrinho por um pedaço de charque com um vendedor de rua que queria aproveitar as rolimãs.
Assim a sobrevivência sempre vencia a ludicidade, e desta maneira sobrevivi aos anos 60, não virei estatística, embora a cidade tenha tentado me devorar em cada esquina. Cresci com as marcas da rua, não apenas as cicatrizes físicas, mas aquele olhar vigilante de quem sabe que o mundo não é, e nunca seria um lugar seguro.
E foi dessa maneira que a minha infância ficou depositada em algum bueiro da Avenida São João, perdida entre o barulho dos bondes e o grito dos jornais.
Hoje, quando caminho pelo centro de São Paulo, já como homem feito e de sapatos limpos, ainda sinto um arrepio quando a garoa cai. Não é frio, nem é o medo, são as memórias de um tempo em que eu era um menino invisível no Viaduto do Chá, lutando contra os monstros noturnos, contra os pesadelos do que me acontecerá, e contra gigantes de concreto para simplesmente ver o amanhecer.

®Jorge Bessa Simões

®Velhas Memórias Poéticas. Copyright © 2013-2026
®Direitos Autorais Reservados. Lei 9.610/98

*Imagem Gerada por IA.
©Todos os direitos reservados/2026
 

Nenhum comentário:

Postar um comentário