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O Viaduto do Chá já não tinha mais o mesmo silêncio das madrugadas de 1964. E eu já não era mais um menino de rua, todos me chamavam por meu nome, nas mãos tinha as marcas geradas pelas latas de filmes que carregava entranhada nos poros.
Mas no "crachá do jornal" onde fui trabalhar em 1970 como assistente de laboratório fotográfico tinha o meu nome, "Jorge - Office-boy", mais que isso, ele tinha o retrato de quem venceu a vida no dente da engrenagem.
A duras penas e muito trabalho diuturno consegui comprar a prestação um carro usado do qual sempre tinha sonhado, agora eu era dono de um Simca Chambord 1967 que foi reformado por mim mesmo nos meus dias de folga.
No banco do carona, o lugar que seria do Radar estava vazio; meu velho companheiro de orelhas em pé havia partido anos antes, enterrado sob uma laranjeira no quintal da primeira casa que o ex-menino de rua conseguiu alugar lá na Mooca
Senti um aperto no peito quando sai para dar minhas primeiras voltas nas ruas do bairro, foi então que resolvi dirigir até o centro de São Paulo, algo me puxava para ir até a Boca do Lixo, não!. Não iria atrás das prostitutas como alguns faziam aos finais de semana ou quando recebiam seus pagamentos, minhas intenções eram outras, e tinha um motivo muito especial.
Assim estacionei perto da Rua General Osório, o cenário já era outro diferente dos meus tempos de menino de rua, mas as sombras ainda eram as mesmas.
Olhando a minha volta, vi uma mulher sentada em um banco de praça, observando o movimento com uma elegância que o tempo tentava, em vão, desgastar. O casaco de pele sintética fora substituído por um xale de lã batida, e o batom vermelho, antes berrante, agora era um traço fino e cansado. Era a Gaúcha.
Me aproximei devagar, o cheiro de jasmim barato e do cigarro que ela fumava, me atingiu como um soco de nostalgia. Parei a poucos metros dela e disse, com a voz embargada:- "Um dia me disseram que se eu voltasse a pedir esmola, a senhora mesma me daria uma surra." Se lembra disso, Senhora?
A Gaúcha levantou os olhos. Levou alguns segundos para processar o rapaz de ombros largos, camisa de botão e chaves de carro na mão. Mas quando ela viu o brilho nos olhos daquele "guri" que ela havia dado um banho com água morna há alguns anos atrás, um sorriso enviesado surgiu em seu rosto.
E segurando com uma das mãos o meu rosto, olhou nos meus olhos, murmurou:- "Olha só... não é que o guri cresceu," a voz estava mais rouca do que me lembrava, e completou me dizendo:-"E parece que aprendeu a usar as mãos, como eu mandei."
Não nos abraçamos de imediato; a rua ensina a manter uma certa distância de respeito. Depois de algum tempo sentei-me ao lado dela que abriu a mão, revelando uma pequena caixinha de veludo. Dentro, não havia joias, mas as chaves de uma pequena casa que eu havia alugado meses antes, na zona leste, e as do meu carro.
Então disse a ela:- "Gaúcha, meu trabalho está tá indo bem. Agora tenho um lugar para morar, não é de luxo, mas pelo menos tem um chuveiro quente e ninguém vai me mandar sair da calçada, e eu vim te buscar para você conhecer e dar uma volta no meu carro."
Ela olhou para as chaves e depois para as minhas mãos ainda marcadas por ter carregado tantas latas de filmes. Uma lágrima teimosa borrou o rímel pesado que ela usava, e me respondeu:- "Eu não aceito caridade, guri. Você sabe disso."
Calmamente respondi a ela:- "Não é caridade," minha resposta foi firme, e continuei dizendo:- "Na verdade vim te convidar porque o meu aluguel com você está atrasado, lembra daquela canja de galinha de 1966? Então o juro tá alto."
A Gaúcha soltou uma gargalhada que ecoou pela rua e todos a nossa volta nos olharam, sem entender nada, aquela era a mesma risada que um dia espantou os meus agressores sob a garoa.
Ela pegou as chaves, fechou a minha mão com a sua e, pela primeira vez, deixou-se ser levada para outro lugar, que não fosse a Boca do Lixo, e por alguém que ela mesma salvou do abismo.
Com essa atitude, o menino de rua que eu tinha sido um dia, finalmente encerrava aquela história, ciclo da rua, finalmente, o meu ciclo da rua havia se fechado.
®Jorge Bessa Simões
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