quinta-feira, 2 de julho de 2026

"Aquela janela de outubro" (Poema)

Há pessoas que passam por nossas vidas como o vento, outras chegam como a chuva, molham a alma e partem.
Mas existe aquela que o Verdadeiro Deus, ou o próprio amor escolhe para permanecer, aquela que transforma uma existência inteira sem precisar de grandes palavras. Basta um olhar.
Foi assim que você me apareceu numa janela de outubro, naquele instante, o tempo pareceu prender a respiração, como se soubesse que eu, cansado da vida, estava prestes a reencontrar o sentido de continuar.
Eu já conhecia a dor pelo nome, trazia nos meus ombros o peso de tantas perdas, de tantos adeuses, de sonhos que a vida insistira em desfazer. O meu coração parecia um mapa de cicatrizes, tão marcado pelas minhas batalhas que ninguém via, mas que eu enfrentava em silêncio, desde o meu tempo de criança.
Tive que aprender a sorrir escondendo minhas lágrimas, aprender a caminhar sozinho, aprender a acreditar que algumas pessoas como eu, nasceram apenas para sobreviver.
Então quando eu já estava me sentindo cansado de tantas desilusões, decepções e perdas que me faziam não acreditar mais nem no amor, já que o meu coração estava despedaçado desde um certo abril, você surgiu.
Linda, mas não apenas pela beleza que encantava os meus olhos, mas porque eu percebi que você carregava uma luz, porque havia ternura em sua voz, paz em seu sorriso, e o mais importante, você transmitia um sentimento forte de um amor tão verdadeiro que era capaz de alcançar os lugares mais feridos do meu coração.
Você não me perguntou quantas vezes eu havia sofrido, não contou as minhas cicatrizes, e tampouco tentou mudar meu passado, você apenas apareceu na minha vida através de uma janela, e ficou, e, ficando, mudou tudo.
Com uma delicadeza de quem segura um cristal partido, você recolheu cada pedaço da minha alma e, sem perceber, foi me devolvendo a vontade de sonhar, e mais que isso, me devolveu um sentimento que eu não acreditava mais que poderia ter, me devolveu a vontade de amar.
Você fez renascer flores onde eu só enxergava inverno, fez o amanhecer voltar aos meus dias, fez do silêncio um lugar de paz, me ensinou novamente que, amar não era esquecer as dores, mas encontrar alguém disposto a carregá-las ao nosso lado.
Desde então, os anos deixaram de ser apenas tempo, transformaram-se em memórias, em risos compartilhados, em mãos dadas diante das dificuldades, em abraços que venceram muitas tempestades, e em olhares que nunca precisaram de palavras para dizer "estou aqui".
E agora aqui estamos nós, quarenta e nove anos de primaveras, verões, outonos e invernos vividos lado a lado, e, ainda hoje, quando outubro chega, eu olho para você com o mesmo encantamento daquele primeiro instante.
Talvez até maior, porque a juventude encanta os olhos, mas é o amor vivido que eterniza a beleza.
Hoje, seus cabelos, assim como os meus, contam histórias que o tempo escreveu, as mãos revelam nossos anos compartilhados, e os olhos... ah, os olhos..., continuam sendo a janela onde eu encontro o mesmo brilho que um dia salvou a minha vida.
Se alguém me perguntasse qual foi o maior milagre que eu já presenciei, eu não falaria de riquezas, conquistas ou sorte, eu diria apenas que, um dia, uma linda mulher apareceu numa janela de outubro, e, sem saber, devolveu a vida a este homem que acreditava já não existir mais esperança no amor.
No entanto, você não apenas me ensinou a amar, como me mostrou que o amor verdadeiro não cura porque apaga as feridas, cura porque faz delas parte de uma história que vale a pena ser lembrada.
Hoje, depois de quarenta e nove anos, eu ainda agradeço em silêncio por aquele instante, em que te vi naquela janela, porque existem encontros que mudam um dia, mas existem encontros que mudam uma vida.
E existe aquele raro encontro que transforma duas almas em uma só, fazendo do amor um lar, da cumplicidade uma fortaleza e da eternidade uma promessa cumprida a cada amanhecer.
Para mim, mesmo depois de tantos anos, você continua sendo àquela mesma mulher da janela de outubro, e eu continuo sendo o mesmo homem que, todos os dias, se apaixona outra vez pela mesma mulher.
Porque o verdadeiro amor não envelhece, ele amadurece, se aprofunda, e torna-se mais bonito com o tempo, e, enquanto houver um novo outubro para chegar, haverá também um coração agradecido por ter te encontrado, naquela janela, não apenas a mulher da minha vida, mas a minha própria razão de viver.

®Jorge Bessa Simões

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*Imagem Gerada por IA Baseada em Arquivo Pessoal
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