terça-feira, 18 de novembro de 2025

*"Cuidador de um idoso" (Crônica da Vida)

Em toda minha vida jamais imaginei que um dia seria cuidador de um idoso, aliás, nunca havia pensado nisso. Muito embora já tenha cuidado de alguns idosos nos últimos anos.
Cada um deles me deixaram lições que nunca mais esqueci, até passar por uma experiência, cuidando de um idoso que fez e faz parte da minha história recente.
Por alguns anos trabalhamos juntos na estrada, ele também fez parte do meu crescimento espiritual, e depois que voltei para a cidade onde ele mora, passei a acompanhá-lo ao saber que por causa da sua idade, enfrentava problemas de saúde, e foi assim que vim ser seu cuidador.
Até que dias desses, num domingo, após preparar seu almoço o chamei para sentar-se à mesa e fazer sua oração, mas após isso, ele desabou por um motivo que eu nunca esperava.
E pensar que como cuidador de idoso, muitas vezes temos que nos acostumar a um certo ritmo, que não é mais o nosso, e dele. Ainda mais por acompanhá-lo dia e noite.
Nos casos das refeições, são momentos que vêm e vão, acontecem muitas conversas que ajudam a passar os dias, até antes de colocá-lo para ir dormir, e assim nossos dias vão se misturando um ao outro, já por algum tempo, e há momentos que ficam comigo.
Foi assim dia desses quando aconteceu um momento que nunca vou me esquecer, estava cumprindo com minha rotina habitual, o havia acordado bem cedo, lhe servido o café e logo fui preparar seu almoço.
Nesse dia, esse idoso que cuido, estava sentado sozinho perto da porta da sala para se aquecer no sol da manhã, ele pareceu-me estar ainda mais cansado do que o normal, talvez pelo peso da idade que avança, mas enfim, não pensei muito sobre isso.
Mas assim que seu almoço ficou pronto o chamei para almoçar, lentamente agarrado ao seu andador ele se achegou a mesa e após sentar-se na cadeira, desejei-lhe uma boa refeição, como sempre faço.
Porém, de repente, ele simplesmente congelou, olhando para a comida, seu rosto desabou e ele começou a chorar.
No começo, entrei em pânico, pensando que havia algo errado com a refeição ou que tivesse feito algo que o magoasse, perguntei a ele se estava bem, levou um minuto, que pareceu uma eternidade, até ele conseguir recuperar o fôlego.
Então ele balançou a cabeça, e conseguiu esboçar um pequeno sorriso através das suas lágrimas e me disse: "Não, não é a comida. É só que, você me fez lembrar da minha esposa. Ela costumava me trazer minha refeição favorita todo domingo, mesmo quando estava cansada. E faz anos que ninguém cuida de mim assim. Que o Verdadeiro Deus te abençoe muito, e obrigado por tudo que você me tem feito nesses últimos dias"
Essa minha experiência, não é sobre o prato preferido, é sobre sermos lembrados quando formos idosos.

®Jorge Bessa Simões

®Velhas Memórias Poéticas. Copyright © 2013-2025
®Direitos Autorais Reservados. Lei 9.610/98

*Foto Arquivo Google Imagens.
©Todos os direitos reservados/2025
 

Nenhum comentário:

Postar um comentário