sábado, 28 de fevereiro de 2026

"Menino invisível" (Crônica da Vida)

São Paulo em 1964 não corria; desfilava sob um céu que ainda se permitia ser azul entre os rolos de fumaça das fábricas da Mooca. No coração desse formigueiro de concreto, vivia eu, um menino de rua, para muitas pessoas que passavam por mim eu não tinha nome, por outro lado tinha o Viaduto do Chá, o que, para mim, um menino de oito anos, era possuir o mirante do mundo.
Naquele tempo, eu era um mestre da invisibilidade e da audácia, porque enquanto os engravatados de chapéu palheta e as senhoras de saia plissada apressavam o passo rumo a Loja Mappin, eu me movia como uma sombra entre os bondes camarão, para mim, o tilintar do bonde era a trilha sonora de minha sobrevivência.
Para mim, a cidade era dividida em cheiros e texturas, por exemplo, o Vale do Anhangabaú, lá tinha cheiro de engraxe, fumaça de cigarro Continental, e era ali que eu ganhava meus trocados, manejando a escova de sapatos com destreza que faria um maestro sentir inveja, isso quando os fiscais não me tiravam a caixa de engraxate e ameaçava chamar a polícia do juizado de menores.
A Praça da Sé, lá tinha o gosto da pipoca de saco de papel, um luxo raro que eu saboreava apenas quando o pipoqueiro, olhava para o lado e fingia não ver a minha mãozinha ágil "pegando" um punhado para mim comer.
Ah, tinha o Cine Art-Palácio! Eu não tinha ingresso, mas conhecia cada fresta da porta lateral, não conseguia ver o filme inteiro, apenas retalhos de luz e sombras que projetavam sonhos de heróis que eu, secretamente, pretendia ser um dia.
Certa noite, a famosa garoa paulistana decidiu virar uma chuva de verdade. O frio de junho cortava a minha pele como navalha de barbeiro, eu me encolhia sob o vão de um prédio na Rua Barão de Itapetininga, e observava as luzes dos ônibus e dos muitos Fuscas criando rastros luminosos no asfalto molhado.
Numa noite dessas, um homem parou à minha frente, não era um Guarda Civil, nem tampouco um beato daqueles que andavam pelas noites na busca de alguma criança que quisesse um abrigo, mas que no dia seguinte, quando essas crianças voltavam, contavam histórias horríveis do que havia acontecido lá.
Na verdade era um sujeito com um sobretudo pesado e olhos cansados, que sem dizer uma palavra, esse homem tirou um jornal do braço e estendeu para mim, deitado naquela fria calçada e disse; "Toma, garoto. Esse é o Estadão de hoje, esquenta mais que cobertor de pobre."
Aceitei com um aceno de cabeça, naquele momento, vi as notícias de política e as manchetes sobre a construção de um tal novo Masp, que para mim pouco importava.
O que importava era que a celulose daquele jornal retinha o calor do meu corpo miúdo contra o mármore gelado da calçada onde eu passaria a minha noite.
Ao amanhecer, quando o primeiro bonde dava o seu grito metálico nos trilhos, das ruas do centro de São Paulo, eu já estava de pé, limpava o meu rosto com a manga da camisa encardida e olhava para o horizonte de prédios que não paravam de crescer.
A São Paulo dos anos 60 era uma promessa de progresso que, para muitos, passava por cima, mas para mim, passava ao lado, eu não tinha casa, mas conhecia cada ruela.
Não tinha família ao meu lado, e nem poderia, pois a vergonha do que me havia acontecido quando violentaram a minha infância, me consumia, mas a cidade me adotara com a dureza de uma madrasta e a indiferença de uma estranha.
Eu era como um pingo de gente no oceano de asfalto que começava a cobrir as antigas ruas de paralelepípedos, sobrevivendo entre a elegância da elite e a poeira da construção civil.
E enquanto a cidade despertava para mais um dia de "São Paulo não pode parar", comecei a correr. Não fugia de nada; apenas corria para chegar primeiro ao futuro, antes que a próxima garoa me alcançasse, mesmo sendo só um menino invisível no meio da multidão.

®Jorge Bessa Simões

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