sábado, 28 de fevereiro de 2026

"O menino que não correu para o futuro" (Crônica da Vida)

Naquela fria manhã para que a próxima garoa não me pegasse não corri para o futuro, corri para o Viaduto Santa Ifigênia. Lá eu tinha um encontro marcado com o "Professor", um homem que morava dentro de um sobretudo que parecia ter sido costurado com retalhos de três décadas diferentes.
O "Professor" não me ensinava aritmética, mas conhecia a geometria das ruas como ninguém, e foi com ele que aprendi a conhecer cada ruela e beco de São Paulo.
Ele ficava ali, encostado na grade de ferro, observando o fluxo de gente que descia para a região da rua Vitória e da Santa Ifigênia, onde o comércio de rádios e válvulas fervilhava.
Naquele dia, o "Professor" segurava uma relíquia: um rádio de pilha Transglobo, cujo couro estava descascando, mas que ainda emitia chiados cheios de autoridade, a voz de um locutor de rádio, empolada e grave, anunciava as notícias do mundo.
Meus olhos, viam naquele aparelho uma caixa mágica capaz de trazer Londres ou Paris para o centro de São Paulo.
Aquele rádio só não conseguia diminuir o barulho das picaretas de uma obra próxima ao viaduto, aquele parecia ser o eterno som da cidade que se reconstruía sobre si mesma.
Num certo momento o "Professor" disse; "Escuta menino," encostando o rádio no meu ouvido, "Esse chiado entre as estações? É o som do universo conversando. A gente só não aprendeu o dial certo ainda."
"A cidade é um rádio gigante, menino. Tem gente que é música clássica, tem gente que é só estática. O segredo é não deixar ninguém desligar o seu volume."
Enquanto a gente conversava, uma mulher de porte altivo, vestindo um Taieur azul-marinho e um colar de pérolas que refletia a luz pálida da manhã, parou diante de nós. Ela não parecia sentir nojo, apenas uma certa curiosidade, típica de quem lia as crônicas de Nelson Rodrigues no jornal e buscava a "vida real" nas calçadas.
Então ela abriu uma bolsa de couro legítimo e tirou uma nota de cinco mil cruzeiros. Para mim, aquilo era uma fortuna; para ela, talvez o preço de um chá na Confeitaria Fasano.
"Compre um agasalho para esse menino", disse ela ao "Professor", com uma voz que cheirava a talco e sabonete caro.
O "Professor" pegou a nota com a ponta dos dedos, como se fosse um documento histórico. Olhou para a mulher, depois para mim, e deu um sorriso desdentado que era puro sarcasmo e sabedoria: "A senhora é muito generosa, madame. Mas o frio de São Paulo a gente não espanta com lã. A gente espanta com movimento."
Assim que a mulher sumiu na multidão, o "Professor" entregou a nota para mim. "O que eu faço com isso?", perguntei, com o coração batendo no ritmo de um samba de Adoniran Barbosa.
"O que você quiser. Mas se fosse eu, comprava um bilhete de loteria ali na esquina e um sanduíche de mortadela no Mercado Municipal. O sanduíche garante o hoje, o bilhete irá alimentar o amanhã."
Eu não comprei o bilhete, atravessei o viaduto e fui até a porta de uma livraria na Rua Direita, lá comprei um caderno de capa dura e um lápis. Naquela tarde, sentado no meio-fio, enquanto os primeiros ônibus elétricos passavam silenciosos como fantasmas de metal, comecei a escrever a minha história.
Nessa história eu falava da fome, do frio. Das noites em que dormia ao relento no contorno do Edifício Itália que subia em direção às nuvens. Percebi que, se não tinha um lugar no mapa de São Paulo, então eu criaria o meu próprio mapa no papel.

®Jorge Bessa Simões

®Velhas Memórias Poéticas. Copyright © 2013-2026
®Direitos Autorais Reservados. Lei 9.610/98

*Imagem Gerada por IA.
©Todos os direitos reservados/2026
 

Nenhum comentário:

Postar um comentário