quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

*"Um menino de rua" (Crônica da Vida)

Embora tivesse uma família e um lar, um acontecimento terrível, após ter tido a minha infância roubada da forma mais brutal e violenta, que se pode afligir a uma criança, acabei por me tornar um menino de rua.
Por muitos anos fiquei exposto ao sofrimento de várias maneiras, ficava vagueando pelas ruas, sem futuro, só o presente, era cada dia pior que o outro, tinha somente 8 anos quando tive que aprender a me sustentar, aliás, comia o pão que o Diabo amassou.
Batia de porta em porta, passando fome e medo, até porque não sabia quem seria o próximo crápula que travestido de alguém protetor iria me atender, porque algumas pessoas eram tão cruéis que, sabendo que não tinha o que comer, e se aproveitando da minha fragilidade na época, me ofereciam o que precisava em troca de abusos ainda mais brutais do que o que já havia passado.
Era assim que acabava por dormir no relento, exposto ao frio, chuva e outros riscos a minha frágil integridade, não havia ninguém para me proteger, e quando me ofereciam uma suposta proteção, o que recebia era mais violência abusando da minha infância que já tinha sido roubada.
Nas ruas era obrigado a me esconder entre os vãos dos viadutos e pontes, ou até mesmo em construções ou carros abandonados, para fugir dos garotos maiores que, por causa do que os havia acontecido, judiavam dos garotos menores, por isso me escondia para não ser encontrado e poder sobreviver.
Com o tempo meus pés foram calejando, andava descalço pelos becos da cidade, me cobria com papelões, andava sempre vestido por trapos que encontrava em meio aos lixos revirados.
Quantas vezes fiquei doente, sentia dores terríveis, porque muitas vezes revirei lixo a procura de um pedaço de pão, pondo em risco minha vida comendo sobras de algum restaurante ou padaria.
Até hoje, quando me recordo daqueles tempos de menino de rua, me dá arrepios, perdi as contas de quantas vezes adormeci sem ter comido nada, meus olhos eram secos, pois nem lágrimas mais tinha, tudo isso foi só o começo dos meus pesadelos, depois que me tornei um menino de rua.
Certa vez, a fome era tanta que entrei num restaurante, quem sabe alguém me ofereceria um prato de comida, mas, nem os garçons me deram atenção, aquela foi a primeira vez que senti tamanho preconceito, mesmo sendo só uma criança.
Estava maltrapilho e descalço, porém, estava ali, fazia parte de um quadro geral da cidade, mas, percebi naquele momento que não tinha direito algum a nada a minha volta, quando me lembro daqueles tempos, me dói no fundo do meu coração.
Foi então que conheci o lado mais terrível da vida, porque via crianças como eu, se metendo em encrencas na tentativa de comer algo, algumas chegaram a ser mortas com um pedaço de pão duro ou um punhado de comida entre as mãos, outras eram levadas ao vício, no começo era benzina, depois fluído de isqueiro, cola de sapatos e em seguida as drogas mais pesadas, e de novo, esse mundo cruel colocava um preço alto demais a ser pago, quando não morriam pelas mãos dos traficantes, eram mortos pelas autoridades da época, era triste o fim de muitos meninos de rua, como eu.
Acabei encontrando um jeito de me impor nas ruas, comecei a andar com outros meninos de rua que conseguia controlar, para que juntos fossemos mais forte, e por andar juntos dividíamos tudo, ainda mais se conseguisse arranjar comida, e foi assim que fui sobrevivendo naquela vida.
Sempre a margem da miséria, alguns meninos se deixavam levar pelas conversas dos marginais, e acabavam se envolvendo no mundo do crime, foi assim que vi alguns morrerem bem diante dos meus olhos, aquilo era um aviso, de como nossas vidas não tinham valor algum.
Um dia, uma senhora se aproximou de mim e me ofereceu ajuda, nunca mais me esqueci dela, me levou pra sua casa me deu um banho, roupas limpas e um bom almoço, depois foi me ensinando a como ser alguém melhor, sem querer, ela me ajudou a me tornar um adulto melhor.
Hoje quando me lembro daquele menino de rua que fui um dia, isso me deixa triste porque sei que ainda tem muitos meninos de rua por ai, alguns presos pelas armadilhas da vida, pelas drogas, a prostituição ou mortos jogados em algum bueiro da cidade.
Sei que não posso mudar o mundo, e ninguém vai, mas tomará que logo logo venha o reino do Verdadeiro Deus, e com ele esse terrível pesadelo se acabe, tenho certeza que até meus traumas e minhas cicatrizes não existirão mais, porém até lá, não gostaria de ver mais os meninos de rua por ai, como um dia também fui.

®Jorge Bessa Simões

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