
Sem querer, mas como já estava na rua desde os meus oito anos, acabei me tornando uma testemunha ocular de uma São Paulo que tentava esconder suas cicatrizes sob camadas de asfalto novo.
Mais uma vez peguei meu velho caderno e, abaixo da frase que escrevera em 1967 ou 68, acrescentei a última linha: "A cidade não aprendeu meu nome, mas, com certeza, ela vai ter que olhar para os meus olhos."
Agora o calendário marcava 1970, naquele ano a seleção brasileira se tornaria tricampeã na cidade do México, já em São Paulo, a cidade se tornava uma selva de guindastes.
Um tal de "Milagre Econômico" erguia espigões na Avenida Paulista na mesma velocidade com que o silêncio era imposto nas redações de jornais e revistas, no teatro e cinema, além das universidades.
A cidade já não tinha o charme da terra da garoa; tinha o peso do concreto bruto e o ritmo frenético de quem precisava produzir para não ser engolido.
Eu agora era Jorge. "Jorge Office Boy", era como me chamavam na redação de um grande jornal que tinha me contratado para trabalhar como assistente de laboratório fotográfico. Do alto dos meus 14 anos, já não morava mais embaixo do viaduto e nem dormia mais debaixo de qualquer marquise, tinham me arrumado um quartinho nos fundos de um casarão na Bela Vista.
No subsolo do jornal, sob a luz vermelha e o cheiro forte de fixador e revelador, eu via a história do Brasil e de São Paulo passar por minhas mãos antes mesmo de chegar às bancas. As imagens que revelava mostravam fotos de políticos de óculos escuros, inaugurações de rodovias que pareciam não ter fim e o rosto suado dos operários que construíam o Metrô.
Como disse, às vezes, um homem de terno cinza entrava no laboratório do jornal e, com um gesto seco, confiscava os negativos. Com autoritarismo arrogante ele dizia: "Essa não sai, rapaz". Eu apenas concordava, mas guardava a imagem na memória.
Eu ainda carregava o caderno de 1965. Mas agora, embora eu usasse o lápis para escrever minhas anotações, poemas ou poesias, ele foi substituído por uma câmera Leica de segunda mão, que me ajudaram a comprar e que pagaria com muitas refeições puladas.
Certa tarde, caminhando pelo Largo do Paissandu, vi um vulto familiar sentado em um banco de pedra. Era o "Professor". Mas o rádio Transglobo estava mudo, com a antena quebrada. O velho parecia uma estátua de poeira, esquecida pelo progresso que ele tanto profetizara.
Bem devagar me aproximei dele e com muito cuidado o chamei; "Professor"?. O velho demorou a focar os olhos. Quando me reconheceu, um resto de brilho surgiu sob as pálpebras cansadas.
Ele me perguntou: "Você virou um deles, rapaz?", apontando para a câmera fotográfica no meu pescoço. "Você está tirando retrato da mentira para vender a verdade?"
Me sentei ao lado dele e respondi; "Não! "Professor", eu tiro foto do que vejo. O que fazem com a foto depois, ainda não consigo controlar. Mas eu guardo os negativos que eles mandam queimar. Um dia a gente vai precisar deles para lembrar quem a gente foi."
O "Professor" sorriu, tossindo e disse; "A cidade ficou barulhenta demais, rapaz. Já não ouço mais o universo. Só ouço o som das britadeiras."
Naquela mesma semana, eu estava na Praça da Sé. As obras do Metrô haviam transformado o coração da cidade em um buraco imenso de terra vermelha. Entre as máquinas, vi um grupo de operários dividindo uma marmita fria sob o sol escaldante, enquanto, logo acima do canteiro de obras, um outdoor gigante anunciava: "Brasil: Ame-o ou Deixe-o".
Eu não pensei, apenas ajustei o foco, medi a luz e disparei. O clique da câmera foi como um tiro silencioso. Um policial se aproximou de mim, mas eu fui mais rápido. Afinal, eu não era mais a criança que fugia por medo; agora eu era o jovem que fugia por missão. Mergulhei na multidão, cruzei a Galeria do Rock e desapareci nos becos que conhecia desde os oito anos de idade.
À noite, no silêncio do subsolo da redação, o responsável pelo laboratório, revelou a foto. A imagem era poderosa: o contraste entre o slogan ufanista e a realidade dura do prato de metal vazio. Olhei para o meu reflexo no espelho manchado, guardei aquele negativo em uma caixa de sapatos e levei para esconder sob o assoalho do quartinho onde eu dormia.
Eu sabia que os anos 70 ainda seriam longos, mas eu tinha o tempo a meu favor. Aquele menino de rua tinha aprendido que, para sobreviver em São Paulo, não bastava correr; era preciso registrar o rastro de quem ficou para trás.
®Jorge Bessa Simões
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