sábado, 4 de julho de 2026

"A inesquecível janela de outubro" (Poema)

Era outubro, o vento carregava folhas enquanto no meu caminho, em silêncio, abriu-se uma janela.
Nela surgiu uma mulher, não apenas bela aos olhos, mas daquelas raras belezas que iluminam a alma antes mesmo do rosto.
Ela sorriu, e naquele instante, eu, um homem que já conhecia o peso das perdas, o frio da solidão e a dor das cicatrizes, descobri que a esperança também sabe bater à porta.
Por algum tempo eu carregava ausências, lembranças das quais jamais consegui apagar, trazia no meu peito tantas despedidas, tantos sonhos interrompidos, que eu já havia aprendido a caminhar sozinho diante de tantas desilusões e decepções que a vida me impunha, desde minha inocência roubada.
Mas ela, chegou como chega a primavera depois do mais rigoroso inverno, sem promessas impossíveis, sem apagar o passado, apenas segurando minha mão e mostrando que o amor não exige que as cicatrizes desapareçam; ele apenas as transforma em marcas de uma história vencida.
Foi assim que ela me ensinou que amar é recomeçar mesmo quando tudo parecia terminado, que o coração, mesmo cansado e com tantas cicatrizes, ainda pode florescer.
E assim passaram-se os dias, os meses, as estações, até que chegou nossos quarenta e oito anos juntos, na busca que eles se tornem uma eternidade escrita a dois.
Quarenta e oito anos de risos compartilhados, de lágrimas enxugadas, de mãos entrelaçadas nas tempestades e nos dias de sol, hoje, quando outubro retorna, e chegamos a julho, parece que aquela janela ainda continua aberta.
E nela, ao menos nas minhas memórias, ainda vive a mesma mulher que eu vi como a mais bela de todas até então, porque sua beleza
não pertencia ou pertence apenas ao tempo, mas pertence ao amor que soube salvar um homem perdido de si mesmo.
Se existe um milagre, talvez seja este: "encontrar alguém, como eu encontrei, que transforme sofrimento em esperança, solidão em lar,
e uma vida marcada por cicatrizes em uma história que valeu a pena viver." Pois foi numa janela de outubro que esse homem voltou a acreditar no amor.
E agora, quarenta e oito anos depois, eu ainda a contemplo com os mesmos olhos agradecidos, como quem todos os dias descobre, mais uma vez, que o maior presente da vida foi vê-la surgir naquela inesquecível janela de outubro, e que me faz amar para toda a eternidade.

®Jorge Bessa Simões

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*Imagem Gerada por IA Baseada em Arquivo Pessoal
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