
Meu coração, acorrentado, esqueceu-se do voo. Minhas asas que um dia ousaram tocar o vento, jazem quebradas, cada batida soa como corrente ao se arrastar sobre pedra. Em meu peito, o ar é denso, como se estivesse cheio de pó e a cinza, e respirasse ruínas.
Cansado da súplica incessante da minha voz que ecoa como gota a cair sem fim numa gruta escura, ergo os olhos ao céu. As estrelas cintilam como brasas suspensas, e o seu brilho parece prometer consolo. Mas a sombra que germinou em mim é mais funda do que a noite.
Ela alastra como raiz venenosa, infiltra-se em cada recanto, e pesa, pesa mais, até ferir a chama clandestina que, em silêncio, insiste em permanecer ao meu lado.
Sou cárcere e carcereiro. Sou a muralha que me encerra e a chave que poderia me libertar. Também sou a centelha que resiste, mesmo quando tudo em mim parece ruir.
Diante desse paradoxo descubro minha essência: minha prisão não é apenas grades, é também espelho. A sombra que me habita é feita da mesma matéria que a luz que me acompanha. O silêncio que me sufoca é o mesmo que guarda a promessa de um grito.
Talvez um dia, quando o peso for insuportável, a mão cansada encontre coragem para rodar a chave esquecida. E então, a porta abrir-se-á não para fora, mas para dentro, revelando que o voo nunca me foi roubado, apenas está adormecido.
®Jorge Bessa Simões
(Baseado em Texto de Autoria Desconhecida)
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