
Tem alguns desses anos que o melhor é ficar quieto, enquanto eles se estendem como sombras nos anos que passam, é como se olhassem para mim de lado me perguntando; "Você entendeu alguma coisa?"
Já se passaram tantos anos desde que tive que escolher um caminho a ser seguido de uma forma muito dura, ainda tento entender em qual esquina da vida me perdi desde que tive minha infância roubada por algumas pessoas que não me permitiram viver meus sonhos.
Uma dessas escolhas foi a mais dolorida da minha vida, já que elas não entenderiam o verdadeiro motivo que me fez tomar aquela decisão, e assim no final não sei quem abandonou quem, o que sei é que, por vergonha me afastei de quem mais amava na vida.
E nesses anos todos ainda tento me livrar dessa versão desastrada, que tenta amar sem aos outros magoar, mas é difícil por causa da intransigência e pela falta da compreensão, e assim sou julgado de uma forma que desvalorizam todo meu esforço ao tentar fazer as coisas diferentes.
Esses anos ficam colados à minha roupa, no ar, nas xícaras de café, onde deveria estar na boca para trazer paz e tranquilidade, mas parece que o vapor que sai do café insiste em desenhar a discórdia e a insensatez, não quero voltar aos sofrimentos passados, gostaria muito de viver o que resta dos meus anos de uma outra forma.
Não quero viver este vazio tão educado, que bate à porta nos reencontros, só pra me lembrar, que não posso estar na vida daqueles que buscam se distanciar de mim por causa dos meus anos que avançam, por não merecer a chance de me redimir de alguns erros.
É estranho, porque busco viver de forma diferente, desde que não fira minha consciência, mas parece que nem isso tem valia.
Já tentei e tento, aprender uma nova linguagem para acompanhar o que falam nos dias de hoje, com sotaques tortos, mas tudo que consigo é ter que ficar em silêncio, já que isso traduz as coisas melhor do que palavras.
Mas mesmo que usasse essa nova linguagem, me obrigam a continuar me pronunciando sozinho, como se não tivesse vida própria, mesmo depois te ter passado tantos anos da minha vida.
Por isso continuo descobrindo coisas dentro de mim que não conhecia, aprendo a observar os lugares onde estou com muito cuidado, já não presto mais atenção a corpos, agora procuro enxergar atitudes e ouvir as palavras ditas para entender mais os ecos, talvez seja esse o meu tempo que chegou nos meus anos que logo podem se findar.
Então que eu comece a compreender que a distância nem sempre é sinal de abandono, às vezes é apenas o modo mais honesto de continuar sendo quem sou e pronto.
Os anos tem passado, sim. E ainda assim, olho para trás, não para procurar respostas do que poderia ter sido e não foi, mas para verificar que o que já vivi existiu, que não sonhei com isso.
Sei que em algum momento, mesmo nesta minha história absurda, tentei ser verdadeiro, e com isso, ainda tenho o suficiente, e se não acreditar nisso, logo os meus anos podem se findar e eu não vivi até aqui em vão.
Quer me compreendam ou não, me aceitem ou não, penso que até mesmo ao me odiarem e não quererem a minha presença em suas vidas, no fundo ainda vão me amar, mesmo depois que os meus anos se findar.
®Jorge Bessa Simões
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