
É cansaço. É aquela sensação estranha de viver num mundo tão cheio que, de repente, tudo fica vazio.
É quando me lembro que, abro o celular para “ver só uma coisa” e acabo olhando para tudo e ao mesmo tempo sem ver nada.
Nesse momento parece que mente fica tipo a tela do celular, com brilho no máximo, mas sem imagem.
Parece que estou vivendo numa espécie de laço: correr, produzir, mostrar, provar, repetir. E no meio disto tudo, me esqueço de sentir, reparar, respirar, de existir com calma.
A verdade é que a realidade atual está sugando a atenção como se fosse um aspirador emocional. Porque tudo é urgente, tudo é rápido, tudo é “agora ou nunca”.
Fico assim, meio desligado, meio presente, meio perdido, tentando acompanhar um ritmo que ninguém me pediu, mas que eu sigo.
E quando digo “já não consigo olhar para nada”, no fundo estou dizendo: “Preciso voltar a ver.”
Ver com alma, com pausa, com intenção, ver o que importa, e não só o que aparece ou parece. Porque a vida não é um rolar infinito. A vida é aquilo que acontece quando finalmente paro o dedo. E talvez seja isso que falta ser feito: parar.
Parar para sentir outra vez, para voltar a olhar para as coisas como se fossem novas. Parar para perceber que ainda há beleza a minha volta, mesmo quando tudo parece cinzento. Até porque tenho que concordar, a realidade está pesada.
Mas não tenho de carregar o mundo inteiro às costas. Às vezes basta desligar e guardar o celular, abrir a janela, respirar fundo e me lembrar que: Ainda estou aqui. Ainda dá para recomeçar. Ainda dá para ver. Ainda dá para se viver.
E quando eu voltar a ver tudo isso, então vou perceber que nunca tinha deixado de ser eu. Só tínhamos deixado de olhar.
®Jorge Bessa Simões
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