
Outras vezes, a curva da estrada se inverte: somos nós os escolhidos. Descobrimos, com um susto bonito, que viramos o porto seguro no mapa de outra pessoa, o abrigo onde o cansaço dela decide descansar.
E de repente, o destino resolve ir além do que havíamos planejado. Somos surpreendidos por entrar no meio de uma história que já estava sendo escrita, ocupando um lugar tão fundo que os nomes antigos já não bastam.
O que era uma grande amizade ganha um contorno mais forte, mais denso. Descobrimos que o sangue é apenas um detalhe quando a alma reconhece quem é irmão, quem é irmã.
Nesse ir e vir, a vida revela seu humor mais afetuoso. Ela ri das distâncias, zomba dos quilômetros e costura laços tão apertados que nem o tempo consegue afrouxar. Faz da ausência física um detalhe menor, porque o afeto encontra um jeito de estar presente. E é nessa graça bonita da existência que os papéis se multiplicam: o amor transborda a ponto de gerar vida sem precisar de biologia, fazendo nascer, no silêncio de um abraço, pais e mães para filhos que a vida gerou no coração.
No fim, não é sobre como começamos na vida de alguém, mas sobre a coragem de ficar. Seja como presente, como abrigo, como irmão que a vida escolheu ou como colo que acolheu uma filha do coração, somos feitos dessas pontes invisíveis que nos lembram, todos os dias, de que ninguém caminha verdadeiramente só, em especial quando se serve ao Verdadeiro Deus.
®Jorge Bessa Simões
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