
Tem alguns desses meses que o melhor é ficar quieto, enquanto eles se estendem como sombras nos anos que passam, é como se eles olhassem para mim de lado, tipo me perguntando; "Você já entendeu alguma coisa?."
Já se passaram 70 anos desde que você tive que escolher um caminho a ser seguido de uma forma muito dura, se foi a escolha certa ou errada? Não sei! Ainda tento entender em qual esquina da vida me perdi ou fui roubado desde a minha infância por alguns que não me permitiram viver meus sonhos.
Desde que saí da vida de algumas pessoas, poucas entenderiam o verdadeiro motivo de tão dolorido que me era tomar tal decisão, porque no final não sei quem abandonou quem, tudo que sei é que, por medo e vergonha me afastei de quem mais amava na vida.
E nesses meus 70 anos ainda tento me livrar dessa versão desastrada, que tenta amar sem aos outros magoar, mas é difícil por causa da intransigência de uns poucos a minha volta, que por não tentar me compreender, me julgam de uma forma que desvalorizam todo meu esforço ao tentar fazer as coisas diferentes.
E assim os anos ficam colados à roupa, no ar, nas xícaras de café, onde deveria estar na boca para trazer paz e tranquilidade, mas que nada, parece que o vapor que sai do café insiste em desenhar a discórdia e a insensatez, não quero voltar aos sofrimentos passados, gostaria muito de viver o que resta dos meus anos de uma outra forma, tentando ser feliz, mas parece que não querem.
Também não quero viver este vazio tão educado, que bate à porta nos reencontros, só pra me lembrar, que não posso estar na vida daqueles que buscam se distanciar de mim por causa dos meus anos que avançam, por acharem que não mereço a chance de me redimir de alguns erros.
É estranho, sabe? Porque eu busco aprender a viver de forma diferente, desde que não fira minha consciência, mas parece que nem isso tem valia. Já tentei e tento, como que aprender uma nova linguagem para acompanhar o que falam nos dias de hoje, com sotaques tortos, mas tudo que consigo é ter que ficar em silêncio que traduzem as coisas melhor do que palavras.
E mesmo usando essa nova língua, me obrigam a continuar me pronunciando sozinho, como se não tivesse vida própria ou minhas memórias, mesmo depois te terem se passado 70 anos da minha vida.
Talvez por isso continuo descobrindo muitas coisas dentro de mim que não conhecia, aprendo a observar os lugares onde estou com muito cuidado, e de forma diferente, já não presto mais atenção a corpos, agora procuro enxergar atitudes e ouvir as palavras ditas para entender mais os ecos, talvez seja esse o meu tempo que chegou nos meus 70 anos que logo podem se findar.
Talvez é chegado uma maneira elegante de deixar de insistir naquilo que já não querem mais solução, afinal, eu tentei! Então que eu comece a compreender que a distância nem sempre é sinal de abandono, às vezes é apenas o modo mais honesto de continuar sendo quem sou e pronto.
Os anos tem passado, sim. E ainda assim, nos altos dos meus 70 anos tem dias que fico surpreso, olhando para trás, não para procurar respostas do que poderia ter sido e não foi, mas para verificar que o que já vivi existiu, que eu não sonhei com isso.
Que em algum momento, mesmo nesta minha história absurda, tentei ser verdadeiro, e isso, embora doa ou quem sabe mesmo que cure, ainda tenho o suficiente, porque se não acreditar nisso, logo os meus 70 anos podem se findar e eu não vivi até aqui em vão.
Quer me compreendam ou não, me aceitem ou não, penso que até mesmo ao me odiarem e não quererem a minha presença em suas vidas, lá no fundo ainda vão me amar, mesmo depois que os meus 70 anos se findar.
®Jorge Bessa Simões
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