
Para os que ficam na presença diária, a rotina me ensinou a ter peito firme, por isso tenho aprendido a guardar as lágrimas do cotidiano, a engolir a canseira e a manter a casa em pé.
Meu amor ainda tenta conviver de forma expressa no prato posto à mesa, na pergunta sobre o meu dia, e na proteção silenciosa daqueles que não me pedem aplausos, mas o silêncio de quem escolheu se manter distante pesa de um jeito diferente.
Aos filhos que decidiram traçar seus caminhos longe do olhar desse pai, seja pela busca natural do próprio espaço, pelas escolhas da vida ou pelas distâncias que se criaram sem que ninguém percebesse, fica o sobressalto dos dias em silêncio.
Porém esse pai pode até não chorar na frente das pessoas ou no meio da rotina agitada, e assim vou seguindo o dia, cumprindo os deveres, sorrindo quando é preciso. No entanto, é na quietude da minha casa, quando o barulho do mundo se apaga, que o meu peito transborda.
Não! Não é um choro de cobrança, tampouco de mágoas ou ressentimentos. É a saudade pura e desarmada do tempo em que os passos eram pequenos e couberam sob o mesmo teto.
É o amor paterno que, mesmo sem espaço na rotina de quem se distancia, continua ali: intacto, vigilante e em silêncio.
Entretanto uma coisa é certa, a vida me ensinou que honrar o próprio caminho é parte de crescer, e como pai, sou consciente de que em alguns momentos da vida eu errei nas minhas escolhas ou até nas minhas atitudes, mas nunca desejei segurar os pés de quem nasceu para voar.
Sempre busquei ensinar aos meus filhos que, para além da distância e das escolhas que possam nos afastar, existe um peito que não guarda mágoas e nem rancor, mas que transborda, em segredo, e esse é um amor que nunca deixou ou deixará de esperar por vocês, enquanto eu tiver tempo.
®Jorge Bessa Simões
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