terça-feira, 4 de agosto de 2026

"Uma fotografia que o tempo deve a esse pai" (Crônica da Vida)

Nas minhas tardes silenciosas, quando o sol amarela o piso da sala e a casa deixa de ficar fria, me pego fazendo a única coisa que ainda me mantém inteiro: vou organizando uma cena na cabeça.
Eu não peço por milagres, nem que o tempo volte atrás, meu único desejo é o de ouvir o barulho de quatro cadeiras sendo arrastadas ao mesmo tempo ao redor da mesa de jantar na sala.
Faz anos que a vida se encarregou de desatar os nós que dei com tanto cuidado. Vi meus filhos crescerem e ganharem o mundo.
Mas agora sentando a beira dessa mesa de jantar, com a minha imaginação solta nas minhas memórias, na outra ponta da mesa, vejo o meu filho mais velho, ainda compenetrado, carregando a responsabilidade no olhar e um sorriso que une.
Meu filho do meio, sentado quase ao meu lado, com aquele riso solto que costumava espantar qualquer tristeza lembrando das suas artes de menino; e entre os dois, meu filho caçula, ainda tentando encontrar o próprio ritmo, mas sendo zoado como sempre, desde pequenino pelos dois irmãos mais velhos.
E é claro a minha menina, que mesmo tendo sido fruto de uma outra história, é a irmã dos meus três filhos, e assim cada um a sua maneira, tem em seus rostos olhos firmes que me trazem de volta a presença de suas mães.
Três homens e uma mulher, quatro caminhos que se distanciaram tanto, que às vezes duvido que já couberam sob o mesmo teto.
Porém é nesse momento que me entristeço, sinto o meu corpo dar seus avisos, sem pressa, mas sem pausa. Sei que o tempo não negocia prazos e eu não tenho pretensão de esticar a minha vida além da conta. Mas tem algo que eu sonho, ou melhor, gostaria de concluir antes que o silêncio definitivo tome conta desta casa.
Assim imagino o dia em que a porta vai se abrir e todos vão entrar juntos. Sem mágoas guardadas, sem olhar para o relógio, sem a pressa que o mundo exige.
Depois imagino a gente caminhando até o quintal, indo para o jardim que sempre cuidei com esmero. Quero ver meus três filhos de pé, guardando a irmã ao centro, no primeiro momento, não quero estar ali no meio deles, mas os vendo juntos bem diante dos meus olhos, sei que vou sentir mais uma vez o calor daqueles que um dia carreguei no colo.
Tudo o que preciso é de um instante, o tempo exato de um clique, e assim tirar essa fotografia que eu sonho a tanto tempo.
Depois posso até tirar uma outra no meio deles, e imprimi-las para colocar na minha mesa do computador. Não por vaidade, mas para ter a certeza, ao menos um segundo antes de fechar os olhos de vez, de que a minha maior obra continuará inteira quando eu já não estiver aqui, como um epitáfio final com todo o meu amor que nunca coube em palavras.

®Jorge Bessa Simões

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*Imagem Gerada por IA Baseada em Arquivo Pessoal
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