sexta-feira, 21 de agosto de 2026

"O menino em mim que nunca desistiu" (Crônica da Vida)

Meu tempo tem passado rápido demais, e assim, como tantas vezes, imagino como seria se eu pudesse voltar no tempo e me reencontrar na minha infância.
Claro que isso não é possível, não existe uma máquina do tempo para isso, porém como vivo numa época tecnológica, pensei; "porque não pedir ajuda a tecnologia e quem sabe talvez me proporcionar essa volta?"
Assim usando a inteligência artificial, recriei uma imagem com base nos meus arquivos pessoais para representar aquilo que acontece dentro de mim, e como gosto de escrever minhas histórias, quem sabe eu consiga, através das minhas memórias voltar no tempo, e de repente...,
Ali estarei eu diante de mim, um menino sentado na cadeira de um antigo estúdio de fotografia, com as pernas cruzadas, usando um terninho infantil e com tantos sonhos.
Sonhos que pouco tempo depois dessa fotografia, se tornaram pesadelos e que transformou a minha vida para sempre, e foi assim que acabei me tornando um garoto de rua, já que tive minha infância roubada de uma forma violenta, com isso cresci longe dos meus pais, por vergonha de tudo que me acontecerá.
Mas eu sobrevivi, enfrentei muitas coisas desde então, nas ruas, vi muitos meninos e meninas sendo derrotados pela vida, mas eu lutei, e ainda que a distância da minha família, tive uma mãe forte que nunca me abandonou, mesmo diante de uma negativa por causa da vergonha que eu enfrentava, ela foi guerreira o suficiente para me amar por nós dois.
Me tornei um menino que muita gente dizia: “Esse ai, não vai dar em nada.” Mas, ainda assim, busquei escrever uma história diferente do que pensavam, mesmo sendo só um pequeno menino.
E assim, voltando no tempo, e me vendo sentado naquela cadeira, diria para meu eu menino: "Olhe para mim, reparou como estou bem no meu terno?"
Então, meu eu menino me pergunta: “E nós, vencemos?”
Bem, eu responderia para mim mesmo, sobre os meus estudos, as minhas conquistas e de alguns sonhos realizados, falaria também da família que formei e dos meus filhos, apesar de todas cicatrizes que a vida me deu.
Mas nada disso responderia à pergunta do meu eu menino, então, eu sorriria e responderia; “Sim! Mas não porque nos tornamos conhecidos ou porque construímos um patrimônio ou pela família que temos. Nós vencemos, sim! Porque ninguém conseguiu transformar a nossa dor em amargura, e o sofrimento que nos fez sairmos da nossa casa, não nos derrotou. Porque nós nunca deixamos que a falta de muitas coisas na nossa vida, definisse o nosso valor.”
Diante dessa resposta, o meu eu menino ficou em silêncio, e me olhando bem dentro dos olhos, de novo me pergunta: "Então, quer dizer que valeu a pena?”
Nesse momento me lembrei das portas fechadas, das humilhações que sofri nas ruas, das noites difíceis tendo que dormir debaixo de marquises úmidas ou dos bancos gelados, onde muitas vezes achei que Deus tinha se esquecido de mim e por isso estava em silêncio.
Mesmo assim, respondo para meu eu menino: "Sim! Valeu cada lágrima, cada ‘não’, cada porta fechada, e cada dia em que pensou que Deus tinha se esquecido de você e não ouvia suas orações.
Mas sabe, Ele nunca se esqueceu de você, porque Ele te dava forças e coragem para que a nossa história fosse um pouco melhor do que você conseguia enxergar.”
Antes de voltar para o meu tempo, coloco minha mão em seu ombro, e digo para o meu eu menino: “Continue acreditando, faça sempre o seu melhor, seja o mais verdadeiro e honesto e, principalmente, confie sempre no nosso Verdadeiro Deus”.
Então o meu eu menino sorriu, e descendo daquela cadeira do estúdio de fotografia, saiu correndo para brincar.
Assim, volto para a minha realidade, entendo que não poderei voltar ao passado para ensinar àquele menino que fui um dia, a como ter coragem para enfrentar tudo que viria em sua vida.
Porém, seu pudesse voltar, seria para agradecer, pois foi aquele meu eu menino quem suportou tantas dores e sofrimentos, e eu? Bem, eu só vivi o futuro que ele escolheu não abandonar.
E chegando no tempo que estou vivendo, compreendo que essa é a maior lição da minha vida, compreendo que nunca se deve julgar o futuro de uma criança pelas escolhas que ela faz na infância, por não entender as consequências de uma vida cheia de sofrimentos desde que ela nasceu.
Desta forma, acredito que o maior milagre que aconteceu na minha vida, não foi o homem que eu me tornei, mas foi sim, o menino em mim que nunca desistiu.

®Jorge Bessa Simões

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*Imagem Gerada por IA Baseada em Arquivo Pessoal
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