sábado, 11 de abril de 2026

*Ontem fez 70 anos que vim ao mundo" (Crônica da Vida)

Muitas vezes ouço pessoas me dizerem que vivo o passado, que lembrar do passado é algo desnecessário, e outras tantas coisas, mas enfim, para mim o passado é só um espelho dos meus acertos e erros, e de tudo o que vivi.
Mas quando olho através desse espelho, não é para ficar me lamuriando do que foi e que não poderia ter sido, e nem do que poderia ter sido e não foi.
O passado é o reflexo de quem sou agora, e dos momentos que estou vivendo, por isso não preciso repeti-lo para mostrar quem posso ser no futuro, tudo faz parte de um aprendizado, ainda que carregue algumas cicatrizes de certas escolhas ou das imposições que a vida me deu.
Porém não voltaria um único dia na minha vida, ainda que lembranças boas não me faltem, à minha infância, mesmo porque não sinto orgulho de mim, até por ter me deixado acontecer certas coisas.
Me lembro que me senti muito feliz no dia em que ganhei meu primeiro carrinho de brinquedo aos 6 anos de vida, mais tarde, me deram um velocípede que saí pedalando no primeiro minuto.
Também não voltaria à minha adolescência, mesmo me lembrando de quando fiz minhas primeiras viagens sozinho com umas amigas, e foi aí que aprendi um pouco mais sobre quem eu era, e sobre quem não era.
Não voltaria ao dia em que meus filhos nasceram, mesmo tendo a certeza absoluta de que foram os dias mais felizes da minha vida, e foi uma felicidade inédita.
Depois experimentei um amor que nem sonhava, e que poderia ter sido tão intenso, em especial quando ouvi dela as palavras que tocariam meu coração para sempre; "Papai".
Não voltaria ao dia de ontem, até porque ontem eu era mais jovem do que sou hoje, ontem eu era mais romântico do que hoje, ontem nem tinha pensado em escrever essas palavras, até porque ontem fez 70 anos que vim ao mundo.
Por isso não tenho saudades de mim com menos cabelos brancos, nem tenho saudades de mim mais sonhador.
Sendo assim, não voltaria no tempo, quer dizer ao passado, só para consertar meus erros, e não voltaria para a inocência que tinha, e que as vezes tenho ainda. Terei saudades da minha ingenuidade que nunca perdi?
Bem, tudo que posso dizer nesse momento é que não tenho saudades nem de um minuto atrás, até porque tudo o que já fui um dia, ainda prossegue em mim agora nos meus 70 anos.

®Jorge Bessa Simões

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