quinta-feira, 23 de abril de 2026

*"Só eu continuei a amar" (Crônica da Vida)

EU: Gostaria muito de agradecer o seu carinho cuidando de mim desde o meu acidente, espero não ter te aborrecido, soube que logo terei alta, mas gostaria muito de poder te ver de novo, será que posso?.
ELA: Delicadamente me pergunta: Quer que arrume o seu travesseiro?
Depois me fez outras perguntas, e não respondeu o que perguntei, até que...
ELA: Posso colocar minha mão sobre seu rosto? Quero ver seus olhos que ficaram escondidos por quase dois anos, estou tão feliz que esteja enxergando depois do seu acidente, sabe, desde o primeiro dia da sua internação comecei a cuidar de você, quando te via nos meus plantões sofria por não saber se você voltaria a enxergar, muitas vezes foi difícil sair do plantão e te deixar sozinho. Compreende o que estou te dizendo?
Foi então que vi as lágrimas rolar no rosto dela.
EU: Minha querida enfermeira, sei o quanto você cuidou de mim, acredite, mesmo sem enxergar imaginava como seria seu rosto, seus olhos, seus lábios, o som da sua voz trazia alívio as minhas dores, quando você não estava no plantão, me sentia perdido, suas mãos são como as de um anjo. Fico muito feliz por saber do seu carinho, nesse momento não existe nada tão único quanto ver seus olhos olhando os meus, e como esquecê-los se foram a primeira coisa que vi ao recuperar minha visão.
ELA: Teus olhos parecem duas esmeraldas de tão verdes, são tão lindos, quando os vi, depois de retirar suas ataduras, eles me fizeram gostar de você ainda mais, me perdoe.
E assim entre as lágrimas de nós dois...
EU: Perdoar? Perdoar de que? Nesse tempo todo o que mais queria era ter minha visão de volta e poder ver como você é, na minha imaginação eu já te achava tão bonita, fico ainda mais feliz por ver que não me enganei, você é muito mais bonita ainda, e se for para perdoar, então sou eu quem devo te pedir perdão, mas, antes me responda, será que não podemos enxergar o caminho para a nossa felicidade, juntos?
Ao final dessas palavras, como resposta, ela me deu nosso primeiro beijo, naquele momento tive a certeza de que Deus havia me dado dois presentes, depois de atravessar um dos períodos mais difíceis da minha vida.
E assim depois da minha alta hospitalar, nos reencontramos, e juntos fizemos planos para nosso futuro, mas infelizmente como muitas histórias de amor, a nossa seria muito curta, a vida não nos permitiria viver nossos sonhos.
Enquanto nos preparávamos para o nosso casamento, infelizmente a morte implacável a tiraria dos meus braços para sempre. E bem no dia do meu aniversário, a vida me tiraria o presente que eu havia ganho desde o dia em que a vi pela primeira vez.
E para mim só restou guardar no meu coração e nas minhas memórias, aquele sonho que um dia, por breves momentos ao lado dela eu vivi, porque no final, só eu continuei a amar.

®Jorge Bessa Simões

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