
Por isso vou tentar traduzir em palavras esse sentimento de vulnerabilidade, "mea culpa" e, acima de tudo, minha humanidade.
Dizem que os filhos não vêm com manual de instruções, mas o que esqueceram de me dizer é que como pai, também não nasci sabendo como segurar o mundo nas mãos sem deixar nada cair.
E agora, já quase no final da vida, eu percebo que deixei, porque ao olhar para trás, ouço o eco das minhas escolhas que ressoam nos dias de hoje. E vejo a verdade, nua e crua, que evitei encarar por anos, e que finalmente me cobra o preço: "eu não fui um bom pai."
Mas o que escrevo agora, não se trata de falta de amor. O meu amor sempre estava lá, guardado em algum lugar dentre as minhas preocupações com o sustento e o cansaço dos meus dias longos.
O que eu quero dizer, é que o problema nunca foi o sentimento, mas a tradução dele. Por exemplo, eu achei que prover o necessário era o bastante. Achei que garantir o teto e a mesa com alguma fartura quitaria a minha dívida de presença, que engano enorme. Porque enquanto eu estava ocupado demais construindo o futuro, o presente passava sem que eu percebesse.
E agora ao rever certas coisas na vida, percebo que, perdi os desabafos que viraram nós nas gargantas dos meus filhos, percebo que troquei o tempo de escuta por conselhos rápidos e, muitas vezes, duros demais. Estive presente de corpo, mas com a minha mente a quilômetros de distância.
Hoje, com o fim da vida chegando, passei a compreender que o pior erro de um pai, não é a bronca injusta em um dia de estresse; mas foi, ou melhor, é, a distância emocional que constrói muros onde deveriam existir pontes.
Agora quando olho para os adultos que meus filhos se tornaram, embora sinta um orgulho imenso da força de cada um, eu sei que parte dessa força veio da necessidade de aprenderem a caminhar sozinhos. Tudo porque ele tiveram que aprender a se virar, já que eu não estava lá para segurar suas mãos.
Com meu tempo avançando, sinto uma culpa que é como uma sombra que insiste em me acompanhar no entardecer da vida.
E nesse momento, reconhecer o próprio fracasso dói. Rasga o peito aceitar que o tempo não volta e que os anos formativos se foram. Infelizmente não posso reescrever o passado, não posso apagar as noites em que meus filhos precisavam de um abraço e só encontraram a minha rigidez ou o meu silêncio.
Compreendo que, o termo "bom pai" talvez nunca me caiba por inteiro nas minhas memórias, mas, se ainda me restar alguma chance nesta jornada final, que seja a de ser alguém melhor hoje. Não posso consertar o ontem, mas posso desarmar o meu orgulho, por isso estou aqui, revendo as coisas da minha vida, embora tardio, imperfeito, e carregando o peso dos meus erros, mas finalmente estou me sentindo pronto para ouvir, para pedir perdão e para tentar, ainda que de um jeito desajeitado, ser o porto seguro que eu não soube ser no passado.
®Jorge Bessa Simões
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