sábado, 18 de julho de 2026

"Como pai vou costurando meus pedaços" (Uma história que não contam) (Crônica da Vida)

Quando criança, tive minha infância violentada e roubada, por medo e vergonha nunca havia contado isso a ninguém, nem mesmo para minha mãe, foi preciso muita coragem para anos depois conseguir fazer isso, e expor essa história que não contam.
Agradeço a mulher que me tirou dos trilhos do trem onde me descartaram após o que fizeram comigo, acreditando que eu estava morto, depois de ter revelado tudo o que me ocorreu, onde me deram uma surra que me deixou desfalecido.
Mais tarde, por não conseguir conviver com minha família verdadeira, fui criado por outras pessoas, que como eu viviam perambulando pelas ruas, foi assim que eu conheci o pior lado do ser humano, cheguei a descer os últimos degraus da podridão humana, mas graças ao Verdadeiro Deus, sobrevivi a tudo isso, e mantive em mim o meu melhor, ser quem sou e não quem fui.
Com os anos, deixei de ser um garoto para me tornar homem, deixei tudo aquilo que de ruim me acontecerá, e com aquelas lições que a vida me deu, me tornei pai, e eu jurei que meus filhos não passariam por tudo o que passei, e creio que consegui.
Mesmo entre lágrimas e sorrisos, com escolhas erradas tentando acertar, e com minhas cicatrizes, decidi que poderia lutar pela minha sobrevivência, com o tempo entre uma chance e outra, consegui amenizar meus sofrimentos e as dores da minha alma.
Levei tempo procurando a cura para meu espírito doente e cansado, mesmo sabendo que irei carregar ferimentos que não se curam, vira e mexe eles sangram, literalmente no meu íntimo.
Foram anos vagando na escuridão humana em busca da minha libertação que parecia nunca chegar, não sei quantas vezes implorei pela morte, pois a maldade a cada dia me destroçava, e mesmo ainda hoje, vejo que ela não mudou, só trocou os personagens e o tempo.
Houve momentos na minha vida em que um simples "Oi" me deixava paralisado, até que, um dia renasci novamente, acordei com uma mão diante dos meus olhos, me oferecendo, senão a cura de tudo, ao menos para me ensinar a como suportar a vida, e recomeçar uma nova fase da minha história com força e garra.
Com isso aprendi a suportar minhas dores e a cuidar das minhas feridas, porém as batalhas que enfrento agora, não são de luta para sobreviver, mas é a luta daqueles que por incompreensão me apontam o dedo, não só para me acusar, mas para me condenar.
E essa é uma batalha que dói, pois parece que é só essas pessoas que tem a verdade, a minha não conta, e são essas batalhas que hoje me desgastam, física, emocional e até espiritualmente.
Para piorar me sinto cansado, estou ficando velho e obrigado a assumir minhas limitações físicas, minhas rugas e meus cabelos brancos nessa batalha, tem a força da natureza.
Mesmo assim continuo mergulhado nas responsabilidades e no compromisso dos bons costumes, mas até meu cantar não é mais tão alegre como eu havia aprendido, minha alegria ao amanhecer e ao anoitecer, a cada dia desaparece, pois só me restam a dor da incompreensão.
Mas essa é uma história que não contam, muitos preferem esconde-la para não envergonharem seus falsos pudores, já que essa é uma história que choca.
Parte das minhas doenças, são aquelas que me esmigalham por dentro todos os dias, e é algo que no momento não tem cura, é uma dor do espírito que tortura minha alma cansada, e assim logo estará chegando o dia do meu adeus!
Muitos não sabem, mas tudo isso me faz ter noites de longa espera na tentativa de, mesmo sendo homem, costurar meus pedaços, e assim, a insônia se torna minha fiel companheira numa batalha que só terá fim, no dia em que esse pai morrer.

®Jorge Bessa Simões

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*Imagem Gerada por IA Baseada em Arquivo Pessoal
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