
É difícil ver os raios do amanhecer e saber que devo deixar o teu aroma perfumado que me inebria, como o toque de absinto, e abdicar da tua pele de um veludo profano.
Fere-me a luz do sol a penetrar as venezianas da janela do nosso quarto, onde nenhuma manhã será o bastante para me fazer esquecer das nossas noites de amor e carinho.
Dizem os puritanos de plantão que, amar é pecar, mas que culpa temos se eles não se amam por medo ou covardia, e depois se perdem num rumo abominável de suas realidades.
Assim quero aplacar nosso fogo e consumar nossos desejos para que recolhamos os mistérios do nosso ser ao nos amar, e num beijo profundo, sentir latejar a vida entre nós dois.
Afinal de contas, nenhuma manhã será grandiosa, o dia não valerá a pena, se não nos amarmos, nossa vida se esvai num êxtase profundo e profano, pois isso é o nosso amar.
Tudo entre nós é denso, teu perfume fica grudado em mim, penetra em minha pele, tanto que ao transpirar, sinto você comigo durante todo o dia, na espera da penumbra que irá nos envolver num novo instante noturno, onde recomeçamos o nosso amar.
Nem o raio de sol pode te traduzir como a luz noturna que te despe, me trazendo o enigma do teu corpo que me enlaça nesse nosso amar sem fim.
Esse é nosso amor de tantas fases, que a cada noite se multiplica, nos fazendo ser os mesmos amantes de outrora, ainda que o nosso tempo passe tão rápido.
®Jorge Bessa Simões
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