terça-feira, 21 de maio de 2024

*"Só eu continuei a amar" (Crônica da Vida)

EU: Gostaria muito de agradecer por seu carinho cuidando de mim desde o meu acidente, espero não ter te aborrecido, soube que logo terei alta, mas gostaria muito de poder te ver de novo?
ELA: Delicadamente me pergunta: Quer que arrume o seu travesseiro?
Depois me fez outras perguntas, e não respondeu o que perguntei, até que...
ELA: Posso colocar minha mão sobre seu rosto? Quero ver seus olhos que ficaram escondidos por quase dois anos, estou tão feliz que esteja enxergando depois do seu acidente, sabe, desde o primeiro dia da sua internação comecei a cuidar de você, quando te via nos meus plantões sofria por não saber se voltaria a enxergar, muitas vezes foi difícil sair do plantão e deixá-lo sozinho. Compreende o que estou te dizendo?
Foi então que vi as lágrimas rolar no rosto dela.
EU: Minha querida enfermeira, sei o quanto você cuidou de mim, acredite, mesmo sem enxergar imaginava como seria seu rosto, seus olhos, seus lábios, o som da sua voz trazia alívio as minhas dores, quando você não estava no plantão, me sentia perdido, suas mãos são como as de um anjo. Fico muito feliz por saber do seu carinho, nesse momento não existe nada tão único quanto ver seus olhos olhando os meus, e como esquecê-los se foram a primeira coisa que vi ao recuperar minha visão.
ELA: Teus olhos parecem duas esmeraldas de tão verdes, são lindos, quando os vi eles me fizeram gostar de você ainda mais, me perdoe.
E assim entre as lágrimas de nós dois...
EU: Perdoar? Perdoar de que? Nesse tempo todo o que mais queria era ter minha visão de volta e poder ver como você era, se na minha imaginação já te achava tão bonita, fico ainda mais feliz por ver que não me enganei, és muito mais bonita ainda, então sou eu quem devo te pedir perdão, porém, antes me responda, será que não podemos enxergar o caminho para a nossa felicidade, juntos?
Ao final dessas palavras, como resposta, ela me deu nosso primeiro beijo, naquele momento tive a certeza de que Deus havia me dado dois presentes depois de atravessar um dos períodos mais difíceis da minha vida.
Depois da alta hospitalar, fizemos planos para nosso futuro, mas infelizmente como muitas histórias, a nossa seria muito curta, a vida não nos permitiria viver nossos sonhos.
Enquanto nos preparávamos o nosso casamento, infelizmente a morte implacável a tiraria dos meus braços para sempre.
Para mim só restou guardar no meu coração e nas minhas memórias, aquele sonho que um dia ao lado dela eu vivi, porque no final, só eu continuei a amar.

®Jorge Bessa Simões

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*Foto Arquivo Google Imagens.
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